09 de julho de 2026
Economia & Negócios

Idade e laços com o Interior trazem executivos para região

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 5 min

João Rosan

Ernesto Monte Neto não tem vontade de voltar para a Capital

Ernesto Monte Neto, 59 anos, carrega no nome uma herança que todo bauruense conhece, mas ele nasceu em São Paulo. Executivo que construiu sua vida e carreira na Capital, decidiu, em 2003, mudar-se para Bauru.


Segundo empresas especializadas no recrutamento deste tipo de profissional, Ernesto integra um perfil bastante comum no meio: o de executivos que decidem trabalhar no Interior do Estado pelos laços afetivos que mantém com a região ou porque, depois de consolidarem suas carreiras, querem garantir maior qualidade de vida para si e para a família.


Consultora do Grupo Fesap, companhia que atua há 20 anos em todo o País na busca e seleção de executivos, Camila Sgavioli explica que é raro encontrar profissionais das grandes metrópoles que se disponham a transferir suas atividades para cidades menores quando não possuem qualquer vínculo ou interesse pessoal em viver nestas localidades. “Existe uma resistência, sim, até porque, dificilmente, os salários do Interior irão superar ou mesmo se igualar os patamares dos oferecidos na Capital”, afirma.


Quando decidem trocar a região metropolitana por uma rotina mais tranquila, é porque já viveram ou possuem parentes próximos que ainda moram no Interior. É o caso de Ernesto, executivo com 36 anos de carreira que se mudou para Bauru para cuidar do pai, que ficou viúvo.


“Meus filhos já estavam crescidos e ficaram em São Paulo. Embora eu nunca tivesse morado em uma cidade menor, não tive muitas dificuldades de adaptação. Hoje, minha mulher e eu não cogitamos mais sair de Bauru”, comenta ele, que viaja todos os dias para desempenhar suas funções como diretor-geral de uma fabricante de produtos químicos para a construção civil localizada em Lençóis Paulista, que foi comprada por uma multinacional suíça no ano passado.


Camila comenta que, para as empresas da região, o mais comum é recrutar executivos oriundos de outras áreas do Interior Paulista ou até de cidades maiores, mas de outros Estados. “Além de mais disponíveis, eles conseguem se adaptar melhor e mais rapidamente à nova empresa, porque têm mais facilidade para se acostumar à rotina da nova cidade”, considera.


Mais experiência


E o mesmo ocorre com quem nunca viveu em uma cidade menor, mas tem algum vínculo com ela, conforme explica o economista Reinaldo Cafeo. Ainda de acordo com ele, nestes casos, profissionais com mais anos de carreira tendem a aceitar mais facilmente as propostas de emprego.


“Quando o executivo já é casado e tem filhos, virá em busca de qualidade de vida, desde que encontre boas condições de moradia e educação para as crianças. Já os jovens querem, principalmente, boas condições financeiras, por meio de salário e bonificações que, ainda hoje, muitas empresas da região ainda não têm a tradição de oferecer”, detalha ele, que também atua como executivo.

Marcio Bruno/Divulgação

Camila Sgavioli explica que diferença de salários gera resistência

Por outro lado, segundo a consultora Camila Sgavioli, os jovens também enfrentam a resistência dos donos de empresas, ainda que esta descrença da capacidade de trabalho deste perfil de profissional esteja perdendo força ao longo dos últimos anos. “Mas, quase sempre, os que estão na faixa de 28 a 30 anos são chamados para assumir cargos de coordenadoria e gerência. Já os que têm entre 40 a 55 anos são preferidos para funções de diretoria e presidência”, frisa.


Em todos os casos, mesmo que para trabalhar no Interior, os executivos profissionais precisam ter fluência em inglês e experiência em empresas de grande porte nas áreas de atuação demandadas. Os ramos de atuação mais comuns são em logística e engenharia - dentro da indústria - e no setor financeiro.


Caminho de volta


Arthur Bernardi Angrisani Carvalho, 30 anos, tinha 18 quando deixou Bauru para cursar faculdade de administração em São Paulo e foi lá que começou a trilhar os primeiros passos de sua carreira como executivo. Pouco tempo depois de formado, já estava atuando em uma empresa multinacional, que  precisou reduzir seu quadro de profissionais durante a crise financeira internacional de 2008, que se prolongou em 2009.


Mesmo com uma nova proposta de trabalho, viu a oportunidade de retornar para sua cidade de origem. “Por meio da rede de contatos que eu ainda mantinha na cidade, soube de uma vaga de emprego e decidi encarar o desafio”, comenta.


Arthur iniciou sua nova trajetória como analista de processos em uma indústria de utilidades domésticas em plástico e, no ano passado, foi promovido a coordenador de logística. “No início, tive receio, mas, hoje, sei que fiz a melhor escolha. Sou valorizado profissionalmente e consigo ter uma vida social e com a família de melhor qualidade”, frisa.


Crise amplia a demanda


Segundo a consultora Camila Sgavioli, do Grupo Fesap, o desaquecimento econômico atual é um ambiente favorável para executivos, já que muitas empresas apostam suas fichas neste tipo de profissional para conseguir de reestruturar. “As empresas estão buscando, cada vez mais, eficiência operacional e financeira”, observa.


Ela explica que a abertura de cargos para executivos partiram, nos últimos anos, de empresas multinacionais estabelecidas na região, em um movimento de descentralização das indústrias em direção ao Interior e outros Estados do País, assistido em décadas passadas. A demanda também foi criada, contudo, por negócios de capital local, muitos deles geridos por núcleos familiares.


“Estas empresas cresceram ou então foram parcialmente ou integralmente vendidas para multinacionais. Ou, ainda, receberam aportes de investidores para se manter no mercado. Quando esta transição ocorre, a profissionalização da gestão também é necessária”.


O economista Reinaldo Cafeo destaca que esta profissionalização raramente é encontrada entre os sucessores do proprietário e que, quase sempre, é adotada tardiamente. “Não deveria ser assim, mas, via de regra, a busca por profissionais executivos qualificados só ocorre quando a empresa já está em dificuldades”, frisa.