11 de julho de 2026
Articulistas

Mais de mil palhaços no salão

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Dizem os historiadores que o Carnaval chegou ao Brasil pelos colonizadores portugueses, com uma visível determinação de dar ao povo uma oportunidade de se divertir. Era uma forma compensatória ao jejum e à abstinência que os aguarda na Quaresma. O entrudo, como era chamado, permitia que se molhasse o próximo com baldes de água, usados sem piedade até que todos ficassem ensopados. Hoje, esse tipo de brincadeira seria politicamente incorreto, dado a crise hídrica em que vivemos. Porém, a abstinência atual nada tem de religiosa. A carestia é que não nos permite o acesso a um bom bife de vaca. A inflação deteriora a renda do trabalhador. A moeda fraca, os apagões na distribuição de energia, a falta d?água e a economia claudicante dominam as nossas carências. O mela-mela foi substituído, ainda no século 19 pelo Carnaval, como parte de um processo "civilizatório" do imperador. Pedro II procurou mudar o caráter do ritual, com repressão policial, tornando-o uma cópia do modelo europeu veneziano. Surgiram as Grandes Sociedades, no Rio e em São Paulo, que organizavam os préstitos ? assim eram chamados os desfiles ? e a tentativa de separação das práticas populares do projeto europeu das elites da corte.

Mesmo revelando seu lado mais palaciano, o Carnaval não deixou de se mostrar propício à crítica política. Personagem frequente nos carros alegóricos, d. Pedro surgia, ora como Pedro Banana ora como Pedro Caju, numa alusão a sua falta de participação nos últimos anos do Império. A modernização cobrou o seu preço. Com a queda da monarquia, o populacho é que passa a eleger um rei do Carnaval ? o Rei Momo ? zombeteiro, pândego e amante da galhofa. Novos tempos, novos termos? Nem tanto. As razões críticas continuam as mesmas das letras das músicas compostas especialmente para o tríduo. Começa com o primeiro samba gravado, de Donga e Mauro de Almeida, em que "O chefe da polícia, pelo telefone mandou-me avisar..." Bezerra da Silva, em Reunião de Bacanas alerta: "Se gritar pega ladrão, não fica um meu irmão..." Os federais estão aí, de sobreaviso. "Quanto riso, oh, quanta alegria, mais de mil palhaços no salão...", de Zé Kéti; "Lata d´água na cabeça, lá vai Maria...", de Candeias. E aquela marchinha sempre atual: "Rio de Janeiro, cidade que me seduz/ de dia falta água/ de noite falta luz...", de Vitor Simon. Sucesso em 1954 e, outra vez a mais ouvida em 2015.

No início do século passado, Lima Barreto inventou a República dos Bruzundangas, país fictício com problemas sociais, econômicos e políticos muito parecidos com os do Brasil de ontem, e de hoje. Lá, tem uma lei que diz que se a lei não for conveniente à situação ela não é válida. Os maiores ladrões são os que têm por ofício livrar-nos de outros ladrões. Assim, o carnaval no Brasil pode ser entendido como um dos elementos que compõem a narrativa da nação. O ritual nacional consiste nesse evento marcado pela folhinha em vermelho, que para ou muda radicalmente as atividades da coletividade. Os compromissos deixam de ter qualquer importância, por mais urgentes, e adiados em razão da proximidade da data. Durante quatro dias, o país estaciona. Nem coleta de lixo existe. Os meios de comunicação consagram a festa popular com tempo e espaço generosos. Até que vale à pena, justamente pela possibilidade de dramatização de valores e as críticas abrangentes a toda a sociedade. São os dias em que os pobres podem se organizar para tornarem-se "nobres"; os homens podem "virar" mulheres e quase tudo é permitido. Joãozinho Trinta, o carnavalesco, dizia que "quem gosta de pobre é intelectual". Por isso mesmo esbanjava na riqueza das suas fantasias e carros alegóricos.

O símbolo coletivo do espetáculo disfarça as desigualdades sociais. Passam uma falsa ideia de que todos se encontram num mesmo status, na mesma posição. No Rio de Janeiro, as escolas de samba vendem vagas no desfile e alugam fantasias para os turistas que querem fazer um "selfie" para postar no Face, prova de que estiveram na passarela, como integrantes do grupo das Grandes Sociedades. Na classe política existe a preocupação de "parecer igual" aos que não têm nenhuma chance de usar o que é público, como se fora particular. A Comissão de Ética da Presidência da República passou orientação aos ministros sobre o comportamento exigido e esperado das autoridades no carnaval. Diz o texto: "Não há restrições a que a autoridade participe dos festejos de Carnaval, desde que por sua própria conta". E precisava avisar?

O autor, é jornalista e articulista do JC