Desde que o Facebook virou moda, invadindo "as praias" da sociedade, em toda a sua extensão, uma grande e profunda transformação começou a ocorrer nas relações sociais. Herói ou vilã, não podemos definir a sua qualificação, pois já é nítido que a ferramenta de comunicação pode oferecer as duas faces aos usuários, dependendo apenas da forma como é utilizada. Mas, deixando as críticas de lado, o fato é que o Facebook não caiu em nossas mãos junto com um manual de instruções e a verdade é que a maioria de nós ainda está aprendendo a lidar com esta irreverente forma de comunicação.
Perante esse novo modelo de relacionamento, o chamado "virtual", as pessoas apresentam opiniões, comportamentos e sentimentos variados e não pude deixar de observar as situações que vêm se tornando mais corriqueiras. Momentos de ansiedade ou solidão podem levar o internauta a irresistível desejo de postar tudo que vivencia, na ânsia de satisfazer a necessidade íntima e inconfessável de ser notado. Há pessoas que, para ganhar atenção, estímulo ou consolo, se dedicam a expor situações tristes e melancólicas de suas vidas. Outras agem por orgulho e exibicionismo, mostrando flashs que levam a audiência a concluir que sua vida é ótima.
O que pouca gente que sente inveja sabe é que, muitas vezes, as cenas postadas refletem apenas desejo de como esse usuário gostaria de viver. Numa tentativa de concretizar a ilusão da vida, selecionam situações exemplares e invejáveis e as publicam. Por outro lado, existem aqueles que postam fotos de situações corriqueiras da vida, na necessidade de se auto afirmar com tais registros comuns.
Não é incomum notarmos a utilização deste mundo virtual pra discutir relações e aproveitar ensejos para fazer insinuações ou dar indiretas a específicos navegantes, oportunidade esta que acaba gerando uma perda muito grande na vida real: a perda da capacidade de enfrentamento direto com as pessoas de seu meio ou convívio.
Outra conclusão simples que podemos chegar, por pura observação é que, por se tratar de uma rede aberta, democrática e numericamente populosa, com muitas pessoas de formações variadas, muita gente se arrisca, dando palpites virtuais, tendo como base somente o que foi publicado. Essas manifestações unilaterais costumam gerar atritos maiores, tendo como reforço, as chamadas "curtidas" que, muitas vezes, podem ter o efeito de provocação ou reforço. Essas atitudes, que vêm como resposta as postagens feitas pelos usuários do "Face", nem sempre são assertivas ou benéficas pra aquele que as postou, chegando a gerar raiva, vingança ou até inimizades. Para complicar ainda mais a situação, a ideia de clicar no botão "curtir" ainda é um código de comunicação confuso.
Do outro lado do computador, quem lê as postagens no feed de notícias passa a interpretar, analisar e julgar de acordo com suas próprias referências individuais de vida. Há quem sinta angústia por concluir que a vida das outras pessoas está muito melhor do que a sua ou por sentir o desejo de viver as situações que o outro vive. Isto, às vezes, faz com que nos apossemos da vida de terceiros, esquecendo assim de trabalhar as condições reais de nossa própria vida. Quem se debruça assim sobre a grama verde do vizinho, pode estar correndo o sério risco de despertar depressões "virtuais". Por estar impressionado com a realidade virtual alheia, o indivíduo pode passar a se desvalorizar, desqualificar injustamente o seu próprio mundo, as suas relações sociais e os seus relacionamentos afetivos.
O ato de acompanhar as publicações, diariamente, acaba gerando comparações, más interpretações, auto desvalorização do ser em sua essência, isso sem falar na possibilidade de ler um comentário às próprias publicações que, contrário às expectativas, acaba despertando mágoa, raiva e a sensação de não ser compreendido ou apoiado.
Com muitas contribuições positivas, esse veículo de comunicação torna-se nocivo com o exagero, a ausência de reflexão ou bom senso. Nós, usuários do Facebook, estamos aprendendo o equilíbrio que deve existir no uso desta ferramenta. E talvez aí esteja o segredo de um usufruto saudável. É bom nunca perder a consciência de que, a vida, apesar de publicável, continua sendo íntima e cada um é o único responsável pelas "dores e as delícias de ser o que é", como bem disse Caetano Veloso.
A autora é psicóloga