Faça chuva ou faça sol, todos os dias João Alves Teixeira se levanta às 6h, faz o café da manhã para a esposa Edméa Benedita de Oliveira, de 70 anos, lê o jornal, cuida da limpeza do quintal e da frente da casa e lava a louça. Logo depois do almoço, é hora da soneca sagrada. Tal rotina faz parte da receita de longevidade saudável do militar reformado que completa, hoje, 99 anos muito bem vividos, conta ele, e com saúde e bastante disposição.
Neste domingo, João Alves Teixeira será homenageado pela Polícia Militar (PM) em uma festa organizada pela família. Ontem, ao som de uma afinada gaita, o morador do Jardim Petropólis, recebeu a equipe do JC para falar sobre sua trajetória e também de uma segurança pública muito diferente da atual. A sua história com a polícia teve início em um dos períodos difíceis da vida do aniversariante.
“Eu trabalhava na Estrada de Ferro Araraquarense e fui para São Paulo tentar a vida. A Segunda Guerra estava a todo vapor e não havia emprego para ninguém. Pois bem, andando pela avenida Tiradentes, eu vi uma fila enorme, perguntei o que era e me disseram que era para o trabalho na Força Pública, como era chamada a Polícia Militar na época. Entrei para a polícia e trabalhei em umas 30 cidades de São Paulo. Conheci tudo quanto é canto”, narra.
Um policial à moda antiga, em uma época onde as leis e seus agentes eram respeitados. Assim João define aqueles anos de trabalho, onde tudo era diferente e deixou saudade. “Como não sentir saudade de uma época onde nossa farda era respeitada? Para começar, não havia rotina de crimes hediondos. Em São Paulo, o que havia eram batedores de carteiras nos bondes. No Interior, os roubos de gado e cavalo eram nossos desafios. Já me vi em tiroteio por causa disso”.
Sem drogas
Mas o que mudou tanto ao longo dos anos? Como a criminalidade evoluiu de roubo de cavalo até os moldes atuais, em que, por vezes, policiais têm as vidas tiradas e são encurraladas por quadrilhas fortemente armadas enquanto o resto do bando levam quantias volumosas de caixas eletrônicos? Para João, o ingresso do entorpecente na sociedade causou tal mudança.
“Naquela época, não sabíamos o que era droga. E eu acredito que ela é a responsável pela deterioração da segurança”, argumenta.
Na visão do aniversariante, a vida de policial era boa no passado, tendo em vista o respeito que a farda representava. “Hoje tudo está pior”. Ele se aposentou no início da década de 1960 como 2.º sargento, promoção que recebeu após ser convocado para a Segunda Guerra Mundial. “Só não fui porque a guerra acabou antes”, finaliza.
Família e origens
João Alves Teixeira é uma dessas figuras raras, que não se encontra em qualquer esquina. Ele nasceu em Franca, mas foi registrado em Três Lagoas, Mato Grosso do Sul, aos 14 anos de idade. Nascido em uma família bastante humilde, ele conta que a mãe faleceu quando ele ainda era muito pequeno.
“Fui criado pelos irmãos mais velhos, de casa em casa. Até que me casei, aos 19 anos. Vivi 60 anos com minha falecida esposa, com quem tive seis filhos. Hoje tenho 12 netos e 15 bisnetos. Sabe outro segredo de saúde? Sempre fui moderado com comida e bebida, nunca fumei e nem fui de ficar muito na rua”, faz questão de dizer, complementando que seus outros “gostos” são músicas e viagens.
Em Bauru, João chegou em 1982, onde já tinha filhos vivendo. Sobre um pedido ao completar 99 anos? “Só quero a graça de Deus, com saúde para mim e toda minha família”, deseja.
Há 10 anos, João é casado com Edméa Benedita de Oliveira, 70 anos, por quem demonstra muito amor.