11 de julho de 2026
Articulistas

Economia brasileira: cenário preocupante

Reinaldo Cafeo
| Tempo de leitura: 3 min

Para quem acompanha as notícias da economia brasileira, já entendeu que os quatro anos iniciais do mandato da presidente reeleita, Dilma Rousseff, foram desastrosos no tocante à política econômica adotada. As contas públicas se deterioram, gerando desconfiança de toda ordem, a inflação desgarrou da meta central, as contas externas não fecham, e tudo isso em ambiente de crescimento zero. Os gargalos ligados à infraestrutura se potencializaram e não havia outro caminho a não ser arrumar a casa. A presidente tem a oportunidade de consertar os problemas causados por ela mesma, com mandato vindo da maioria dos eleitores brasileiros.

Arrumar a casa neste contexto é fazer o que foi adiado: ajuste fiscal austero, isto é, gerar excedentes primários para demonstrar aos agentes econômicos, internos e externos, que há esforço para não deixar o endividamento público crescer, que há austeridade indicando caminho de recuperação e que, passada esta fase, a economia poderá entrar nos eixos.

A equipe econômica agiu nesta direção, mas o cenário tornou-se muito preocupante. Primeiramente porque ao não compartilhar tais ações com a base aliada do governo, inclusive com membros do Partido dos Trabalhadores, o governo Federal enfrenta sérias resistências para aprová-las no Congresso Nacional, principalmente aquelas que mexem com direitos dos trabalhadores. Sem ajuste fiscal os agentes econômicos não darão crédito ao governo.

Além desta questão, diria central, as medidas já colocadas em prática fizeram com que a inflação ficasse solta. Janeiro veio carregado, atingindo 1.24%, e a prévia de fevereiro não é nada animadora. Combustíveis e energia são exemplos da contaminação dos preços. Para combater a inflação ações na direção de segurar a demanda foram implementadas. IOF mais caro, juros mais altos, são exemplos das medidas adotadas.

A economia engessou ainda mais. Os empresários estão atordoados. O crédito ficou escasso, com bancos extremamente seletivos. As vendas não vêm. Sem vendas o enxugamento de custos é inevitável. Os trabalhadores observam encolhimento no mercado de trabalho.

Se tudo isso não bastasse, os Estados e Municípios estão sem recursos. Não estão pagando em dia seus prestadores de serviços. Também adiaram repasses importantes. Não estão investindo em obras públicas, aumentando ainda mais o impacto na baixa movimentação da economia. Os servidores públicos em alguns Estados já fazem movimentos coletivos visando preservação de direitos e pleiteiam pagamento de valores já devidos. No setor privado as pressões começam a existir. Os caminhoneiros já deram o tom da insatisfação. Podemos esperar outros movimentos importantes. O cidadão comum convive com a carestia. Alimentos com preços em alta. Preços dos combustíveis dispararam. O custo da energia está insuportável. Este cidadão está assustado e na dúvida optou pela cautela.

Nas redes sociais circulam questões de toda ordem, inclusive menção de impeachment da presidente Dilma, que parece estar sozinha, isolada, sem apoio. Ainda há a corrupção da Petrobrás e estamos a poucos dias da divulgação de lista com mais de 70 políticos que de alguma maneira receberam propina na operação lava jato. Sempre fiz uma leitura otimista da economia nacional. Inclusive com menção da frase "otimismo realista", mas isso tudo dentro de um ambiente de normalidade, em condições de negociação dos ajustes fundamentais para economia nacional, o que não se observa agora.

De duas uma: ou a presidente Dilma toma rédeas da situação, agindo rápido (neste contexto irá até praticar o toma lá dá cá, negociando cargos nos segundo e terceiro escalões), acomodando as coisas, ou então perderá o controle total e poderemos ter consequências ainda piores das observadas agora. Vou chamar de cenário preocupante para não utilizar uma expressão mais negativa neste momento.

O autor é economista e articulista do JC