09 de julho de 2026
Articulistas

O banquete do lixo

Nélson Itaberá Gonçalves
| Tempo de leitura: 3 min

Não aprecio trocadilhos degustados ao sabor da sujeira. Mas não tem jeito. A carniça atrai urubus! E estes, aqui de nossa aldeia Sem Limites, têm empáfia e plumagem mais "sofisticada". Misturam vários ?filos? na arte de espreitar a coisa pública para, sem razão desmedida, se fartar das riquezas da deposição das nossas porquices urbanas.

O que me causa náusea não é o odor do chorume, mas o que escorre por dentro das intenções das rapinas. Lixo envolve muito dinheiro. E faz tempo que este periódico faz sua peregrinação sentinela sobre os rejeitos bauruenses. Sim, rejeito. Nome mais pomposo, técnico, que veio junto com a ainda novata atualização do conceito de separação e descarte de lixo residencial, conforme o Programa Nacional de Resíduos Sólidos.

O JC, há exatos 10 anos, discutia em um coincidente mês de fevereiro a tentativa de quarteirização da atividade de coleta de lixo doméstico em Bauru. A proposta acabou sendo rechaçada, à época, sob o calor do então recém-findado período eleitoral e suas influências sobre a medida. Em outro tempo, antes disso, o escândalo do lixo tratou de denúncias de presença de água para aumentar o peso da carga. Afinal, a prefeitura paga lixo por tonelada.

De lá para cá, não foram poucas as vezes em que editoriais e reportagens abordaram o prenúncio do esgotamento da capacidade de operação do aterro sanitário. Aliás, senhor prefeito, em março de 2011, o senhor assinou o Termo de Encerramento de Operação do Aterro Sanitário, junto à Secretaria Estadual do Meio Ambiente. Aceitou, portanto, ?a morte? do aterro em 34 meses. E conseguiu mais um ano de ?gorjeta?. Mas não mexeu no chorume! Que bizarrice é essa agora de dizer que "não sabia" que a Cetesb vai fechar o aterro em 30 dias? Ah, também não foram poucas as entrevistas concedidas por agentes públicos preconizando a necessidade de elaboração de projeto (técnico-ambiental e executivo) para ampliação da operação do aterro, desde então....

Mas como nada ?dura para sempre?, o mau cheiro, claro, gerou energia visionária para novo negócio. A oportunidade do banquete, claro, gerou investimentos e aterros particulares foram instalados pelo Interior, de olho nessa catinga de alta rentabilidade. Lixo, diria a coletora de recicláveis dona Zefa, só não enche o bolso de quem o recolhe em carrinho de mão. Parece ter sido tudo feito bem misturadinho, tal qual resto de comida despejado junto com outros dejetos. Como diz a lei: não pode, mas continuam fazendo assim! Mas onde tem muito urubu, coisa limpa não há. Esqueceram de espantar o coveiro e seu amigo alcoviteiro. Pior, agora aparecem os guardiões dos urubus com projeto a tiracolo providencial digitado depois da hora... Espantem os urubus! É caso de emergência! Tentam colocar desídia a peso de ouro na relação tonelada-lixo.

Melhor invocar o samba enredo do genial Joãozinho Trinta: Do lixo ao luxo... Em homenagem ao "mago da ópera de rua", eu, Nélson Itaberá, parecendo metaforicamente "imaginar" o enredo, completei, em verso escrito para a Acadêmicos da Cartola em 2014: Do lixo ao luxo, ratos e urubus. Rasguem a fantasia, o mago conduz! E o bobo da corte dançou...

O autor é jornalista do Jornal da Cidade e
da TV Câmara Bauru e compositor