No dia 1 de janeiro de 2003 Lula tomou posse e disse emocionado: "Defini entre as prioridades de meu governo um programa de segurança alimentar que leva o nome de "Fome Zero". Como disse em meu primeiro pronunciamento após a eleição, se ao final do meu mandato todos os brasileiros tiverem a possibilidade de tomar café da manhã, almoçar e jantar, terei cumprido a missão da minha vida". Contra a vontade de significativa parcela dos seus correligionários, deu continuidade ao plano econômico do governo anterior, iniciado pelo Plano Real. Como a situação do País era promissora, unificou alguns benefícios sociais já concedidos e institucionalizou o Bolsa Família, com a transferência direta do dinheiro aos beneficiários. Iniciava-se o sonho.
O tamanho da economia brasileira permitiu que o projeto de distribuição de riqueza se sustentasse durante o governo Lula e desse a ele uma aceitação popular com força suficiente para eleger a sua sucessora. Esta, não somente deu continuidade como concedeu mais benefícios com o programa Minha Casa Minha Vida. Conforme foi noticiado, o Bolsa Família retirou 36 milhões da situação de pobreza. Lembram-se da euforia com aumento da classe média? O Minha Casa Minha Vida, por sua vez, chegou em 2014 com 1,7 milhão de casas e apartamentos entregues e outro tanto em construção, beneficiando perto de sete milhões de brasileiros.
Tudo teria sido maravilhoso se não fosse só um sonho, pela falta de sustentabilidade. Vejam o que aconteceu com a água. As cidades cresceram, o consumo aumentou e a Natureza diminuiu a produção de água, secando os reservatórios. Assim aconteceu com o sonho do governo petista, agora ameaçado pela realidade. A distribuição da riqueza foi aumentando enquanto a sua produção foi diminuindo. Para ser sustentável seriam necessários investimentos na produção, a fim de garantir o crescimento do consumo com o dinheiro do Bolsa Família e a liberação do crédito. Como o governo queria distribuir cada vez mais, pensando na sua continuidade no poder, as finanças públicas ficaram comprometidas e faltou dinheiro para os investimentos. A fonte foi secando.
Com um rombo de mais de R$ 18 bi no Tesouro e devendo R$ 45,66 bi para os bancos oficiais, por atrasos no reembolso do financiamento dos programas sociais, comenta-se que fazendo os ajustes necessários ainda será difícil o Brasil voltar a crescer, mesmo em 2016. Mas não se culpem os programas sociais. A culpa está no descontrole total em que os gastos foram feitos. Usando as empresas públicas como se fossem caixa do governo e empurrando as despesas para a frente, pelas ?pedaladas?, como eram chamadas as operações do Ministério da fazenda, o governo só despertou do sonho após o resultado da eleição.
O lado bom do governo petista não foi suficiente para apagar o lado ruim. O escândalo do mensalão, os gastos descontrolados e agora o mega escândalo da Petrobras, arruinaram o país. O aperto que vamos ter com o aumento dos preços e dos impostos, e o desemprego que já está ocorrendo aos milhares, deixando pessoas comprometidas com prestações de longo prazo, sem ter com que pagar, certamente gerarão muitos protestos. Será "um cenário de tempestade", como disse o cientista político Marcus Melo, em entrevista na Folha (23/2). Ainda bem que a Dilma venceu. Imaginem como seriam esses protestos, liderados pelos petistas, se o vencedor fosse o Aécio ou a Marina. Mas a culpa não é só do governo, porque poucos escapam da semvergonhice e gatunagem que se apossaram do país. Relatório do TCU apontou como suspeitos de receber benefícios do Bolsa Família: 577 políticos eleitos, 3.791 mortos, 106.329 donos de carros, caminhões, tratores ou motos e 1,1 milhão de famílias com renda acima do permitido. E os desvios de dinheiro da Saúde e Educação por este Brasil afora? Falta de controle de um lado e sobra de rapinagem, de outro.
O autor é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru.