O dom da vida nos provoca, todos os dias, para o desafio de reinventar modelos de felicidade, se é que eles existem. Mas para muitos, as atribulações ou surpresas do cotidiano são, em especial, oportunidades para exercitar boas relações humanas, se reinventar, assumir novos desafios, ratificar intenções, confirmar planos ou apenas começar tudo de novo. E, apesar e a despeito das ações e reações produzidas de forma farta pelo próprio ser humano com elementos de tragédia, sangue, desastre e um festival de horror de exemplos de desumanidade e perda do sentido mais básico do ponto de vista civilizatório, as ruas também estão repletas de exemplos que enchem os olhos e os corações.
São histórias de esperança, de renovação da vida, de superação de desafios, de honestidade intrínseca, de urbanidade ou de gesto humano. Ou, no sentido mais abrangente da essência de ser, são fatos que trazem o inusitado, o espontâneo e o humano associados à pureza, serenidade e crença no amor entre os iguais. São apenas exemplos, mas com riqueza suficiente para transformar a capacidade de cada um de se reinventar, ou com energia capaz de dar aquela ‘fivelada’ na mania que, por vezes, todos carregam, com maior ou menor incidência, de olhar o mundo só com turbidez.
Não por acaso, o filho de judeus imigrantes da Rússia Aaron Back, psicoterapeuta nascido nos Estados Unidos, transformou a psiquiatria e a psicologia ao redor do mundo, entre outras razões, exatamente por escarafunchar o indecifrável e profundo universo do “controle do pensamento”. Na premissa de algumas de suas reflexões cognitivas mais intrigantes está a advertência de que o ‘problema’ não está no ‘fato’, mas na forma como o apropriamos pelo pensamento.
E essa relação entre cognição e pensamento costuma ser a raiz de muitas de nossas tormentas de comportamento ou reação. Back observou em seus estudos que as descrições dos pacientes sobre seus espelhos e experiências mantinham estreita relação com “visões negativas de si mesmos”, com as experiências de vida e da espera pessimista sobre o futuro. Mas nas ruas, centenas e milhares de pessoas, em todos os cantos da cidade, reinventam a vida sem serem escravas do ‘pensamento automático negativo’ discutido pela psicologia cognitiva comportamental.
Os exemplos estão por toda parte, no vizinho, na loja da esquina, na funilaria, no hospital, no semáforo... Mas o ser humano insiste na mania de ter pressa e de cultuar o umbigo. E essa esquizofrenia o mantém ainda mais distante do ‘controle do pensamento’, da forma como vê o mundo e reage a ele. Para subverter os erros comuns da catastrofização, generalização e negativismo listados pela forma equivocada como, por vezes, nos relacionamos com o “outro”, pessoas de bem, do bem, nos contam suas histórias exemplares.
São histórias de gente! Pessoas que frequentam lugares comuns e geram exemplos para, no mínimo, ajudar cada um a combater, ou a refletir, contra as distorções cognitivas da realidade vivida. São histórias para combater o pessimismo exacerbado, a insolência do não, a negligência do sim, a crença de que cada indivíduo criou, dentro de si, a partir de ideias fixas, enraizadas, o raciocínio de que não há luz e de que o mal se vale por si próprio ou está sempre por vir. Leia, abaixo, algumas emocionantes histórias.
Todo dia, uma nota de R$ 10,00
O funileiro Avelino Silvestre coleciona inúmeras histórias em seus 35 anos de trabalho na oficina, de sua propriedade, na quadra 5 da rua Rio Grande do Norte. Uma, em especial, ocorrida há dois anos, o comove até hoje. A história de dona Zefa e das 30 notas de R$ 10,00.
Josefina, na ocasião com 75 anos, era catadora de reciclável. Avelino conta que o carrinho de coleta escapou às mãos dela durante recolhimento de papelões em um estacionamento de um supermercado da cidade. O descuido custou o amassado e um longo risco na lataria de um Honda Civic impecável.
“Dona Zefa entrou no supermercado e não sossegou até encontrar a dona do carro para lhe contar do acidente. Mas a madame a esculhambou quando soube do risco no carro. Sei que dona Zefa veio parar aqui na oficina com a madame ainda em fúria. A dona ficou tão brava que exigiu que eu assumisse o risco de não receber pelo conserto. Era só ver a reação da dona Zefa e sua atitude de procurar a dona, quando muita gente sairia de fininho, para perceber que não havia risco de não receber pelo conserto”, conta.
O funileiro menciona que o serviço ficou em R$ 600,00. “Mas ao saber da história eu falei para dona Zefa que pagasse só material. Eu disse pra ela que poderia pagar do jeito que quisesse. Fiz o serviço, entreguei o carro para a madame sem titubear. A humildade e honestidade daquela senhora, catadora de reciclável, de procurar a dona do carro importado e assumir o conserto não tinha preço. Não perguntei nem onde a catadora morava”, diz.
Três dias depois, dona Zefa compareceu à oficina. “Ela trouxe R$ 10,00 e pediu para ir pagando assim, até dar os R$ 300,00. Eu fiquei encabulado, disse a ela que nem se preocupasse. Mas ela insistiu em pagar. Todo dia, ao abrir a funilaria, eu encontrava uma nota de R$ 10,00 embaixo da porta. Ela fez isso durante 30 dias”, afirma Avelino.
A postura de dona Zefa ainda renderia mais surpresas para Avelino. “Eu fecho de domingo e nesse dia de descanso saí com a família para almoçar fora. Choveu naquela tarde e, ao voltar para casa, me chamou a atenção uma pessoa com alguma coisa na cabeça próximo da porta de minha casa. Dei a volta no quarteirão e resolvi me aproximar. Aí foi que vi que era dona Zefa. Ela descobriu onde eu morava e foi lá levar os R$ 10,00”.
Avelino cita que insistiu com a coletora de reciclável para que não fizesse mais isso. “Mas ela não aceitou. Ela me disse que eu a atendi sem sequer a conhecer e ela tinha de cumprir a parte dela. A convidei para entrar e jantar com minha família, mas ela não quis. O pessoal da oficina até brincava que uma santa passava todo dia lá para deixar R$ 10,00. Dona Zefa não parou de ir. Eu tive de explicar pra ela que o número de dias já havia terminado”, completa, emocionado com a recordação, o funileiro Avelino.
Na Secretaria do Bem-Estar Social (Sebes), ela foi identificada como Josefa Antonio dos Santos, atualmente com 77 anos. Há quatro anos, a andarilha utilizou os serviços do albergue noturno. Atualmente, o paradeiro de dona Zefa é desconhecido.
A Kombi, o cachaço e a sanfona
Tem hora que história de oficina parece de pescador. Mas isso é coisa para quem não acredita no ser humano. Avelino Silvestre também disse que no ano passado um homem alto, de bigode farto, cinto com fivela avantajada e botina entrou apressado na funilaria.
“O homem, bem matuto, do sítio mesmo, disse que bateu sua Kombi em um Santana perto da oficina e queria saber quanto seria o conserto. O dono do Santana chegou logo atrás e eu fiz o orçamento: R$ 800,00. O dono do Santana então soube que o matuto ficou lá perto de seu carro esperando que ele chegasse para contar da batida. Ele ficou sensibilizado e se prontificou em pagar a metade”, descreve o funileiro.
O matuto quis dar a Kombi pelo serviço, alegando que não tinha dinheiro. “Não aceitei. Era a Kombi para ele trabalhar e ela valia muito mais que os R$ 400,00. O matuto ainda retrucou como eu ia fazer o serviço sem nem o conhecer? Ao final ele disse que, então, ia trazer alguma coisa de sua casa para pagar o restante. Eu entreguei o Santana e alguns dias depois o matuto encostou a Kombi na porta da oficina. Ele abriu a porta e dela desembarcou um cachaço. Foi um susto aquele porco enorme no meio dos carros. Ele ainda me entregou uma sanfona em bom estado e disse que não aceitava recusa”, prossegue.
O porco, conforme seu Avelino, foi alimentado por uns dois meses no fundo da oficina. “Os próprios clientes traziam comida aqui. Ele virou atração. Um fazendeiro acabou comprando o porco e a sanfona eu também vendi. Aqui na oficina, cada batida de carro é uma história. Muitas são tristes, mas muitas são alegres. E muitas são de comover pela humildade e honestidade”, finaliza Avelino, que não sabe nem o nome do matuto.