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Arquivo: Aceituno Jr. |
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O cardiologista Júlio César Vidotto explica que, sem as 25 doses, o jovem viveria por mais tempo |
O estudante universitário Humberto Moura Fonseca, 23 anos, morto no último sábado após ingerir cerca de 25 doses de vodca durante uma competição de resistência à bebida, era cardiopata. É o que apontou laudo necroscópico divulgado na terça-feira (3) pelo Instituto Médico Legal (IML) de Bauru.
O exame revelou que o jovem tinha cardiopatia dilatada, ou seja, o coração em tamanho maior do que o normal. Ele também sofria de coronariopatia, estreitamento das coronárias que leva à diminuição do aporte de sangue para a musculatura cardíaca, criando condições favoráveis ao infarto do miocárdio (músculo do coração).
Segundo o diretor do IML, Roberto Carlos Echeverria, o legista que realizou o exame necroscópico detectou a presença de áreas fribosadas (com cicatrizes) nas paredes do coração do estudante, sugestivas de dois ou três pequenos infartos que ele sofreu ao longo da vida, possivelmente sem nem se dar conta. Estas cicatrizes, segundo Echeverria, indicam que o problema já vinha se manifestando há algum tempo.
“E o coração dilatado também já era pré-existente, não foi resultado do consumo excessivo de bebida alcoólica durante a festa. Mas, muito provavelmente, a ingestão de um volume tão grande de álcool potencializou a patologia que ele já tinha”, pontua.
Tem o mesmo entendimento o cardiologista Júlio César Vidotto, membro da diretoria regional da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp). Ao mesmo tempo em que o médico pondera que a morte de Humberto poderia não ter ocorrido caso não fosse cardiopata, também afirma que, sem as 25 doses que tomaram seu organismo, certamente ele viveria por mais tempo.
“O consumo agudo de álcool gera uma resposta inflamatória intensa dentro das células do músculo cardíaco, podendo provocar arritmias (redução ou aceleração dos batimentos cardíacos). Em um órgão que já é debilitado, a probabilidade de estas células se romperem e provocarem uma tragédia é muito maior”, analisa.
Nada muda
A causa preliminar da morte de Humberto já havia sido apontada desde domingo como infarto. A confirmação de que ele possuía uma enfermidade cardíaca, contudo, não altera o rumo das investigações policiais, segundo informa o delegado Kleber Granja, que preside o inquérito.
“Houve a instigação inicial para o consumo excessivo de bebida, numa competição de resistência realizada dentro de uma festa open bar. E sem que houvesse o aparato disponível para o socorro imediato, o que era dever dos organizadores”, pontua, salientando que a presença de uma ambulância de suporte avançado talvez pudesse ter garantido a sobrevivência da vítima.
A Polícia Civil ainda aguarda o resultado da análise de dosagem alcoólica, que deve ser divulgado na próxima semana e do da pesquisa toxicológica para os principais tipos de entorpecentes, que deve ser divulgado em até 30 dias. Laudos periciais também serão realizados para precisar o teor alcoólico de garrafas de vodca apreendidas.
Unesp decide formar uma comissão de sindicância
A Unesp informou, na terça-feira (3), que a Faculdade de Engenharia decidiu formar uma comissão de sindicância para apurar internamente a responsabilidade sobre a morte do estudante Humberto Moura Fonseca, ainda que a tragédia tenha ocorrido fora das dependências da unidade.
A instituição, contudo, não adiantou se os dois alunos investigados pela polícia poderão ser punidos com a expulsão da universidade.
Por meio de nota, a Unesp reforçou que, de maneira sistemática, ministra palestras, desenvolve programas, distribui material impresso, presta orientação e atendimento psicológico gratuito para combater o abuso de álcool e outras drogas entre os estudantes universitários.
‘Nada é mais doloroso do que trazer um filho morto’
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Reprodução |
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Na foto Josely Pinto de Moura com o filho Humberto. Josely disse “Ele era um menino muito amado. O que eu queria mesmo era meu filho de volta, mas sei que não vou ter" |
A voz trêmula e frágil dão a dimensão do sofrimento por qual passa a professora universitária Josely Pinto de Moura, 49 anos, mãe de Humberto Moura Fonseca. Na tarde desta terça (3), três dias após a morte do filho, ela concedeu uma entrevista emocionada ao Jornal da Cidade.
De Passos (MG), ela contou, por telefone, um pouco sobre a personalidade do jovem e atribuiu a morte do estudante à falta de atendimento adequado no local da festa.
E Josely faz um apelo: não somente pela punição dos responsáveis, mas também por maior rigor na fiscalização de eventos do tipo e pela conscientização dos jovens em relação ao abuso de álcool.
JC - Como era seu filho?
Josely - Ele era um menino muito amado, encantador. Era muito querido pela família e amigos. Ele só me deu alegrias. Era responsável, estudioso, tanto é que foi aprovado em diversas universidades quando optou pela Unesp. Mas também gostava de se divertir, ir a festas. Não era santo. Bebia, mas nunca a esse ponto.
JC - O que acredita que aconteceu na festa?
Josely - Talvez o incentivo do grupo o tenha levado a ter esse tipo de comportamento. Ele nunca deu trabalho, sempre teve boas notas, sempre foi bem-sucedido. Ia se formar em breve e já estávamos combinando a formatura dele. Estou arrasada, com o coração partido. Nada pode ser mais doloroso do que trazer um filho morto para casa.
JC - Pelas fotos no Face, é possível perceber que ele era bem próximo da família.
Josely - Muito. Os avós estão arrasados, porque ele era muito amoroso. Era muito família, um filho muito bom.
JC - Acredita que ele decidiu participar da competição sem considerar os riscos?
Josely - O Humberto era muito empolgado em tudo o que fazia. Era intenso e gostava de ser o centro das atenções. E pode ser que, por estar se sentindo desta forma naquele momento, tenha sido levado a fazer o que fez. Mas tenho certeza de que ele nunca imaginou que algo grave pudesse acontecer.
JC - Ele chegou a comentar que iria nesta festa?
Josely - Ele jamais iria contar, porque ele sabe que eu não iria permitir. Os filhos não contam essas coisas para as mães.
JC - A senhora acredita que foi uma fatalidade?
Josely - Não. Faltou socorro. O atendimento que ele recebeu no local não foi socorro. Os organizadores ganharam dinheiro com a venda de ingressos e, no mínimo, deveriam ter oferecido um atendimento adequado. Talvez ele tivesse sobrevivido. Essa falta de estrutura em festas tem de acabar. Não é justo com nenhum jovem e nenhuma mãe.
JC - Ele tinha algum problema de saúde que possa ter agravado o quadro?
Josely - Ele era muito bonito, forte e sadio. Era esportista. Ia na academia, praticava muay thai, jogava basquete. Jogou inclusive pelo clube da cidade (Passos, em Minas Gerais). Ele foi praticamente criado no clube, praticando esportes. E morreu desse jeito.
JC - A senhora espera que os responsáveis pela festa sejam condenados?
Josely - Não vou processá-los porque não quero o dinheiro de ninguém. O que eu queria era meu filho de volta, mas sei que não vou ter. Só espero que a Justiça seja feita para desencorajar outras pessoas a realizar este tipo de evento e evitar que outras mães passem pelo que eu estou passando. É como se tivessem tirado um pedaço da vida da gente. A gente luta tanto, trabalha tanto para construir um futuro para os filhos e depois, em uma festa, acontece uma tragédia desta.
JC - Que reflexão espera que a tragédia possa trazer?
Josely - Este tipo de evento precisa ser melhor fiscalizado, as universidades precisam realizar campanhas de conscientização mais eficientes e os jovens precisam parar com esta promoção à bebedeira.
Segredo de Justiça
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Arquivo: João Rosan |
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Kleber Granja: “Segredo de Justiça é para preservar envolvidos” |
A Polícia Civil determinou que o inquérito que apura as circunstâncias e responsabilidades sobre a morte do estudante Humberto Moura Fonseca correrá sob segredo de Justiça. Dois alunos da Unesp, de 22 e 25 anos, identificados como organizadores da festa em que o rapaz morreu, chegaram a ser presos, mas respondem em liberdade por homicídio com dolo eventual.
Em nota enviada à imprensa, o delegado Kleber Granja informou que o objetivo é “preservar e garantir o bom andamento do processo investigativo, zelar pela integridade física e moral das partes direta e indiretamente envolvidas e manter a credibilidade da autoridade policial”. Ainda de acordo com o informe, a partir de hoje, só terão acesso a novas informações sobre o caso “a própria Polícia Civil, a Polícia Técnico-Científica, o Poder Judiciário, o Ministério Público e os advogados de defesa e acusação”.
Mais uma estudante recebe alta hospitalar
Mais um aluno da Unesp que entrou em coma alcoólico após participar da festa “Inter Reps” recebeu alta, ontem. Estudante de engenharia de produção, Juliana Tibúrcio Gomes, 19 anos, deixou o Hospital da Unimed, onde permaneceu em recuperação por três dias.
O aluno do curso de engenharia elétrica Mateus Pierre Carvalho, 20 anos, havia recebido alta anteontem. A única universitária que ainda segue sob cuidados médicos é Gabriela Alves Correia, 23 anos, estudante de relações públicas.
Segundo a assessoria de imprensa do Hospital Estadual, ela está em leito clínico, consciente e sendo submetida à fisioterapia respiratória. Seu estado de saúde é estável mas, por enquanto, não há previsão de alta.