Navegando pelas colunas dos articulistas da Folha de São Paulo, encontro o professor de Português Pasquale, conceituadíssimo, autor de várias obras didáticas e paradidáticas. Faço aqui algumas de suas palavras. Recomeçaram as aulas nas nossas universidades, e com elas veio outra prova do nosso secular e incurável atraso. Vemos todos os anos a boçal, ignorante e estúpida (e vários outros adjetivos) prática de alguns tipos de trotes universitários.
Como disse Joaquim Nabuco há mais de cem anos: "A escravidão permanecerá por muito tempo como característica nacional do Brasil".
Esta estupidez, nada democrática, nada mais é do que a perpetuação ignorante de uma prática, muitas vezes violenta e até assassina, de que calouros são escravos de veteranos, que, por sua vez, quando calouros, foram escravos de veteranos, que...
Há o trote "solidário", o "cidadão", o "social", o "pedinte", o "engraçado"; até os mais graves, como os mutiladores, violentos e assassinos. Uma das grandes questões é que o trote é, muitas vezes, uma pura ditadura, já que não concede à vítima a hipótese da recusa! Não importa qual classificação a que o trote se encaixa. Se os trotes são leves e recusados, o "bixo" imagina que será mal visto junto aos colegas, se o trote é violento e recusado, gera ainda mais violência.
Já tivemos alunos mortos, queimados, mutilados, estuprados, agredidos... Famílias e sonhos destroçados por esta barbárie. Gente insensível, bruta, burra e besta, obviamente com muitas e gloriosas exceções. É dessa alta nobreza que sai a "elite" do Brasil.
Por que não fazemos o seguinte? Toda vez que formos contratar o serviço de um profissional graduado (médico, advogado, engenheiro, jornalista, economista, contador, entre tantos outros), perguntemos se participou, como veterano, de algum trote. Repense em contratar seus serviços em função de sua resposta.
Em vários países há o trote universitário, mas as pesquisas mostram que são mais democráticos e menos violentos que os nossos (de uma maneira geral). A punição para quem comete trotes na França é de seis meses de prisão ou o pagamento de uma multa de 7.600 euros. Ou seja, ninguém mais pode amarrar calouros na Torre Eiffel.
Antônio Ribeiro de Almeida Júnior, professor do Departamento de Economia, Administração e Sociologia da Escola Superior de Agricultura, especialista, autor de três livros e estuda o tema desde 2001, diz: "Ao longo do ano vejo o aumento da violência, e não da consciência." O especialista relata em seu último livro, resultado de uma pesquisa, onde ouviu mais de 400 alunos e teve acesso a mais de 2.000 questionários: o trote não é um ritual de integração, pois reúne no máximo 20% dos alunos, por isso o receio que os novos estudantes têm de que ficarão excluídos, caso não participem das atividades, é uma bobagem.
As atléticas e centros acadêmicos das universidades costumam rebater as críticas dizendo que as atividades são ações isoladas, ocorrem independentemente das instituições e a participação dos estudantes é voluntária. Muitas instituições até disponibilizam telefones que funcionam como ?disque trote? para denunciar casos de coação e constrangimento.
Acolhimento. É isto que o "bixo" deve sentir. Mas ainda vai levar anos para desorganizar esta cultura do trote, pois há pressão e discriminação com aquele que não participa.
Parabéns FOB/USP Bauru (JC 26/02/15).
Antônio Eufrásio de Toledo Neto