"A todas as mulheres que deram à luz neste país, a todos que pagam impostos, nós temos que lutar por direitos iguais para todos." Patrícia Arquette, ao receber o Oscar de 2015, como Melhor Atriz Coadjuvante. A igualdade salarial entre homens e mulheres é um tema muito debatido há anos, porém nem sempre com a devida responsabilidade ou sensatez. Uma sociedade é composta dos mais diversos indivíduos que detém escolhas e posicionamentos não apenas diferentes, mas que, muitas vezes, são também conflituosos entre si. Dentre os meios mais adequados para resolver esses conflitos, estão o governo e a figura do parlamentar que, em tese, seria uma pessoa imparcial, capaz de compreender as demandas da sociedade e de lutar por justiça.
Esse raciocínio tão elementar, no entanto, nem sempre é visto na política. Ainda recentemente, ao dizer que é justo que as mulheres recebam menos que os homens, o Deputado Federal Jair Bolsonaro demonstrou imperdoável desconhecimento da complexidade do tema, que nada tem a ver com uma guerra entre homens e mulheres ou entre patrões e empregado. Dados recentes da Organização Internacional do Trabalho (OIT) apontam que se levássemos em conta apenas a produtividade, qualificação e experiência os salários das mulheres brasileiras poderiam ser, em média, 10,4% a mais que o dos homens. Mas isso não deve servir para promover uma guerra entre os sexos e sim para observarmos que uma diferença salarial de quase 30% apenas por conta do gênero não faz o menor sentido.
É mundialmente sabido que as mulheres tendem a se afastar dos postos de trabalho mais que os homens para cuidar dos filhos, de parentes idosos e por conta da gravidez ("O poder econômico das mulheres"- Ed. Campus 2011) e que isso tem impacto no mercado de trabalho. Mas como explicar que as mulheres, que optaram por não ter filhos ou que não se afastaram de seus empregos, também recebam salários menores? Ou que, mesmo quando mais produtivas, e com um nível educacional superior ganham menos? Não se pode ser irresponsável e usar um dado para justificar um problema social.
O mundo mudou muito, as figuras do homem provedor e da mulher dona de casa não são mais a regra. Mas a maor parte do nosso país ainda não percebeu que a valorização das mulheres no mercado de trabalho não é positiva apenas para as mulheres, como também é uma bandeira de interesse do empresariado ? quem perceber isso antes irá colher seus frutos. As mulheres representam 52% da população em uma realidade que o capital intelectual predomina nos meios de produção e não mais à força física, isso quer dizer que não existe vantagem econômica, a priori, apenas por pertencer a determinado gênero.
Ou seja, se levarmos em conta que uma melhor remuneração e boas condições de trabalho aumentam a produtividade, dá para imaginar o quanto o país teria a ganhar se metade de sua população estivesse melhor remunerada? E mais: se for identificado que o afastamento do trabalho tem ligação com a questão salarial, por que, então, não difundir a cultura do homeoffice para homens e mulheres como forma de diminuir diferenças e, ainda, aumentar a qualidade de vida?
Precisamos ser responsáveis e pensar de forma inteligente para resolver problemas, essencialmente quando são complexos como esse. Todos nós, cidadãos, temos condições de propor soluções viáveis para as demandas sociais. É chegada a hora de deixar claro aos nossos parlamentares que vamos fugir da leviandade e do simplismo para encontrar os melhores caminhos para um Brasil melhor e mais justo.
A autora é bacharel em direito, empresária e realiza um trabalho em prol da valorização da mulher na sociedade há 16 anos