O ano de 2015 começou com o aumento de tributos que impactaram diretamente no preço de alguns produtos e serviços. O aumento da gasolina, por exemplo, fez com que muitas famílias apertassem ainda mais o orçamento ou elegessem prioridades para manter a rotina.
Dentro dessa realidade, muitos começaram a renegociar dívidas ou simplesmente trocar um produto de marca por outro similar ou então parar de consumir serviços e produtos elencados como dispensáveis ao lar, como forma de driblar as dificuldades.
‘Sem pizza’
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João Rosan |
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Servente Juliana Cunha diz que renegociou dívidas e parou de comer fora para economizar |
É o caso da servente de construção civil Juliana Cunha, 31 anos, que, com o aperto do orçamento, sentido neste início ano, resolveu ir ao Calçadão da Batista de Carvalho para renegociar suas dívidas, ainda referentes ao Natal, em lojas de confecção e telefonia.
“Está tudo cada vez mais caro. Estou gastando o dobro de mercado em casa e consumindo as mesmas coisas. O aumento do combustível, agora, também pesou bastante”, comenta Juliana, ao lado da filha Maria Julia, de 4 anos.
Para contornar as dificuldades, já que o salário não aumentou proporcionalmente aos gastos, a servente, que tem mais três filhos, de 7, 12 e 13 anos, conta que a família tem elencado prioridades.
“Sempre pedíamos pizza nos finais de semana. Ou saíamos para comer um lanche. Agora, nem isso. Comprar roupa, então, só se tiver precisando muito para uma festa ou coisa do tipo”, completa.
Negociação também tem sido a palavra de ordem na família da dona de casa Maraci Tenedine, 50 anos, que, após três anos utilizando os serviços da mesma operadora de telecomunicações, resolveu apostar na oferta de novas prestadoras que ofereceram valor menor para os mesmos serviços e com a mesma qualidade.
“Economizei uns R$ 50,00 com a televisão, Internet e TV, só nessa ‘brincadeira’ de trocar de operadora. Até tentaram insistir, mas, pelo preço que estava, não dava mais. Tá tudo muito caro, qualquer economia, hoje, já faz a diferença”, afirma a dona de casa.
Ano dos desafios
E, pelo que tudo indica, 2015 será mesmo um ano de superação e de desafios, tanto para parte dos consumidores, que terão que redimensionar seu padrão de vida, quanto para o governo, que já tem realizado cortes.
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João Rosan |
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Para Wagner Ismanhoto, recessão econômica atingirá todas classes |
A perspectiva, um tanto quanto pessimista, porém resume o panorama feito pelo economista Wagner Ismanhoto. “O País viveu um crescimento ilusório nos últimos anos, financiado no crédito. Agora, estão todos endividados e, com a redução das vendas, o preço aumentou, acompanhado pelo aumento do custo”, comenta Ismanhoto.
Ele cita como um dos principais pivôs da estagnação econômica o consequente aumento dos itens que engrenam a produção e a própria economia, como a energia elétrica, o combustível e os insumos.
Entre este e o próximo ano, o economista antecipa ainda que as demissões devem crescer ainda mais nas indústrias e no comércio, por conta do cenário econômico recessivo.
“Corremos o risco, inclusive, de não ter energia nem para tocar as indústrias. E menos atividade econômica, significa menos impostos recolhidos. Temos um sério problema de falta de infraestrutura para gerar produção. Isso tudo terá um efeito cascata”, reforça o economista.
Os efeitos do período de recessão atingirão todas as classes, mas, principalmente, a D e E, que foram as que registraram maior salto no consumo.
“A questão da qualidade deve ficar para segundo plano. A prioridade são gastos com coisas básicas”, acena Ismanhoto.
O ‘abrir mão’
Mas eleger prioridades e planejar o orçamento, definitivamente, não é uma tarefa fácil para a maioria dos consumidores.
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João Rosan |
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Lucas Gonçalves diz que tem gente que não corta o supérfluo |
“As pessoas têm dificuldade de abrir mão do que gostam. É quase como travar uma luta consigo mesmo. Por isso, tem gente que chega a gastar menos com alimentação para continuar gastando mais nos bares, por exemplo. Cada um escolhe o que é sua prioridade. E isso não acontece só em um cenário de crise econômica”, frisa o psicólogo do Centro de Psicologia Aplicada (CPA) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Lucas Faria Gonçalves.
“Nesse sentido, tem crescido muito o uso do cartão de crédito, que acaba possibilitando a extensão desse poder de compra”, complementa Gonçalves.
Ele frisa, contudo, que a negociação e a pechincha, tidas como a grande onda do momento para contornar o aperto no orçamento, são questões culturais e que “não ocorrem só em tempos de crise”. “Mas a necessidade torna isso mais saliente, de forma que acabe virando uma prática de fato”, acrescenta.
Como reduzir os gastos sem abrir mão do que você precisa?
Veja dicas de algumas pessoas:
Nair Alves Scriptore, 76 anos, pensionista.
“O produto mais barato é a minha marca agora. Cortei completamente a compra de roupas e calçados desnecessários. Além disso, vivo batendo na porta do banheiro para reduzir o consumo de água e energia. Também tenho deixado de ligar o ar-condicionado”.
Carolina Araújo de Souza Veríssimo, 60 anos, diretora de escola.
“Ainda não precisei abrir mão de nada. Em casa, todos trabalhamos, então, a renda não é problema. Além disso, nunca fomos de consumir em exagero. Mas acho que a dica é essa: cortar tudo o que for supérfluo para viver bem em tempos de crise”.
Ariadne Silva, 18 anos, balconista.
“Fiquei dois meses sem sair para conseguir pagar todas as minhas contas do Natal. Mas, agora que já controlei meu orçamento, voltei a frequentar festas e barzinhos. Sempre que sinto alguma dificuldade financeira, procuro cortar esse tipo de coisa”.
Renan Badini, 21 anos, estudante.
“Em tempos de grana curta, costumo deixar de sair. Mas não nego todos os convites. De vez em quando, participo de festas, mas sempre avalio, se for muito longe, prefiro não ir. Também tenho preferido usar um aplicativo do celular para conversar ao invés de ligar”.
Ramon Túlio Arruda, 21 anos, estudante.
“Costumo economizar sendo um cara mais caseiro, evitando sair pra festas e bares aos finais de semana. Também sempre penso duas vezes antes de pegar o carro e ir para algum lugar que seja mais longe. Afinal, o combustível está bem caro”.
Evilásio Pereira, 81 anos, aposentado.
“O segredo é ter controle sobre tudo o que se consome. Lá em casa, ainda não precisamos reduzir ou abrir mão de nada, porque não consumimos em exagero. Mas, em momentos de crise, o certo é deixar de consumir tudo o que for supérfluo”.