08 de julho de 2026
Articulistas

Fuga de capitais e intelectos

Fernando José Martha de Pinho
| Tempo de leitura: 3 min

Cansadas das mazelas sofridas desde o malfadado Plano Collor, muitas famílias à época começaram a planejar-se para ir viver em países com mais perspectiva de futuro promissor. Iniciaram o processo buscando obter cidadania norte-americana ou européia.Em seguida,encaminharam os filhos ainda pequenos para estudar em escolas de nível básico, com currículos bilingues, visando prepará-los desde a tenra idade para viver expatriados e criar pessoas com visão global do mundo dos negócios e de outros aspectos da vida em geral, de maneira que pudessem prosperar onde desejassem viver. Os chefes de família começaram a esforçar-se para rapidamente obter fluência nos idiomas estrangeiros mais utilizados, como inglês, francês, alemão, espanhol e, mais recentemente, o mandarim. Após os filhos terem acabado os cursos básicos, enviaram-nos para fazer os cursos secundários no exterior, com vistas a lá continuar para concluir os cursos superiores. Enquanto isso, muitos pais obtiveram qualificação acadêmica de alto nível (mestrados, doutorados, etc), visando mais facilmente obter vistos de trabalho, nos países para onde iriam mudar-se.


Concomitantemente, com a ajuda de advogados especializados e consultores de bancos internacionais, inteiraram-se do modo de vida e legislação desses países. Aproveitando os momentos de euforia financeira no Brasil, quando o preço dos imóveis sobe de maneira exorbitante, venderam-nos, visando criar liquidez e aguardar os momentos mais adequados para comprar moedas fortes a preços baixos, visando enviar para o exterior.

Na atualidade, na convivência permanente com alunos que frequentam escolas de idiomas, visando aprender mais um ou simplesmente para manter a fluência em algum já dominado, é impressionante a constatação do número de famílias inteiras que estão preparando-se para ir definitivamente para um país desenvolvido, como EUA, França, Portugal, Reino Unido, Espanha, Suíça, Bélgica e Luxemburgo. O domínio de idiomas estrangeiros é sempre uma ferramenta muito importante em qualquer fase da vida, pois quem é poliglota tem um grau de mobilidade incomparável, em situações de risco político e econômico. Que o digam milhares de famílias da Argentina e Venezuela que abandonaram às pressas suas pátrias, em direção a "portos seguros". Também o Panamá tem recebido muitos expatriados, pois tem estrutura política estável, economia equlibrada, boa qualidade de vida e também por ser totalmente administrado sob a ótica capitalista, além de oferecer cidadania a residentes estrangeiros e regime fiscal muito diferenciado.

Em 7/2/15, foi publicada no jornal Valor Econômico uma interessante matéria intitulada "Brasileiros insatisfeitos com política e insegurança do país invadem Miami", pág. B-9, de autoria de R.Johson, J.Lewis e L.Magalhães, que explica com muita propriedade esse êxodo... "Essa nova leva de imigrantes brasileiros, porém, tende a se diferenciar das anteriores. Nos anos 80 e 90, o desemprego e a inflação alta impeliram milhares de brasileiros a mudar-se para os EUA. Muitos conseguiram empregos não qualificados e enviavam para o Brasil o máximo de dinheiro possível. Hoje, os novos imigrantes brasileiros são mais inclinados a levar sua riqueza com eles. À semelhança de outros latino-americanos, os brasileiros há muito consideram Miami um lugar seguro para guardar seu dinheiro durante períodos de turbulência política e econômica em casa." É lamentável para um país que carece de tudo, como o Brasil, que empresários, engenheiros, médicos, dentistas, advogados, economistas, psicólogos, professores universitários, cientistas e muitos outros profissionais de alto calibre intelectual tenham que sair do país para viver de forma digna.


E com as notícias publicadas nesta semana, de que há intenção da equipe econômica e de alguns políticos de esquerda de tributar ainda mais as classes de renda alta, esse processo de saída do país tenderá a acentuar-se. Porém, como a crise para uns gera oportunidade para outros, o Tio Sam agradece pela preferência e recebe "a clientela de braços abertos"...!!!!

O autor é economista