09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

A lei das carroças e as ciências sociais


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No momento em que os muitos protetores e ativistas da Causa Animal em Bauru dão as boas vindas ao Projeto de Lei de autoria do vereador Renato Purini para por fim a essa crueldade e a esse atraso que é a utilização dos veículos de tração animal em perímetro urbano, não é surpresa nos depararmos com argumentos de ordem antropocêntrica vindos de um cientista social, ignorando por completo o cotidiano sofrimento dos equinos, enquanto escravos dos interesses humanos.

Será que quem defende a continuidade da utilização desses obsoletos veículos já observou atentamente um cavalo aparelhado com os objetos de tortura que os humanos lhes impõem o uso, para que se sirvam de sua força? Será que esses defensores da exploração animal, por um minuto sequer, conseguem se imaginar o dia todo com uma barra metálica atravessada à boca, condicionando os movimentos que não decorrem da vontade do próprio animal, mas do animal que o escraviza? Será que esses escravizadores conseguem imaginar, por um átimo de segundo, o gosto metálico do apetrecho que se chama "freio", esmagando a língua, bem como a dor das lesões que ele vai causando à mucosa, aos dentes e a toda ramificação nervosa da face?
Será que os triviais interesses humanos sempre negligenciarão todas as dores e humilhações que impomos às outras espécies? Será que não é possível perceber que não existe nenhum animal "bem tratado", se o atam a qualquer aparelho para monta ou tração ou se o obrigamos a carregar peso, como se esse fosse o único destino possível para sua vida? Por fim, será que é muito complicado abandonar por um momento a doentia visão antropocêntrica que crê que tudo que há na Terra é para servir ao animal humano, e entender que não somos o centro do mundo e que as outras espécies não foram criadas para nos servirem? Ao fazer a defesa da continuidade desse tipo de veículo no perímetro urbano, será que esse cientista social procurou investigar a fundo os argumentos daqueles que estão pensando não apenas nos Direitos dos Animais, mas na possibilidade de oferecer futuro mais digno e menos árduo aos catadores de recicláveis e suas famílias? Será que esse cientista já ouviu falar dos cavalos de lata, movidos tanto pela força humana, quanto por motores à gasolina e até mesmo elétricos? Será que esse cientista já ouviu falar da Declaração de Cambridge, que versa sobre a senciência animal e conclama a humanidade a reconhecer que animais são "pessoas não-humanas"? E sobre o Movimento Abolicionista Internacional, que reivindica o reconhecimento dos animais como sujeitos de direitos, ainda que "sui generis"? Será que o colega já ouviu falar do referido movimento?

Carroças são veículos utilizados antes da invenção dos motores e do asfalto. Cavalos não são seres criados para trafegar no asfalto, muito menos entre veículos motorizados. As cidades são ambientes artificiais cheios de problemas e a inserção de animais em suas vias colocam todos em risco: animais humanos e não humanos, amplificando os riscos e os problemas da urbe. Portanto, seria de bom alvitre que as ciências sociais pudessem nos oferecer suas contribuições aqui para que possamos dar um salto qualitativo na solução dessa questão e não, de maneira ligeira e inconsistente, propor-nos a lição fácil e impositiva da manutenção de um anacronismo pleno de tristeza, dor e miséria, desprovido de qualquer ética para com os animais e para com os seres humanos.

Marta Caputo - Defensora dos Direitos dos Animais e representante do Movimento Bauru Sem Rodeios