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Douglas Reis |
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O urologista Carlos Gobbo destaca que HB possui con dições de fazer mais transplantes |
Polo regional e referência no atendimento hospitalar para diversos municípios, Bauru é responsável por um número extremamente baixo de transplantes de rim na rede pública de saúde. Em todo o ano passado, o Hospital de Base (HB), o único que realiza este procedimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS), realizou apenas duas cirurgias. Em 2013, foram cinco e, em 2015, nenhum até o momento.
Para se ter uma ideia, no Estado todo foram efetuados 1.596 transplantes de rins em 2014. Somente o Hospital das Clínicas de Botucatu, vinculado à Universidade Estadual Paulista (Unesp), foi responsável por cerca de 120 – e está entre os dez centros que mais realizam este tipo de procedimento no País. Nesta quinta-feira (12), no Dia Mundial do Rim, os dados de Bauru preocupam.
Fontes ouvidas pelo Jornal da Cidade afirmam que os gestores do HB não têm interesse em ampliar o número de atendimentos. Citam ainda que uma certa “cisão” existente entre o Base e o Hospital Estadual (HE) dificultam o diálogo entre as unidades, para que pacientes que realizam hemodiálise no HE possam ser transplantadas no HB.
Hoje, o serviço de referência para as 50 pessoas que aguardam pela cirurgia no Estadual é o HC de Botucatu. No Base, são 36 pacientes na fila por transplante e somente eles poderão ser operados na unidade caso encontrem um órgão compatível.
Isso porque o hospital está com o credenciamento para este tipo de procedimento vencido e aguarda aprovação da renovação da autorização por parte do Ministério da Saúde. “O impeditivo ocorre apenas no caso de novos pacientes”, destaca, por meio de nota, a assessoria de imprensa da Fundação para o Desenvolvimento Médico e Hospitalar (Famesp), que administra o HB e o HE.
Segundo a instituição, os novos pacientes continuarão realizando o tratamento em Bauru, mas irão entrar na fila de espera de Botucatu para transplante. Ainda de acordo com a assessoria, “a Famesp está redesenhando o perfil e a vocação dos hospitais sob sua gestão, visando otimizar os serviços e atendimentos, e um possível credenciamento do HE para transplantes é um dos assuntos em análise”.
Em condições
Na tarde de quarta-feira (11), a reportagem tentou estabelecer contato com a diretoria da fundação para comentar sobre o baixo número de cirurgias realizadas em Bauru, mas as ligações não foram atendidas. Um dos urologistas que fazem o procedimento no Base, Carlos Alberto Monte Gobbo, explica que o hospital possui plenas condições de realizar um número maior de transplantes e que o esvaziamento do serviço está relacionado à crise que a unidade enfrentou no passado.
“No auge daquela situação, o Base parou de fazer transplantes de rim. Há todo um histórico, embora hoje o hospital tenha estrutura e equipes para fazer mais. Também há uma questão política, de disponibilidade para ampliar o serviço”, frisa ele, que é membro do Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) e também realiza transplantes no HC de Botucatu.
Um outro profissional, que preferiu não se identificar, revela que, hoje, até mesmo pacientes que são submetidos a hemodiálise no Base podem ser encaminhados para a fila de espera do HC, caso o quadro de saúde inspire maiores cuidados. “Ou, então, mandam para o Hospital do Rim em São Paulo, mas a estrutura do Base é, sim, boa”, reitera.
Captação
Profissionais ouvidos pelo JC são unânimes em afirmar que o Hospital de Base é um dos maiores captadores de rins em todo o Estado, já que é referência em traumatologia, recebendo muitos pacientes acidentados que acabam sofrendo morte cerebral. Mas é importante destacar que o órgão não necessariamente é destinado aos que estão na fila de espera em Bauru.
Além da compatibilidade, a escolha do receptor também depende da gravidade do quadro do paciente dentro da fila de espera, que possui âmbito estadual.
Ações de conscientização
Para refletir sobre a importância de cuidar dos rins, a equipe do Hospital Estadual realizará hoje ações de prevenção e orientação dentro da campanha nacional da Sociedade Brasileira de Nefrologia “Rins Saudáveis”. Outras atividades também serão promovidas hoj e também nos dias 14 e 20 de março.
Nesta quinta-feira (12), às 8h30 e 13h30, pacientes do HE que comparecerem a exames, consultas ou outros procedimentos irão receber materiais informativos. No dia 14, a ação segue para o Calçadão da Batista de Carvalho, com a participação de voluntários da Abrec.
Já no dia 20, à noite, uma palestra no Senac, ministrada pela nefrologista Tricya Nunes Vieira da Silva, do HE, encerrará a programação.
‘80% dos pacientes são diagnosticados de forma tardia’, afirma nefrologista
Cerca de 80% dos pacientes diagnosticados com insuficiência renal só procuram ajuda médica quando já apresentam sintomas. É o que afirma o nefrologista André Lopes, que atua nos hospitais de Base de Bauru e das Clínicas de Botucatu, bem como em outra unidade da rede privada.
“O grande problema é que os sintomas mais comuns, como náusea, vômitos, pressão alta, emagrecimento e inchaço nas pernas, só aparecem muito tardiamente, o que aponta para a total falta de orientação e prevenção”, alerta. Neste estágio, o paciente já deve iniciar a hemodiálise (ou a diálise peritoneal, técnica que utiliza uma membrana do próprio corpo para filtrar toxinas do organismo).
O nefrologista explica que o transplante de rim é indicado para pessoas com insuficiência renal, ou seja, para aquelas cujos rins estão funcionando com 15% ou menos de sua capacidade. “E o procedimento é recomendado até mesmo para quem ainda não precisa da hemodiálise. Na verdade, esta é a melhor condição para o paciente, que terá uma sobrevida muito maior”, destaca.
Ele explica, contudo, que o transplante não deve ser feito em pessoas com cardiopatias graves ou histórico de câncer sem confirmação de cura. Ainda de acordo com o médico, cerca de 70% dos rins doados são originários de pessoas que sofreram morte cerebral.
Embora seja possível uma pessoa viva abrir mão de um de seus rins e seja alta a compatibilidade entre parentes de primeiro grau, o número de órgãos vindos de pessoas vivas representa a minoria dos casos. Para a presidente da Associação Bauruense de Apoio e Assistência ao Renal Crônico (Abrec), Maria Bernadete Matos Bento, o medo ainda impede que este número seja maior.
“Também falta conscientização, já que as chances de rejeição tendem a ser menores quando o doador é um parente. E, se a pessoa tiver uma vida saudável, não tem risco nenhum em ficar só com um rim”, frisa. É importante destacar que a legislação brasileira autoriza o transplante de rins entre vivos somente se houver algum grau de parentesco entre doador e receptor, uma medida para coibir o comércio ilegal de órgãos.