Nesta nossa Bauru, onde ocorrências inesperadas e extraordinárias vez por vez costumam acontecer, um dos últimos finais de semana foi abalado por trágica notícia. Numa festa universitária realizada em ambiente campestre com proprietário, organizadores e patrocinadores a identificar, um jovem perdeu a vida, outros três estiveram próximos do mesmo infeliz destino e muitos outros, provavelmente, amargaram espetacular ressaca provocada pelo desbragado consumo de bebidas alcoólicas.
Todos eles voluntariamente participaram ? com consciência, vontade e sem preocupação quanto aos riscos ? de uma "maratoma", desaconselhável certame destinado a conceder estúpidos galardões para aqueles que conseguem se destacar perante os demais concorrentes pela capacidade de ingestão de bebidas alcoólicas, geralmente destiladas. Essa má notícia despertou comoção, mereceu atenção nacional, as autoridades tomaram as providências investigativas adequadas, a universidade, mesmo envolvida a distancia anunciou iniciativas específicas e com absoluta certeza alguns eventos do mesmo tipo já programados foram discretamente adiados para conjuntura mais favorável.
Afinal, o tempo acalma aflições, abafa tragédias e, afora as famílias que choram, o manto do esquecimento, sempre e sempre recobre tragédias e permite programação de novas festas com as mesmas ou assemelhadas organizações porque uma boa festa e alguns goles tiram os jovens da rotina, libertam alegrias e abafam o tédio. Afinal mesmo na universidade a vida é a vida que precisa e deve ser vivida com muita alegria e pouquíssimo tédio porque diploma na mão e destino profissional carregam para o resto de cada vida pesada carga de responsabilidade, compromissos e angustias.
Os fatos acontecidos e carregados de muita dor serão investigados e apurados, as responsabilidades serão definidas e as sanções criminais e civis se cabíveis serão aplicadas a quem merecer. Isso, todavia, não restaura o passado e nem ressuscita valiosas vidas perdidas. Mas serve, principalmente e apenas, como alerta para comportamentos futuros.
Na vida universitária as festas e os momentos festivos são agradáveis, facilitam descontração e geram inesquecíveis vínculos de camaradagem e amizade que remanescem estáveis e presentes nas vidas dos participantes. E nesse contexto as bebidas alcoólicas exercem papel importante que acabam sendo causa principal e essencial de aglutinação, descontração e alegria entre os participantes. Festas sem álcool, regadas a chazinho, sucos e refrigerantes constituem eventos de tamanha chatice que ninguém tem ousadia de programar pela perspectiva de total fracasso.
Aliás, o vínculo entre o homem e o álcool é ancestral na história humana e está presente nos bons e maus momentos. Proibir o álcool não leva a nada ou, então, leva até a terrível Chicago de Al Capone. Bebe-se para festejar e bebe-se para esquecer e isso aponta para o lado bom e saudável do álcool moderadamente ingerido, desnecessárias explicações. Famoso por valorizar o álcool desde os tempos de estudante na velha academia do Largo de São Francisco o ex-presidente Jânio Quadros indagado porque bebia, sutilmente respondeu com seu impecável linguajar pronominal "porque líquido, se sólido comê-lo-ia e se gasoso aspirá-lo-ia". Falou e disse, mesmo sem nada esclarecer.
Passados momentos traumáticos como os destes últimos dias as festas acadêmicas retornarão, com a força de sempre. Clandestinas ou regulares, com ou sem alvará, com maior ou menor fiscalização, com infra-estrutura boa ou precária, com organizadores decentes ou espertalhões, em ambientes campestres ou urbanos, com maior ou menor número de participantes, as festas certamente com conteúdo e atrativo alcoólico continuarão programadas e realizadas e nelas, infelizmente, novas tragédias podem ocorrer por maior e mais aperfeiçoado que seja o controle público na sua realização. O pouco que se pode fazer, além de insistir na estupidez do certame e da premiação, depende de exagerar nos alertas de risco e intensificar exigências de espontânea moderação e consumo responsável. E esse pouco, ou quase nada, que pode ser feito pode salvar muitas vidas.
O autor é advogado e articulista do JC.