Na sexta-feira foi a vez das centrais sindicais, do Movimento dos Sem Terra com a conhecida capacidade de mobilização e palavras de ordem difusas "em defesa da Petrobras", "não ao golpismo" e o fim da austeridade do pacote de "ajuste fiscal". Hoje vão para as ruas os "coxinhas", a elite branca, os heterossexuais, os mesmos do panelaço Le Creuset e evangélicos. A democracia é mesmo ruidosa e contraditória. Por enquanto as manifestações foram pacíficas. Sem conflitos e sem incidentes, os 12 mil homens da Polícia Militar deslocados para a Av. Paulista e adjacências, economizaram esforço físico e bombas de gás. Tudo isso é assegurado pela Constituição, inclusive o direito de não ter lado para quem acha que os governos petistas traíram seus compromissos com a nação, mas é uma estupidez pedir impeachment e empurrar os destinos do país para as mãos de um Congresso, povoado por notórios corruptos. Os Sem Lado correm o risco de abominação, de uma banda ou de outra. Melhor continuar dormindo na manhã deste domingo sob previsão de chuva. Antes, o difícil era ser radical. Mas, o pior desafio é ser ponderado. Desde a Bíblia ? "Venha quente ou venha frio, mas não venha morno que eu vomito" (Apocalipse, 3:13).
A marcha de sexta, 13, foi marcada por uma ambivalência que os correspondentes da imprensa estrangeira tiveram dificuldades de entender. De um lado servia de apoio a Dilma, por outro lado protestava contra medidas desse mesmo governo.
Alguns cartazes exibidos em meio à chuva e captados pela televisão davam bem uma ideia da tentativa de depreciar a manifestação de hoje: "Odeia o Brasil? Vai para Miami limpar privada". "Perdeu play boy. Melhor aceitar a derrota. Vai doer menos". "Fora Dilma" virou rótulo da burguesia e da "Globo golpista". Percebe-se que as novas gerações já trocam a imagem de Che nas camisetas, pela da figura estilizada de Dilma, jovem e revolucionária. Pelo menos já não temos que importar heróis. Outra observação: num ponto, o "exército vermelho do Stédile" encontra concordância com os chamados de revoltados on line. Os protestos, de ambos os lados, clamam por uma reforma política geral, que permita combater a corrupção entre dirigentes empresariais e políticos. Passa pelo financiamento de campanha que não pode mais ser feita por empreiteiros de obras públicas, sob a recompensa de contratos superfaturados. Por falta de estrutura, os órgãos fiscalizadores, como o Tribunal de Contas e o Ministério Público agem por amostragem, de acordo com a gravidade das denúncias. A desfaçatez corre tão solta, que, mesmo depois de deflagrada a Operação Lava-Jato, a roubalheira continuou livre. É como se os corruptos, por suas ligações importantes no meio empresarial e o apadrinhamento político, se considerassem imunes à lei. Essa sensação de impunidade e o acesso fácil a milhões de reais lavados com a ajuda de profissionais é que levou à lona a maior empresa da América Latina, a Petrobras.
Num momento de instabilidade política, econômica e ética, é importante que o povo expresse suas apreensões. A massa trabalhadora tem mais é que defender as conquistas respaldadas em muitos anos de luta. Seria imoral que a classe ascendente, sempre sobrecarregada, aceite mais esse ônus para pagar a conta das malversações do dinheiro público.
O ajuste fiscal, e os cortes de 18 bilhões de reais no orçamento atingem as regras do seguro-desemprego, das pensões por morte, as desonerações das folhas de pagamento e, mais recentemente, fulmina o financiamento escolar fechando o acesso à universidade de milhares de jovens sem recursos, justamente porque os pais não tiveram como estudar. Estes fatos contrariam o discurso anti-liberal da campanha de Dilma Rousseff e, é natural que os prejudicados reajam. Como disse um dirigente da CUT, "direitos não se retiram, se ampliam". O PT sempre defendeu que é preciso saber ouvir "a voz rouca das ruas". Se o partido no desgaste do poder desaprendeu o exercício do coletivo, pelo menos que se assuste com o berro de todos os setores da sociedade.
O autor é jornalista a articulista do JC