O prazer de entrar em uma videolocadora e, muitas vezes, passar horas e horas selecionando os melhores títulos, inéditos ou preferidos, ainda é compartilhado por muitos bauruenses. Prova disso são as pequenas lojas do ramo que mantêm suas portas abertas mesmo diante da concorrência dos acervos digitais. Em Bauru, ainda é possível alugar filmes em praticamente todos os núcleos comerciais de bairro.
No Parque Vista Alegre, um jovem apaixonado por cinema acredita ainda ser possível viver de locação. Nelson Yuji Shinada, 33 anos, há três anos toca uma videolocadora na quadra 5 da rua Cônego Aníbal Di Frância, estalecimento que, segundo seus cálculos, existe há pelo menos 15 anos no local.
“Eu vivi fora do Brasil, voltei e decidi investir em um negócio próprio. Já era cliente da locadora e decidi comprá-la do antigo dono. E garanto que ainda dá para viver disso, principalmente por causa da localização, o movimento da rua ajuda bastante”, comenta.
O espaço de Nelson conta com cerca de 5 mil títulos. Segundo ele, a maioria dos clientes procura por lançamentos. Ele avalia que, além da paixão pelo cinema, os clientes das videolocadoras são pessoas mais “tradicionais”, ou seja, gostam de ter nas mãos o que vão consumir. E isso independe da idade.
Há quem alugue títulos para rir, namorar, espantar a solidão das noites, entreter as crianças com desenhos, divertir-se com os amigos ou, simplesmente, nutrir a paixão por cinema. Paixão ou saudosismo à parte, é claro que o comerciante sente as mudanças trazidas pela concorrência dos aluguéis online, da pirataria, dos adeptos dos canais da TV por assinatura e das acervos digitais, como o NetFlix, entre outras opções modernas que estão diante dos cinéfilos.
“Mas os conteúdos são restritos e mesmo tendo todas essas opções, os clientes voltam a locar. Porém, já estou de olho em alternativas para atrair outro tipo de público. O aluguel de games é uma delas”, aponta.
Mais
Andando pelos bairros é possível encontrar outras portas comerciais como a de Nelson. Lan houses ainda têm clientes em diversas partes da cidade. Consertos de refrigeradores e televisores são realizados todos os dias. Amoladores de facas e alicates mantêm seus clientes fixos dentro e fora de Bauru.
Muitos desses comerciantes e prestadores de serviço mantêm seus estabelecimentos vivos oferecendo uma gama maior de serviços ou produtos aos clientes. Na Vila Santa Luzia, por exemplo, uma profissional da sapataria divide sua oficina entre os consertos de sapatos e bolsas com os reparos em roupas. Donos de bancas de revistas no Centro da cidade também vendem cartão de Zona Azul...
De lan house a amolador de facas
Na quadra 7 da avenida Rodrigues Alves, bem no Centro de Bauru, uma portinha chama a atenção. É a oficina do amolador Adão Benedito de Oliveira. Com menos de 80 centímetros de largura e sete metros de comprimento, o estabelecimento já foi considerado o menor do comércio central do município e conta um pouco da história do mercado e da prestação de serviços de outros tempos.
Em um passado não muito distante, era comum o hábito de amolar utensílios domésticos como facas, tesouras, além dos alicates de cutículas. Não está “cortando” mais, nada de comprar um novo, o hábito pedia a visita a um bom amolador. Embora essa prática tenha perdido adeptos com a correria do dia a dia e a facilidade do comprar, ainda é considerável o número de pessoas que procuram pelo amolador, garante Adão.
“Eu chego a amolar mais de 20 peças por dia, mas é claro que nessa conta entram outros objetos, como ferramentas de trabalho, lâminas de tosa veterinária, lâminas de cabeleireiros... Vale lembrar, ainda, que boa parte de meus clientes são de longa data, tanto os de Bauru quanto os da região”, enumera o profissional que há 17 anos mantém o ofício no mesmo endereço.
‘Criei três filhos consertando televisores’
Um, dois, três, quatro... dezenas, centenas de televisores já voltaram a funcionar nas mãos engenhosas do técnico Marco Antônio Tyar, que chegou a reparar uma dezena de aparelhos por dia. Hoje, com a procura pelos modernos televisores, a demanda caiu muito, mas ele continua firme e forte com sua oficina aberta diariamente na quadra 13 da rua São Vicente, na Vila Bela, região da Vila Pacífico.
“Quando aparecem três clientes por dia é muito, mas eu consigo me manter com esse trabalho, já que vivo sozinho. Acredito que uma pessoa que precise sustentar uma família não consiga fazer o mesmo. No passado, sim, era possível. Eu mesmo criei três filhos consertando TVs”, observa.
Há 20 anos no mesmo ponto, Marco Antônio faz questão de mencionar a durabilidade dos antigos aparelhos de televisão. Se por um lado a qualidade das máquinas modernas é superior, por outro, a sua durabilidade é bem menor. “Uma TV de tubo era feita para durar de 20 a 30 anos. As modernas tendem a durar somente até a garantia expirar”, analisa.
Clientes
Segundo Marco, não há um perfil específico do cliente que procura pelo conserto de um aparelho eletrônico, entretanto, o que mais se nota é o destino desses aparelhos. Muitos, grifa, são levados para casas de chácara, sítio, praia...
“Eu precisei baixar o preço dos meus serviços para atrair os clientes. Antes, cobrava em torno de R$120 para deixar uma TV funcionando novamente. Hoje, esse valor caiu para R$60 ou R$50, caso contrário, as pessoas não buscam ou optam por colocar o aparelho no lixo, mesmo sendo possível o reparo”, acredita.
Além de consertar, Marco também vende aparelhos de TV antigos. E pelo mesmo preço do conserto. “Alguns compram. Outros, sem dinheiro, pedem a TV e eu acabo doando”.
Lan houses sobrevivem na era da navegação móvel
De 8 a 80, é cada vez maior o número de internautas que navegam por meio de dispositivos móveis, principalmente os celulares. Foi-se a época em que as lan houses eram visitadas, certo? Errado! Elas ainda estão presentes em diversos bairros e, segundo seus proprietários, embora a procura seja menor em relação à sua popularização (final da década de 1990), os estabelecimentos ainda se pagam.
Rodrigo Camargo é proprietário de uma “casa de internet” localizada na rua Marcondes Salgado, na Vila Antártica. Além dos serviços de navegação, a lan house oferece impressão, opção que, de acordo com Rodrigo, é o que mais atrai a clientela ao local, que conta com 19 computadores.
“Normalmente, quem procura a lan são as pessoas que estão na rua trabalhando e precisam imprimir relatórios, boletos... São adultos em idade ativa, boa parte trabalha com vendas. A casa se paga tranquilamente, inclusive com uma funcionária”, ressalta. Entretanto, Rodrigo lembra que tem outra fonte de renda para manter a família.
Pai e filho, Marcos Antônio Domiciano e Gabriel Marques Domiciano são exemplos do perfil de clientes citados por Rodrigo. Vendedor, Marcos e o filho (estudante) estavam na lan house visitada pela reportagem realizando exatamente um serviço de impressão. “Como trabalho com vendas e sempre estou na rua, as lan houses são uma mão na roda, principalmente para imprimir boletos, que é o que eu estou fazendo”, diz Marcos, que tem internet em casa.
Para o trabalho
Por outro lado, outro cliente do estabelecimento, o montador de móveis Fábio Alves, não conta com internet em casa ou no celular. Mesmo assim, ele mantém uma página pessoal online onde anuncia os seus serviços de montagem de móveis. E é na lan house, próxima de sua casa, que Fábio checa suas mensagens ao menos duas vezes por semana.
“Eu vivo bem sem internet em casa, embora precise para divulgar o meu trabalho. Porém, quando necessário, dou um pulinho aqui e vejo se tenho alguma mensagem ou dúvida de clientes”.
Comerciantes diversificam a oferta
Com as mudanças tecnológicas, de comportamento dos clientes e a facilidade que o “crédito fácil” trouxe para a vida do consumidor, muitos estabelecimentos comerciais tradicionais e prestadores de serviço precisaram se adaptar à queda na procura. Aumentar a cartela de produtos oferecidos e se especializar foram duas das soluções encontradas.
Cartão de Zona Azul, títulos de capitalização e recarga telefônica estão entre as ofertas que a banca de revistas de Luiz Alberto Penedo, no Centro da cidade, oferece. De acordo com o vendedor, ainda é possível viver com esse tipo de comércio, embora as vendas tenham caído consideravelmente nos últimos anos. Porém, foi preciso oferecer algo mais para o consumidor.
“Foi preciso diversificar, sim. Com a popularização da internet, a venda de revistas acabou caindo bastante, porque muita gente encontra o que procura disponível em sites. Por outro lado, nem todo o conteúdo das revistas está disponível, por isso ainda há a procura pelos títulos nas bancas. Sem contar que ainda tem muita gente que gosta mesmo é de uma folhear uma boa revista”, acredita.
Ainda segundo o revisteiro, houve outra mudança no comportamento dos seus clientes, que hoje optam, em maioria, por gibis, romances e outros exemplares que não têm vencimento, ou seja, com conteúdos atemporais. Ele também aposta na venda de itens literários encontrados em sebos, que atraem a atenção dos leitores que passam na calçada.
Mudanças
E por falar em calçada, há duas décadas e meia Luiz vê Bauru crescer e mudar de um lugar privilegiado, já que a sua banca de revistas e gibis fica na calçada da quadra 9 da rua Rio Branco, esquina com a avenida Rodrigues Alves.
“Vi Bauru crescer e mudar bastante, principalmente em relação à compra e venda no comércio. Entretanto, trabalhando na rua e em contato diário com as pessoas, eu posso dizer que a maior mudança que eu vejo está no comportamento das pessoas. Antes, o “bom dia” e o “olá” acompanhados de sorrisos faziam parte da rotina. Hoje, as pessoas passam nas calçadas olhando para os celulares. Ficamos invisíveis”, observa.
Ela se divide entre a sapataria e a costura
Foi-se o tempo em que os pés eram calçados com produtos feitos artesanalmente e sob encomendas. Porém, o ofício de sapateiro ainda resiste em muitos bairros da cidade, agora, com a procura voltada quase sempre para os consertos.
Na rua Doutor Maurício Dutra, Vila Santa Luzia, quem ainda tira boa parte do sustento da casa com o trabalho de sapataria é dona Adair Camargo Guerra Pereira. Ela aprendeu a função há mais de 30 anos com o marido (já falecido), e ainda hoje mantém funcionando a oficina na frente de casa.
E todo dia chegam encomendas, embora não em grande quantidade, diz ela. Entre consertos de solas, saltos e engraxadas, a sapateira ainda arruma tempo para fazer reparos em roupas. A oficina de dona Adair é dividida entre os apetrechos de sapataria e máquinas de costura.
“Aqui, a gente faz reparos nas vestimentas dos pés à cabeça”, brinca. Segundo a artesã, embora muitas pessoas ainda procurem os seus serviços, os rendimentos do trabalho não são suficientes para sobreviver, mas ajudam a completar a aposentaria de um salário mínimo. “Sem esse complemento, seria praticamente impossível viver”.
Escasso
Entretanto, não é apenas a queda da clientela que dificulta a rotina de quem trabalha com sapatos. De acordo com dona Adair, a escassez do material necessário para o ofício também atrapalha. “Além de caro, o material que precisamos não é facilmente encontrado. Em Bauru, praticamente não se vende mais. Preciso ir para cidades da região, como Jaú, quando preciso desses materiais. Esse é dos motivos que têm contribuído para o fechamento de muitas sapatarias de bairros”, comenta.
Ele foca os colecionadores de antiguidades
Almerindo Crivellari tem 76 anos e desde os 16 anos de idade trabalha com consertos de refrigeradores. Lá se vão 60 anos de dedicação ao ofício e centenas e centenas de geladeiras que por suas habilidosas mãos passaram.
“Trabalhei em uma fábrica de geladeiras e aprendi tudo sobre esses aparelhos. No passado, eu cheguei a colocar para funcionar dois ou três eletrodomésticos destes por dia. Com o passar dos anos, as pessoas começaram a optar por comprar novos objetos ao invés de mandar consertar. É claro que ainda reparamos muitos deles, mas não como antes. Bom, mas a gente sempre dá um jeito de sobreviver.
Hoje, por exemplo, focamos em peças de colecionadores, que representam uma boa parcela da nossa clientela. Fazemos a restauração completa de geladeiras antigas. Fica uma beleza”, comenta.
De pai para filho
Quando “seu” Almerindo fala no plural “nós”, ele se refere aos filhos. Segundo o experiente especialista em consertos de refrigeradores, seu negócio foi ensinado aos dois filhos. Um deles abriu sua própria oficina e outro dá andamento ao trabalho do pai, na oficina localizada na quadra 13 da rua Campos Salles, na Vila Pacífico.
“Meus filhos são os profissionais hoje. Eu me dedico como um passatempo, um hobby, já que os problemas de saúde não permitem muito esforço. Mas o trabalho é uma alegria para mim. E a clientela vem de toda a cidade”, enfatiza.