É muito compreensível que defensores da causa dos animais apoiem o projeto que visa proibir o trafego de carroças, é possível perceber também que o principal argumento é o apelo emocional. O que não é compreensível é o desmerecimento do interlocutor que tem opinião divergente com o intuito apenas de sair vitorioso no debate. A discussão, as divergências de pensamento são fundamentais para nossa evolução enquanto seres que vivem e preferem a democracia. O problema em questão não é discordar, mas sim o tratamento que se dá a quem não aceita passivamente qualquer decisão que afete o todo na sociabilidade, portanto, algumas considerações devem ser feitas.
Em momento algum o sr Bruno Emmanuel Sanchez mostrou em seus textos ser a favor de qualquer tipo de violência contra os animais, mostrou apenas que há um abismo social latente em nossa sociedade que impele as pessoas a procurarem formas de se manter, ou seja, ninguém anda de carroça por que quer. Esses seres humanos despossuídores dos meios de produção e trabalhadores humildes não podem ser colocados em um patamar de exploradores de animais, são, sim, também vítimas de outros seres humanos e de um sistema que além de ser irracional fomenta a desigualdade. O problema é de ordem estrutural e não se resolve com leis, é necessária uma mudança de paradigma.
Questionou-se também como as Ciências Sociais poderiam contribuir com a questão dos animais. Aqui a porta-voz da ONG demonstrou seu desconhecimento nessa área. Esse tema é sim de estudo da sociologia e tem representação através do sociólogo e ativista Roger Yates, defensor dos animais e do abolicionismo. Na Filosofia temos Peter Albert David Singer. No Brasil o sociólogo Caetano Kayuna Sordi Barbará Dias, trouxe inúmeras contribuições para o tema, além de muitos outros profissionais da área. As Ciências Sociais têm atuação profunda na educação, e nossa luta é para que a Sociologia, Filosofia e Antropologia sejam matérias da grade do ensino médio, contribuindo assim para a formação de cidadãos críticos e capazes de pensar a realidade de forma consciente, para que os diversos temas das áreas humanas sejam debatidas em sala de aula, inclusive o direito dos animais.
Temos sim de ter sensibilidade para entender a causa dos animas, mas devemos também nos sensibilizar com a situação dos seres humanos, a classe trabalhadora tão oprimida e explorada através do trabalho, da extração de mais valia, da alienação, nos mostra que vivemos em uma sociedade doente e a forma como tratamos os animais é apenas mais um reflexo. Nossa causa é a mesma, queremos uma nova forma de sociabilização que corresponda aos interesses de todos os seres, e não apenas de uma minoria de privilegiados.
Se os equinos que puxam carroças são explorados, o que dizer dos seres que vivem confinados em latifúndios e granjas, destinados à alimentação humana e tendo seu ponto de abate cada vez mais reduzido com o único fim de se obter lucro? E as vacas leiteiras que tem seus úberes apropriados para extrair leite e gerar dividendos a uma "meia dúzia"? Devemos, portanto, perceber quem é verdadeiro explorador nessa história, tanto de animais quanto de seres humanos, e unirmos forças para suplantar esse sistema que já se tornou ultrapassado. A emancipação humana possibilitará a emancipação dos animais, esse é o verdadeiro progresso, o do humanismo, da espiritualidade, da preocupação com o outro.
E, para finalizar, foi questionado apenas o que se entende no texto do projeto em relação ao termo "capacitação profissional", esse ponto é questionável. Como se dará curso profissionalizante para pessoas que não tiveram oportunidade sequer de estudo básico? Muitos são analfabetos, e mesmo com diploma sua força de trabalho pode não ser aproveitada pelas empresas. Temos um ponto de vista crítico em relação à sociedade e nesse ponto em questão parece tratar-se apenas de um eufemismo para tornar o projeto aceitável, pois sabemos que a realidade é bem diferente. Não precisamos bestializar os seres humanos para humanizar os animais, como ensina a sabedoria indígena, todos os seres, sem exceção, estão em igualdade, nenhum é superior ou inferior, pois a morte iguala a todos.
Rodrigo Beltrani dos Santos, Trabalhador assalariado e bacharel em Ciência Política