Devido ao uso, desgaste, obsolescência tecnológica ou inadequação à moda, o valor dos objetos diminui. Há um fator que não entra nesta contabilidade e que produz um impacto tremendo na forma como valorizamos ou não as coisas: quando a mídia diz que elas já não são tão boas para nós e que precisamos de outras, é como se uma varinha de condão passasse por elas e as transformasse, de repente, em lixo. E o lixo tem dois destinos principais: é enterrado em uma grande cratera escavada no chão ou queimado, apenas uma pequena parte é reciclada.
Os lixões não podem mais ficar a céu aberto, contam com forração e sistemas para recolher o chorume, temos aí o que se convencionou chamar de aterro sanitário. Aterro sanitário soa melhor que lixão, mas é tudo a mesma coisa: apenas um buraco cheio de lixo que fede, expele líquidos e gases. O propósito de um aterro é enterrar o lixo de modo que fique isolado dos lençóis freáticos, seja mantido seco e não entre em contato com o ar. Um aterro típico ocupa muita terra, das quais, talvez, apenas um terço seja dedicado ao lixão propriamente dito. A parte restante do terreno é usada para os serviços de apoio: lagos coletores de vazamentos e de contenção do chorume, estações de recepção, estacionamento de caminhões. Quando o material orgânico, descartado nos aterros, apodrece, libera metano. Um poderoso gás de efeito estufa, inflamável e inodoro, que, embora se disperse rapidamente, é vinte vezes mais danoso do que o dióxido de carbono. Infelizmente, em poucos aterros esse biogás, de considerável poder calorífico, é recolhido e utilizado.
Depois de lotados, os aterros geralmente são recobertos por terra e em seguida replantados. Muitos são transformados em estacionamentos ou parques, mas são áreas condenadas. O lixo se acomoda com o passar do tempo, tornando o terreno instável e assim, qualquer estrutura aí erigida, muitas vezes se desloca e afunda. Quanto aos parques, brincar ou passear sobre uma pilha de lixo exalando metano é sempre uma péssima ideia.
Incinerar simplesmente ou usar a combustão do lixo para produzir energia soa atraente, no entanto, estes processos liberam mais gases de efeito estufa do que a queima de gás natural, óleo ou carvão. O lixo não desaparece, apesar dos avanços na tecnologia de filtragem, sempre restam cinzas e poluição. Usinas que queimam lixo para produzir energia custam caro, não podem parar, precisam de constante aporte de lixo e o lixo mais desejado é aquele que se incinera mais facilmente: por sinal os mais fáceis de reciclar. Vale lembrar que, quando se queima algo, temos que voltar a extrair, minerar, cultivar, colher, processar e transportar um novo produto para substituir o que foi queimado. Tudo isso, muito provavelmente, consome muito mais energia do que a gerada pelo lixo queimado. Se hoje o objetivo é conservar energia, faz mais sentido poupá-la de antemão, reutilizando e reciclando. A reciclagem é verdadeira quando opera em uma cadeia fechada, isto é, a lata retirada do lixo vira nova lata ou qualquer outro produto utilizável.
Quando o lixo só é constituído de matéria orgânica, a compostagem e a biodigestão são alternativas muito mais interessantes que o aterro sanitário. Trazem como resultados: o biogás ? no caso de biodigestores ? além de um substancioso fertilizante para o solo. Acredito que, para a maioria das pessoas, particularmente a compostagem sofra um problema de imagem: ainda está associada a hippies ou a agricultores amalucados. Mas, na verdade, a compostagem é simples e pode ser feita até em casa e qualquer método de compostagem é menos dispendioso e mais inteligente do que construir aterros sanitários ou incineradores de alta tecnologia.
A União Europeia, notadamente a Alemanha, aborda o problema com o enfoque "você produziu, você resolve", é a responsabilidade estendida ao produtor. Isto estimula as indústrias a promover melhorias tanto no projeto quanto nas fases de produção, reduzindo o descarte ou melhorando a possibilidade do reaproveitamento. Como se vê, o problema não é o aterro, nem o incinerador e nem a usina lixo-energia, mas a existência do próprio lixo. Muito do que jogamos no lixo tem uma longa história até chegar às nossas mãos ou até nossas mesas. Após todo esse esforço, convenhamos, seria um desperdício transformar esses recursos em cinzas ou trancá-los no subsolo.
O autor é professor Titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - Campus de Bauru SP