09 de julho de 2026
Articulistas

O Brasil que nos entristece

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

O tempo passa e o desfecho fica cada vez mais distante. A Operação Lava-Jato já completou um ano e está na décima etapa, com algumas prisões temporárias ou preventivas de corruptos e corruptores. A ação da Polícia Federal, do Ministério Público e a postura discreta do juiz Sérgio Moro são elogiáveis. Na história republicana, poucos políticos ligados ao Poder foram punidos pelos desmandos. Somente depois do mensalão é que os brasileiros começam a compreender a exata dimensão dos delitos, e a perceber que não têm limites a sanha em avançar no dinheiro público.

A classe política tenta alguma resposta rápida às manifestações de domingo passado, como a Lei Anticorrupção exacerbando as penas para tantos delitos conexos. Outro tema recorrente é a da reforma política, com a proibição das empreiteiras em custear as campanhas eleitorais. Foi rápida a reação do Senado a uma possível escassez de verbas. Já aprovou emenda ao Orçamento Geral da União destinando R$ 867 milhões para o Fundo Partidário ? verba três vezes maior que os R$ 289 milhões previstos no projeto original. Se a fonte secar nas empreiteiras de obras pública, a solução será sacar diretamente no caixa do Tesouro. Sem necessidade de "operadores", "doleiros" e lavagem do dinheiro. É evidente que o dinheiro sujo do "caixa 2" vai continuar. Todos os candidatos sabem da precariedade da fiscalização da Justiça Eleitoral, para coibir esse tipo de infração.

Tenho relações de amizade com um jornalista correspondente de jornal estrangeiro, que há pouco me confessava seus deslumbramentos e desilusões, depois de ter escrito centenas de textos e entrevistas sobre o Brasil. O jornalista fala ótimo português, casou-se com brasileira, torce pelo país que é muito diferente do seu. Tem de cabeça números sobre homicídios, linchamentos, gravidez na adolescência, violações ou o dinheiro desviado dos cofres públicos. Quando das manifestações de 2013, acompanhou os crescentes protestos em várias capitais, empolgou os seus leitores ao relatar a saga de milhões nas ruas, a presidente prometendo reformas inadiáveis. Disse para a esposa: "Agora, vai". Seus colegas, no Clube dos Correspondentes, olhavam para ele como se fosse um menino ingênuo.

Os jornalistas são substituídos quando perdem a capacidade de observação. Começam a se identificar com a área onde devem atuar com a isenção de quem está imune às emoções. A decepção veio com os atos de violência, destruição de propriedades públicas e privadas, ônibus incendiados e lojas saqueadas. Os protagonistas: grupos radicais, bandidos do tráfico e gente paga pelos partidos e por movimentos sociais. As medidas anunciadas por Dilma? Esquecidas para sempre.

Lembra que Lula foi manchete nos jornais europeus e norte-americanos. A narrativa dos 30 milhões de brasileiros retirados da pobreza era um mantra de sucesso. Milhões de pessoas compraram eletrodomésticos, puseram aparelho nos dentes, mandaram os filhos para a escola. E a miséria continuou. O metalúrgico barbudo foi primeira página na Suécia quando fechou a fábrica da Scania. Os operários escandinavos se indignaram com as condições de trabalho no Brasil. Confessa sua desilusão com Lula da Silva e o PT, partido que aparelhou o Estado como se fosse um polvo e substituiu, descaradamente, o interesse público pelo pessoal.

Meu amigo circunstancial conta que todos os estrangeiros no Brasil sofrem em algum momento de brazilian blues, uma condição que descreve o período em que após a paixão pela exuberância e exoticismo do país, o estrangeiro começa a perceber os problemas insanáveis por trás da cortina. Cai num estado de desilusão e melancolia. Ele combate o brazilian blues fazendo terapia e escrevendo crônicas sobre a corrupção e a burocracia nos cartórios, difíceis de entender. Diz gostar de bater papo comigo para saber como é o jornalismo e a questão pública no Interior do Estado mais rico da nação. Respondo que as coisas já foram piores, mas encontramos um padrão ético aceitável. O maior problema do Brasil é não resolver os seus problemas. Muita emoção, pouca consistência, a constante divisão entre pobres e ricos, pretos e brancos. O jornalista concorda. Viu um adesivo da campanha de Dilma que dizia: "Negro consciente vota Dilma". E milhões votaram no PT com medo de perder o Bolsa Família e outras ajudas do Estado.

Fizemos da afirmação de Stefan Zweig uma piada: o Brasil é o país do futuro ? o que será sempre. Para tentar se livrar do brazilian blues, o personagem desta história já pediu ao seu editor que lhe consiga outro posto. Menos na Síria. Aí, já é demais.

O autor, é jornalista e articulista do JC