08 de julho de 2026
Articulistas

Narcisocracia

Nélson Itaberá Gonçalves
| Tempo de leitura: 3 min

Por um bom tempo torrei a paciência do diretor de redação, João Jabbour, defendendo que não fosse destacado como repórter para a cobertura de solenidade de inauguração de obra pública. Para mim, o fato em si tem de ser publicado em nota de rodapé no jornal. Sábio, o bernardinense ponderava que é no bastidor do descerramento de placa que um repórter colhe boas pautas. Portanto, estar presente era relevante.

No Brasil, político consome em dobro dinheiro público em se tratando de muitas obras. Primeiro que, por deficiência na fiscalização, na elaboração de editais, ou pela prática do "conchavo" com as empresas vencedoras de licitações, é comum a instalação ser feita em desacordo com os bons costumes de engenharia e preço. Assim, algo fica mais salgado. Depois, o político de plantão ainda consome outro níquel para divulgar a obra.

Ao abordar a comunicação pública no País em pesquisa acadêmica pela USP, o jornalista Eugênio Bucci não se faz de rogado e empresta Caetano Veloso para concluir que por aqui "Narciso acha feio o que não é espelho e o que não reverte popularidade nem votos". Em seu trabalho, Bucci conclui que o que deveria servir de ferramenta para a democracia é utilizado como negócio profissional de conquista e manutenção de poder.

Autor do livro "O Estado de Narciso ? A comunicação pública a serviço da vaidade particular", o jornalista escancara que a comunicação pública é "uma passarela para a vaidade particular e, sem exagero nenhum, uma arma a serviço da guerra eleitoral". Na obra de sua tese de livre-docência defendida na USP em novembro de 2014, o autor se fartou de exemplos do que chama de "narcisocracia". Era ano eleitoral e, com ele, vieram referências de como a comunicação serviu a plataformas de candidatos em todo o País. Em todos, para Eugênio Bucci, o objetivo fundamental era o benefício eleitoral.

E pelos exemplos mostrados na tese, a postura é suprapartidária e envolve não só os governantes de plantão, mas também parlamentares que se beneficiam do mesmo sistema. Um viés, em especial, está nas concessões. Os canais de rádio e televisão, distribuídos para os "compadres" do Poder no Brasil, também geram "receita" da veiculação das propagandas estatais.

Eugênio Bucci conclui seu estudo com seis medidas para começarmos a atacar o mal da "narcisocracia" no Brasil, para que se possa "pensar a elaboração de projetos de lei com o objetivo de sepultar o patrimonialismo que usurpa a comunicação pública no Brasil". Mas ele reconhece que pode estar escrevendo para cegos, porque "poucos e improváveis" os interessados em mexer nesse vespeiro.

Por aqui, em nossa Terra Sem Limites, políticos adoram descerrar placas, sem descuidar da pose para as lentes dos fotógrafos e câmeras. Mas basta um jornalista lançar perguntas sobre obras em atraso, estruturas mal instaladas ou projetos não realizados que o gestor de plantão vai logo fazendo cara feia. Para estes, a tese de Bucci mostra que, em se tratando da coisa pública, cara feia não espanta fantasma e, ainda, deixa o autoespelho mais desfocado.


O autor é jornalista do Jornal da Cidade, da TV Câmara e compositor