Na solenidade de posse do presidente da Assembleia Legislativa do Estado de S. Paulo, o deputado Fernando Capez foi eleito para esse cargo com expressivos 82 votos contra apenas dois recebidos pelo parlamentar concorrente. Dentre as inúmeras ações que cogita implantar, disse que a par das sessões ordinárias legislativas realizadas na sua sede, em S. Paulo, outras com certa constância serão deslocadas para cidades do Interior e litoral do Estado. Essa ideia não passa de uma quimera e está longe de conter originalidade. Já havia sido anunciada em alguns municípios por vereadores de Câmaras Municipais inebriados no orgulho de assumirem a presidência do parlamento após vencer a disputa interna para esse cargo.
Não é preciso muito esforço de memória para lembrar que aqui mesmo na terra, o então vereador Roberto Bueno, depois de eleito por seus pares ao cargo de presidente da Câmara Municipal, propalou essa mesma notícia, avisando que comandaria algumas sessões legislativas nos bairros da cidade, justificando o deslocamento do lugar das sessões como forma de estreitar a aproximação do morador periférico com os trabalhos legislativos. Esse plano não decolou. E não se tem informações se em outros municípios a intenção do vereador na transferência de sessões parlamentares fora da sede foi praticada, e, no caso afirmativo, se surtiu resultado animador da continuidade do projeto.
Essa aspiração não conta com a menor chance de se realizar. Imagine-se se os 94 deputados estaduais animar-se-ão em deixar o conforto do prédio da Assembleia Legislativa oferecendo-lhes todas as comodidades, incluindo a bajulação dos assessores e "maçanetas", para fazerem parte de uma sessão legislativa dentro do prédio improvisado, provavelmente um barracão cedido pela Prefeitura bem inadequado para receber decentemente a delegação parlamentar, os equipamentos eletrônicos e pessoal administrativo de apoio, sem os quais não haverá operatividade da reunião. O projeto está condenado a ficar somente no altivo desígnio de "aproximar o parlamento da sociedade", assim justificado pelo presidente Fernando Capez. Se essa é a finalidade do bate-volta, não há razão da TV-Assembleia prosseguir transmitindo as sessões legislativas com regularidade, em imagens de sinal aberto, acessível ao cidadão que se disponha a ver e ouvir todo tipo de discurso.
A questão fica mais inusitada quando se anuncia que algumas sessões fora da sede em S. Paulo serão presididas por deputados da região onde se pretende realiza-las. Ora, além do presidente e do vice-presidente da Assembleia Legislativa, somente os demais membros da mesa-diretora (1º ao 4º secretários) estão autorizados pelo regimento interno da Assembleia a ocuparem a presidência nas ausências e impedimentos dos titulares. Impossível delegar o exercício da presidência à outros deputados sem agredir a norma interna da Casa a não ser que se queira mostrar uma sessão de mentirinha, sem nenhum valor da matéria debatida, aprovada ou rejeitada. E o presidente eleito da Assembleia Legislativa paulista sabe muito bem disso porque domina com maestria as questões do Direito, como mostra sua elogiável biografia. Foi o candidato a deputado mais votado na conquista do terceiro mandato no parlamento paulista. Como promotor de justiça (está afastado do cargo) classificou-se no concurso público em primeiro lugar de sua turma, em 1988.
É nome destacado de professor de direito e conhecido pelo dinamismo como promotor de justiça na defesa do patrimônio e da cidadania quando exerceu essa função, intervindo com êxito e autoridade para refrear os episódios marcados pela violência entre torcidas do futebol paulista. Seu grau de cultura não se compadece com as elucubrações demagógicas declaradas por ser cônscio que essa parte de seu projeto para os anos de 2015/16 não pode ser executada.
O autor é professor universitário, aposentado.