Do dia para a noite, ao menos foi assim que eu e milhares de paulistanos fomos surpreendidos, veio a notícia do fechamento de várias Oficinas Culturais do Estado de São Paulo. Devido à má administração, a corrupção e a outros problemas que não se tratam do tema deste artigo, mas estão interligados, o país inteiro entrou numa crise econômica, e digo crise sem marolas.
Quando criança meu avô sempre dizia que durante as crises econômicas o comum é você cortar gastos, começando pelo o que é supérfluo. Mas a cultura é supérflua? Sentia na pele quando, em São Paulo, os pais de alunos diziam que iriam por seus filhos em outra escola por causa do valor da mensalidade, pouco importando a qualidade, afinal, dizer que o filho está aprendendo a tocar piano é bonito, mesmo sabendo que o filho não está aprendendo nada, e ainda pouco se importando com os riscos de gerar uma tendinite, lordose e outros problemas advindos de um ensino errado. Essa é a cultura da "qualidade burra", muito comum em nossa sociedade. Não importa o saber, o que importa é o status, desde que não seja confrontado e sua máscara desabe. Estão fazendo o mesmo em nossa cidade, cortando o que não pode ser cortado. Já temos tão pouco acesso à cultura em Bauru e ainda querem acabar com o que tem.
Mas voltemos à cultura, o alicerce da sociedade. A antropologia já pregava que cultura é uma rede de significados que dá sentido ao mundo que cerca um indivíduo, ou seja, a cultura é o que nós somos. Ela é a identidade do povo. Acabar com a cultura é simplesmente acabar com a nossa história, do passado ao futuro. No site oficial da oficina cultural eles justificam a sua existência com a seguinte definição: "As Oficinas Culturais, espaços culturais gerenciados pela Poiesis ? Instituto de Apoio à Cultura, Língua e Literatura, são ferramentas de difusão e formação cultural para todos os municípios paulistas. O projeto das Oficinas Culturais foi idealizado em 1986. A partir daí, teve início um processo de formação cultural que culminou na criação de outras unidades." O texto agora terá que ser complementado com a seguinte frase: "Criação esta que durou até 2015, ano em que iniciou a desativação de várias oficinas criadas."
Jornal da Cidade noticiou que o gasto anual da Oficina Cultural Glauco Pinto de Moraes é de R$ 700 mil. O que são R$ 59 mil por mês para o Estado mais rico da nação? Passei meus dois primeiros anos em Bauru, quase que diariamente, na Oficina Cultural Glauco Pinto de Moraes, ministrando aulas, ensaiando coral, realizando apresentações e estudando. Este oficina ministrou diversos cursos gratuitos e ainda abria espaço para artistas ensaiarem e se apresentarem.
Apesar da situação precária do prédio, seus funcionários sempre o mantiveram limpo, em funcionamento e principalmente de portas abertas a todos. Quero terminar dizendo que a cultura e a educação são vitais para termos uma sociedade mais justa, pois através do conhecimento você terá argumentos e fundamentos para brigar pela saúde, segurança e os demais itens básicos necessários à sobrevivência do ser humano.
Quer mudar o país? Estude! Quer mudar a sua vida? Adquira conhecimento! Vamos lutar para manter a Oficina da nossa sociedade aberta. Pois sem identidade nós nada somos.
O autor é maestro em Bauru