09 de julho de 2026
Articulistas

É primavera nos Alpes franceses

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min


De repente você se vê no lugar errado, no momento equivocado. Deu a louca no piloto. O comandante que havia saído para ir ao banheiro não consegue voltar porque o seu auxiliar trancou por dentro a porta de alta resistência. Os passageiros presenciam a cena insólita do comandante que implora para entrar no próprio território. Inicia com um toque-toque cerimonioso. Sussurra: "Andreas, abre a porta, sou eu". Nenhuma resposta. Bate mais forte. Tenta o código secreto. Nada! O avião desce a mil por hora, provoca entupimento nos ouvidos pela brusca descompressão. Em desespero, o responsável pelo avião e o destino de todos, esmurra a parede, chuta a porta, pede que a aeromoça traga o machado, item das ferramentas de bordo. Os passageiros, em pânico, têm certeza de que algo terrível está prestes a acontecer.. Um estrondo... Fim dos nossos serviços numa montanha dos Alpes franceses, ainda salpicada de neve na primavera. Nos registros da caixa preta ouve-se o respirar tranquilo do piloto e, ao fundo, barulhos de murros na porta e os gritos.
Pronto, o roteiro para mais uma série de filmes de desastres aviatórios. Em 1976, um piloto russo embicou o Antonov sobre o bloco de apartamentos onde vivia a ex-mulher. Em 1997, foi a vez de um avião indonésio mergulhar no vácuo, com o copiloto fora da cabina. Dois anos depois, o comandante de um Boeing egípcio grita "Alahu Akbar!" (Deus é Grande!), e vai ao encontro de 70 virgens que o esperam no Paraíso. Em 2013 o mesmo ocorreu em Moçambique. Em março do ano passado, o Boeing 777 da Air Malaysia desaparece misteriosamente, com 239 pessoas a bordo. As buscas mais caras da história resultaram infrutíferas. Só aí, um Cemitério da Saudade para tantas vítimas. O perigo mora ao lado. Pode ser o vizinho da direita, ou da esquerda, da frente, ou o piloto do voo para o qual você teve o azar de encontrar uma passagem trocada por bônus do cartão de crédito. O cérebro humano é uma máquina complicada. Estudos indicam que 25% da população que sofre de doença mental estão na ativa. Os atos de um psicótico deprimido não costumam ser feitos por impulso, mas sim estudados e pensados. Daí o sucesso da empreita do copiloto da Germanwings. Li explicações de um psiquiatra, no Le Figaro, que esse tipo de doente é afetado por "ideias delirantes". "Pode ter um caráter apocalíptico ou místico, em que se acha ter a missão de levar as pessoas todas para junto de Deus ou para o Paraíso". Mas, acrescenta, também é comum existirem os chamados "delírios niilistas". O suicida sofre de tal forma que acredita que todos sofrem como ele, ou vão sofrer um dia, e opta então por aquilo que os psiquiatras denominam como um "ato piedoso". A morte de outras pessoas é entendida como um ato de misericórdia, porque o sofrimento é visto como inevitável. Imagine: o suicídio concomitante à morte misericordiosa de centenas, que naquele momento só pedem um lanche menos miserável, por misericórdia. E isto pega! Os jornais descrevem o "tresloucado gesto" da mãe que se suicida, mas, mata primeiro os filhos, precedida de depressão grave. Quando eu era repórter, cobri o caso da mulher do comediante Grande Otelo que, após brigar com o marido suicidou-se e levou com ela o Chuvisco, o único filho. Formicida com guaraná. O psiquiatra que entrevistei explicou que "não há doenças, há doentes". Os psicopatas têm dificuldades de adaptação social. Culpa, para eles, não existe.
Se a literatura médica já ensina essas coisas, por que as empresas de aviação não examinam direito o que esta por trás da cabeça dos seus pilotos? Carlos Vieira, que é do ramo, diz que a observação do mundo psíquico de uma pessoa requer alguém que tenha treino e disciplina para poder enxergar aquilo que se esconde além da consciência. Esse tipo de competência é raro no mercado. "Só o Sombra sabe o mal que se esconde atrás dos corações humanos", dizia trailer do seriado dos meus tempos de matinê. Foi assim que Freud denominou sua psicologia como "Metapsicologia" ? um olhar que transcende a impressão sensorial e vai aprender o "sem nome", o "não dito", enfim, tudo aquilo que repousa no inconsciente e no Consciente não pensado, e precisa ser traduzido. Todos temos dentro de nós impulsos de Caim e de Abel. Nascemos para o Éden e só encontramos o Inferno. O problema não é o excesso de trabalho, mas a dificuldade em descansar nos momentos reservados para isso. Na literatura, encontramos explicações para tudo. Shakespeare (Sonho de uma Noite de Verão) dizia que os lunáticos, como os amantes e os poetas, "São de imaginação somente feitos./ Cada um vê mais diabos do que cabe o inferno/ (...) O olho do poeta delirante vaga,/ Passa da terra ao céu, do céu à terra./ (...) E ao que era vácuo um nome dá/ e um lugar fixa". Boa viagem.

O autor, é jornalista e articulista do JC