09 de julho de 2026
Geral

Jovens bauruenses praticam bom senso e cultivam valores coletivos

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 8 min

Eles não costumam entrar na onda de ficar todos os dias horas e horas em frente ao computador só pra ver o “tempo passar”; gostam sim de mídias sociais, mas preferem usar essas ferramentas como elemento interativo, que promova amizade, aproximação e troca de experiências; não são ‘nerds’ e nem ‘CDFs’ e se o fossem não haveria crise interior alguma, gostam de ouvir e serem ouvidos e têm certa noção de que nem tudo é possível ter... Também não se dobram às tentações da alienação, do álcool e drogas muito menos do pouco caso com o futuro e a vida em sociedade. Amanhã se comemora o Dia Mundial da Juventude.

 

Muitos destes jovens, fundamentalmente, investem algumas horas da agenda semanal para realizar trabalho voluntário e de convivência com crianças e idosos, se deslocando em grupo para creches e asilos; outros se reúnem com frequência para bater papo ou simplesmente cultivar o encontro e a amizade, sem disputar quem bebe mais e, inclusive, até para conviver coletivamente sem a companhia de bebida alcóolica. Acreditem, esses não competem, muito menos para ver quem bebe mais!

 

São pessoas comuns, mas objetivamente mais “ligadas” em algum vetor do contexto social essencialmente coletivo, diferentemente de milhares dos seus é verdade. Não julgue: eles não são santos, nem pertencem a uma confraria. Cometem seus ‘pecados’, fazem até alguma ‘birra’ quando os pais dão bronca ou dizem “não”. 

 

São psicologicamente, emocionalmente ou socialmente incompletos. Como os jovens, oras! Mas e daí? Isso apenas ratifica que são especiais,  “diferentes” sim, joias em lapidação pertencentes a uma sociedade exacerbadamente individualista. Têm fraquezas e defeitos, claro, mas não estão o tempo todo olhando para o próprio umbigo ou o espelho. Eles formam uma moçada que tem orgulho próprio. E, por isso, estão à frente na jornada da vida de milhões de desavisados, alienados, subjugados, desantenados. 

 

Eles são jovens de senso social, coletivo! E em alusão ao Dia Mundial da Juventude, comemorado nesta segunda-feira, o JC conversou com alguns desses jovens para saber como é o mundo que gira sobre suas cabeças e dentro delas.

 

O elo psicossocial em comum a esses grupos pode ser a sensação de pertencimento. Compartilhar gostos, comportamentos, acolhimento, ternura, amizade, conhecimento, brincadeiras, ou qualquer outra forma de “vida sadia” pode significar - também - para o coração dessa juventude - que quer ser ouvida e participar - que “precisamos nos sentir como pertencentes a tal lugar, a um agrupamento social e, ainda, sentir que esse lugar de alguma forma nos pertence”.

 

Assim, acreditam que podem formar elos, ser aceitos socialmente. A percepção, nos contatos em razão da reportagem, foi de que esses jovens acreditam que podem interferir e que, acima disso, vale a pena adentrar nas rotinas e nos rumos de algum lugar ou feito.   

 

Elos sociais

 

Para a psicóloga Orlene Daré, coordenadora do Núcleo de Infância e Adolescência, a necessidade de pertencimento é inerente ao ser humano e isso aparece de forma mais acentuada nos jovens. “Os jovens têm maior necessidade de pertencimento, de serem aceitos em grupo, seja qual for - religioso, político, social. E essas diferentes formas de interagir em grupo expressam essa vontade”, aborda. Orlene considera essencial essas experiências para o desenvolvimento humano, sobretudo psíquico. E esse pertencimento vem com a interação em intervenções sociais, de natureza urbana. Um dos caminhos para essa sensação acontece nos encontros entre pessoas com afinidades”. A psicóloga acrescenta que ser aceito socialmente é importantíssimo para esses jovens. E se eles se agrupam entre iguais, eles veem oportunidade de se manifestar e serem ouvidos. E esse comportamento também é uma forma de opção política necessária para esses jovens.

 

‘É um encontro, não um refúgio’, diz alunos

 

Jovens que frequentavam juntos uma turma de alunos de teatro começaram a se reunir depois do curso. Um agregou outro e o grupo, desde 2009, frequentemente se encontra para conversar, brincar, jogar.

 

Sim, eles jogam o que chamam de Panela. Quem apresentou o formato para o grupo foi Ana Paula Assis, 22 anos, hoje estudante do terceiro ano de psicologia na Universidade Sagrado Coração (USC). “Na verdade o jogo nunca é o fim, o principal é a gente se encontrar. É um encontro, não um refúgio. Eu por exemplo bebo socialmente, mas em nossos encontros não levamos nada. Em geral pedimos pizza e refrigerantes. Algumas vezes passamos o dia inteiro juntos”, conta.

 

Ah, o jogo? Guilherme Menezes de Oliveira Passarinho explica que cada amigo escreve cinco palavras (verbo, substantivo, adjetivo, o que cada um quiser). Os bilhetes são misturados em uma panela. O jogo é um processo de adivinhar a palavra sorteada a partir de outras palavras. Uma das fases é feita em mímica. “Não pode escrever a palavra sorteada. É uma forma de representação. O jogo em si é apenas divertido, mas a gente se gosta tanto que passamos horas nos divertindo com isso. É para ficar junto, só isso”, diz Guilherme.

 

Para Ana Paula, a afinidade misturada com diversão agrega. ”As reuniões nos divertem muito e isso falta muito nos grupos. Não é necessário nenhum subterfúgio para que a gente se sinta bem. A gente se reúne e estamos bem. Sem caretice, é um porto seguro pra amizade, sem necessidade de beber ou outra coisa, mas apenas para se divertir”, opina.

 

Para a estudante, “confiança e liberdade aproximam, ampliam os vínculos emocionais. É uma sensação de ouvir e ser ouvido”.          

 

Guilherme Menezes, hoje estudante de publicidade e professor de inglês, conta que o grupo se ampliou e dele surgiu outro. “Um outro grupo com nome de ‘Pra sempre’ se reúne para assistir novela, filme, escrever. Fomos interagindo antigos participantes com novos, outros foram estudar em outras cidades. O fato é que isso nos aproxima muito e isso faz bem”, considera.

 

O jovem reconhece que outros colegas não reagem bem ao saber do modo de interação do grupo. “Olham torto, fazem alguma careta. Mas não importa. Temos um fio invisível que nos liga, nos fortalece. Achem o que quiserem. O jogo é apenas um aperitivo para a gente se ver, se encontrar”, sintetiza.

 

Das reuniões para jogar, o grupo encontrou outros argumentos, datas. “Criamos eventos fixos, como o ‘triversário’ para datas próximas, uma dinâmica para datas comemorativas como o Natal. É um encontro para trocar informações, experiências de vida”, finaliza.

 

Gerações e experiências diferentes

 

Um grupo realiza trabalho voluntário em uma creche berçário e outro em lar para idosos. Alunos do colégio COC, da zona sul, experimentam o contato com o “outro lado da vida real” para saborear experiências.

 

Ajudar a trocar fraldas, acompanhar crianças, de um lado, e dar as mãos para idosos com restrição à locomoção, do outro lado, era um universo desconhecido para as mais de duas dezenas de jovens. Mas eles garantem que, ao contrário de ser um fardo, a atribuição é prazerosa.

 

“Não tinha tido contato com esse tipo de dificuldade antes e adoro fazer. Trazer ou sentir a felicidade em uma pessoa mais velha, mesmo que você só esteja dando atenção a ela, é muito bom”, diz Anne Sato.

 

“Sempre estudei em escola particular. Ver o outro mundo, quem não tem condição, é algo que marca. Nós temos muito tempo ocioso e nem sempre estamos dispostos a colaborar”, aborda Isabela Auad.

 

Eles confirmam que no começo o contato gerou apreensão. “O primeiro comentário foi que o trabalho era para nota na escola. Aliás, os colegas que não participam ironizam exatamente porque não tem nota nenhuma nisso. Muitos não botavam fé que a gente ia continuar participando desse trabalho. Mas comove o carinho, a carência com que os mais velhos nos recebem e como eles tentam retribuir”, diz Júlia Gimenes.

 

Yasmim Hafiz considera que a ação desperta nela a iniciativa por coisas que nunca havia feito, como reconsiderar as regras em casa. Júlia Kato, Lara Bife e Chiara Diomedes reconhecem que não eram atentos em casa e nem “davam muita bola” para o fato de que recebem “tudo pronto”.

 

Da ação voluntária, o grupo já se organiza para arrecadar fundos e cada classe tem uma tesoureira. Os recursos são investidos em eventos nas unidades, ou na compra de algo que seja revertido para a creche ou o asilo. “A gente tem tudo de ‘mão beijada’. Essa experiência ajuda a despertar esse senso. Outra percepção é que, no caso dos idosos, eles têm saudade, sentem solidão. O contato por algumas horas significa afeto para eles”, completam, coletivamente.

 

 

Jovens fazem visitas monitoradas

 

A realidade dos meninos e meninas que frequentam o Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos do Jardim Ferraz, um programa da Secretaria do Bem-Estar Social (Sebes) é dura. Filhos de famílias humildes, eles buscam em ações como as ‘visitas monitoradas’ a instituições e empresas uma oportunidade de conhecimento.

 

Wellington Henrique Martins, Eliel Prevellato, Thais Climaco da Silva e Poliana Piagenti Fraisoli, são filhos de pais que trabalham fora, bons alunos na escola e curiosos. Com dificuldades, suas famílias conseguem garantir que estudem e todos contam com computador em casa.

 

“Minha mãe não deixa, mas eu não fico mesmo o dia todo em frente ao computador. Outra coisa é que é difícil entender que a gente não tem muitas coisas. Quem não tem é um pouco excluído. Pra nós, buscar algo a mais agora é mais importante ainda”, dizem, um complementando o outro.

 

Na semana passada, o grupo participou de visita ao campus da USC. “A biblioteca grande, cheia de livros, me chamou atenção”, disseram Eliel e Thais. “Lá tem um monte de curso. Quero fazer gastronomia, adoro cozinhar”, contou Wellington. “Gostei dos laboratórios. Estudar em universidade é um sonho”, confessou Poliana.

 

Na conversa com os jovens, um tema em comum esteve presente nas falas sobre ‘quem tem melhor condição de vida’: “Tem muita gente que não dá valor ao que tem. Acha que tudo cai do céu. Isso é ruim. Pra nós não tem jeito, ou batalha, ou não vai conseguir nada. Mesmo assim também tem muito colega que bebe e só bagunça na escola”, contaram, cada um a seu modo.