09 de julho de 2026
Polícia

Dosagem de álcool no corpo de universitário era de "alta letalidade"

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 3 min

João Rosan/Arquivo

Humberto Moura Fonseca tinha 23 anos. Laudo emitido apontou que ele não usou outras drogas

4,6 gramas de álcool por litro de sangue. Era a quantidade de álcool presente no corpo do estudante de engenharia da Unesp Humberto Moura Fonseca, 23 anos, em 28 de fevereiro deste ano, data de sua morte após a festa open bar Inter Reps, realizada em uma chácara em Bauru. Um mês após a instauração do inquérito, que já conta 14 pessoas investigadas e duas indiciadas em um processo complexo com mais de 500 páginas, a Polícia Civil divulgou o laudo toxicológico e outros detalhes das apurações, que devem seguir por mais 90 dias.


O documento apontou que o jovem não consumiu nenhuma outra droga. A polícia ainda aguarda laudo indicando a causalidade, porém, estudo divulgado pelo Centro de Informações Sobre Saúde e Álcool (Cisa) - organização brasileira com banco de dados científicos reconhecido nacionalmente – mostra que a quantidade de álcool realmente era letal.  O estudo aponta que, acima de 3,5 g/l, as chances de sobrevivência são quase nulas. A publicação indica ainda que acima de 5,0 g/l o resultado, com certeza, é fatal. Ou seja, Humberto, com 4,6 g/l, estava com dosagem de “alta letalidade”


O mesmo apontamento é feito pela Sociedade Brasileira de Toxicologia, que indica que a partir de 3 g/l a pessoa já pode ter confusão mental e perda da consciência. Como parâmetro de avaliação preliminar da dosagem, a polícia cita que a quantidade ingerida pelo estudante é quase 8 vezes maior que a considerada crime pela Lei Seca (0,6 g/l).


Confirmação


Delegado responsável pelo caso, Kleber Granja ressalta, no entanto, que ainda não é possível afirmar se a quantidade de vodca ingerida provocou mesmo a morte. Ele aponta que apenao laudo complementar em mãos poderá estabelecer de vez o nexo de causalidade, ou seja, se a quantidade de álcool resultou no quadro clínico que matou Humberto.


“Em toda minha carreira nunca vi ninguém apresentar teor acima de 2 g/l, mas por enquanto, o que temos é o laudo preliminar apontando parada cardiorrespiratória. Não sabemos se provocada pela grande ingestão de álcool, demora no socorro ou socorro adequado”, comenta Granja. “Aliás, há de se considerar o contexto todo da festa, que conforme as investigações mostram apresentou uma série de omissões”, reforça o delegado.


Vale lembrar que exame do Instituto Médico Legal (IML) apontou que Humberto tinha uma cardiopatia.


O encerramento do caso deve acontecer somente quando todas as testemunhas – 30 já foram ouvidas e ao menos mais 20 ainda serão intimadas – derem suas versões.


Outro laudo importante que ainda não saiu é do exame que deve indicar se houve algum tipo de adulteração na vodca consumida durante a festa.


A polícia apreendeu três amostras lacradas da vodca servida durante competição chamada “Shot minuto”.


Nenhum dos participantes dessa “prova” diz ter ingerido menos do que 20 copinhos em toda a prova, que previa a ingestão de 50 mililitros de vodca por minuto, detalha o delegado.


Granja ainda confirma o apurado preliminarmente: a festa não tinha alvará.

Ambulância usada na festa foi apreendida


Além dos dois organizadores do evento, autuados em flagrante, mas que respondem em liberdade, seguem investigados os seis auxiliares dos organizadores da festa, dois sócios proprietários de empresa contratada para prestação dos primeiros socorros e os quatro membros da equipe.


A ambulância utilizada foi apreendida e, segundo a polícia, não possuía licenciamento e nem mesmo registro junto aos órgãos de saúde. Um dos socorristas, inclusive, estava com a credencial vencida.


Após a apreensão da ambulância, a empresa apresentou uma bolsa contendo equipamentos de primeiros socorros. Há, contudo, divergências de versões se ela estaria na viatura.


Restou apurado ainda que, só após a morte, é que foi contratada uma UTI Móvel.