09 de julho de 2026
Geral

Cabo Oseias e seu último comando no canil da Polícia Militar

Cinthia Milanez
| Tempo de leitura: 4 min

Douglas Reis

Oseias e a esposa Jeane com os filhos Jones, Jessica e Oseias da Silva Junior: amor aos animais

É difícil ver gente apaixonada pela profissão. O brilho nos olhos e a fala mansa do cabo Oseias da Silva, 46 anos, fazem com que ele ocupe uma posição de destaque nesse grupo. O militar dedicou quase metade da vida à polícia, sendo 21 anos só ao canil da instituição em Bauru. No entanto, chegou a hora de dizer adeus. Oseias está se aposentando, mas pretende lutar para que os cães adestrados por ele fiquem com a família Silva.


Nascido em Piratininga (13 quilômetros de Bauru), Oseias foi criado junto a outros 11 irmãos, sendo que dois deles seguiram a mesma carreira. Em 1988, o cabo começou a trabalhar na polícia em Campinas. No ano seguinte, conheceu a esposa Jeane Magalhães Lima da Silva, 44 anos. Em 1991, eles se casaram e tiveram o filho Jones Magalhães da Silva, hoje com 24 anos. Depois vieram Oseias da Silva Junior, 23 anos, e Jessica Magalhães da Silva, 18 anos.


Por conta do nascimento do primogênito, o cabo Oseias pediu transferência para a cidade natal, onde já vivia com a família. Em Piratininga, o militar trabalhou por dois anos, mas foi transferido para Bauru. “Eu gostava muito de cães e o canil da PM ainda estava começando. Na época, a instituição só funcionava para tomar conta dos presídios. Tanto que ficava próximo à Penitenciária 2”, relembra.

Malavolta Jr.

Oseias durante ação com o pastor alemão Apache, em 2006

No entanto, com o passar do tempo, o canil começou a se especializar. “O antigo canil era bastante precário. Havia dificuldade em adquirir medicamentos e ração para os cães, porque ainda não tinha nada oficializado”, narra. Lá, Oseias conheceu Beethoven, um rottweiler de 2 anos, que foi doado aos militares. “Era um cão muito agressivo e ninguém queria mexer com ele, mas nós acabamos nos aproximando”, acrescenta o cabo.


‘Cãopeão’


Beethoven se aposentou aos 8 anos e passou os últimos dias de vida com a família de Oseias. “Ele tinha muito ciúme do meu marido, ninguém podia chegar perto”, revela Jeane. “Beethoven era como um filho para mim”, diz o militar. O cão passou por poucas e boas junto ao cabo, principalmente durante as rebeliões em presídios da região de Bauru. “Certa vez, em Getulina, ele entrou, mesmo no escuro, e mordeu todos os presos que estavam por perto”,  diz Oseias.

João Rosan

O rottweiler Beethoven se aposentou aos 8 anos e ficou com ele até morrer

Inclusive, o rottweiler pode ser considerado um “campeão”, já que recebeu diversas homenagens, como no ano de 2014, quando foi presenteado com um osso de prata durante a inauguração do Hospital Estadual de Bauru. “Ele se aposentou entre os cinco melhores cães policiais do País”, pontua o policial.


Os cães começaram a obter sucesso nas operações policiais e o canil da Polícia Militar (PM) de Bauru “caiu na boca do povo”. “Tenho uma sensação de dever cumprido, principalmente por levar o nome do canil para o cenário nacional por meio das competições que participei”, relata.


Os cães que passaram pelas mãos do cabo Oseias são os rottweilers Beethoven, Thor e Black; os pastores alemães Hans, Apache 1 e Apache 2; a springer spaniel Sandy; os labradores Falcão, B.O. e Stive. O militar pretende lutar para ficar com os quatro cães que ainda estão na ativa (Falcão, Apache 2, Black e Stive), caso eles não consigam se adaptar a outro treinador. “Quero eles comigo”, desabafa.

Prêmios


O cabo Oseias da Silva coleciona três moções de aplausos, sendo duas da Câmara Municipal de Bauru e outra de Piratininga, 30 cursos de adestramento, além de nove prêmios, entre eles o Luiza Anahim, em 2009, concedido pelo Conselho Municipal da Comunidade Negra de Bauru. Por conta desse histórico exemplar, o policial não pretende parar, mas vai mudar o foco. Ele trabalhará com adestramento de cães guias e domésticos. Inclusive, Oseias participará de um curso na unidade K-9, nos EUA, a partir do segundo semestre.


“Nós costumamos criar uma certa expectativa para a aposentadoria. Todavia, foi muito difícil para mim, porque tive de me despedir dos cães. Isso me arrebenta por dentro. O Stive, por exemplo, se escondeu de mim no último dia que fui ao canil. Parece até que ele sentiu que eu estava indo embora. Não posso parar de fazer o que gosto”, finaliza.