10 de julho de 2026
Articulistas

Não foi sua culpa, Maria

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 3 min

Nem era tão tarde da noite e Maria andava de volta para casa. Naquele dia fez um calor descomunal, o que a deixava ainda mais cansada depois de um dia difícil no trabalho. Realmente, dia difícil. Como o ambiente no serviço era bastante informal, Maria ?desaposentou? aquela bermuda da terceira gaveta e foi para o escritório. Não ouviu represálias da chefia, porém, teve que lidar com piadinhas e cantadas dos colegas.

Queria voltar logo para casa e, de certa forma, já se arrependera de ter ido trabalhar com a vestimenta de alguns pouquíssimos centímetros acima do joelho. Sentiu que a olharam diferente. Sentiu que a trataram diferente. Tanto os homens quanto as próprias mulheres. Uns, com ar de desejo. Outras, com ar de reprovação.

Queria voltar logo para casa. Mas, quando passava perto de uma viela, um solavanco forte o suficiente para jogá-la ao chão. Na tentativa de se proteger, Maria ralou as palmas na mão ao atingir o concreto. Com um objeto pontiagudo, talvez uma faca ou mesmo um pedaço de caco de vidro, ouviu uma voz rouca: "Cala a boca ou te furo".

Maria não acreditava que aquilo estava acontecendo. Via vultos de carros a poucos metros, mas se sentia impotente, invisível. Pensava em gritar, porém, o medo a silenciava. Esperava não ser roubada. Quando percebeu o que realmente aconteceria, torcia para somente ser roubada.

Aos poucos, sentiu sua bermuda nos joelhos. O barulho do zíper se abrindo nunca sairá da sua mente. Sentia a pele do homem a invadindo. Os pelos dele encostavam nela. A barba áspera também. Aquela textura parecia arranhar sua alma. Percebia que não havia mais o que fazer. A cada estocada, sentia seu rosto esfolar naquele asfalto rude. O atrito e as lesões aumentavam ao passo que sua cabeça era pressionada com força contra o chão. Maria somente rezava para aquilo acabar. Rezou até certo ponto. Depois, começou a questionar da própria existência de Deus em um momento como aquele. Sentia um líquido escorrer por entre as pernas. Uma mistura de sangue, gozo e humanidade se perdia naquele momento. "Tá gostando, vadia?".

Foram 6 minutos e 11 segundos. Foram 6 meses e 11 dias. Foram 6 anos e 11 meses. Foram 600 séculos e 11 anos. Foi uma eternidade. Mas, finalmente, acabou. Ele simplesmente se levantou e foi embora. Maria não teve sequer a capacidade de virar o rosto para tentar ver quem acabara de matá-la em vida. Somente chorou. Quando teve forças, levantou-se. Pensou em correr para o carro mais próximo, para ir até o posto policial mais próximo, para falar com o oficial mais próximo, para buscar o suspeito mais próximo. Somente pensou. Não o fez. A vergonha a travou. O máximo que conseguiu foi chegar em casa.

Maria entrou no chuveiro e se esfregou com toda a força que podia. As poucas partes que não estavam machucadas, ela própria machucou. Queria tirar toda a lembrança da sua pele. Queria tirar toda pele do seu corpo. A água do chuveiro caia límpida até tocar seu rosto. Ali, misturava-se com as lágrimas de ódio e desespero.

Ao conseguir sair do chuveiro, ela olhou para o chão e viu sua bermuda, ainda toda suja. Lembrou-se das piadinhas e dos olhares de reprovação no trabalho. "Será que tudo foi minha culpa?", questionou-se. Não, Maria. Não foi sua culpa. Não, Marias. Não é culpa de nenhuma de vocês.


O autor é editor do JC, jornalista responsável
da TV USP Bauru e especialista em Linguagem, Cultura e Mídia