11 de julho de 2026
Geral

Viaduto que liga Falcão ao Bela Vista éepois de 22 anos

Thiago Navarro
| Tempo de leitura: 9 min

João Rosan

Duas décadas após o início da construção, parte estrutural do viaduto está finalmente pronta; trânsito, porém, será liberado após laudo e iluminação

O bauruense já não precisará mais chamar o viaduto Falcão-Bela Vista de elefante branco, paliteiro ou viaduto inacabado. O elevado, que teve sua construção iniciada em 1995, após dois anos de discussão no governo do então prefeito Antônio Tidei de Lima (1993-1996), está com sua parte estrutural concluída. A obra se tornou uma espécie de ‘lenda urbana’ e gerou críticas a pelo menos três administrações envolvidas em alguma etapa da construção ou da federalização da dívida: Tidei de Lima, Antônio Izzo Filho e Nilson Ferreira Costa.


Quando o projeto começou a ganhar corpo, em 1993, o Brasil ainda era apenas tricampeão mundial de futebol (hoje é penta), o País se recuperava do impeachment de Fernando Collor de Melo, e o presidente era Itamar Franco, já falecido (em 2011). O Plano Real estava apenas começando, a moeda era o Cruzeiro Real, João Paulo II era o Papa e o saudoso Ayrton Senna dava alegria aos brasileiros nas pistas de Fórmula 1.


Será o maior viaduto de Bauru, com 760 metros de extensão – apenas no elevado, pois o aterro que liga a cabeceira à Praça Espanha tem mais 400 metros. Para se ter dimensão do tamanho, o maior viaduto existente na cidade em uso atualmente é o Antônio Eufrásio de Toledo, que liga a continuação da avenida Duque de Caxias à Vila Falcão e Independência (Praça do Relógio), com cerca de 300 metros.


Agora, já não resta mais nenhum setor a receber concretagem e a pavimentação foi concluída em toda a extensão do viaduto nesta semana. “No que diz respeito à parte estrutural, a obra está pronta. O que falta para liberarmos ao tráfego de veículos é o laudo técnico e a iluminação, que serão realizados simultaneamente. Se tudo correr bem, a inauguração deve ser no final de maio, se não houver nenhum imprevisto”, afirma o secretário municipal de Obras, Sidnei Rodrigues.


Arrastado


A construção do viaduto foi uma verdadeira novela para Bauru, e não apenas longa, mas cara também. Tudo começou em 1993, no primeiro ano de mandato de Tidei de Lima, com o projeto que previa ainda outras intervenções viárias de impacto sobre o pátio ferroviário – que nunca saíram do papel. No meio de 1996, a obra parou por falta de verba. “Estávamos sem dinheiro, e priorizamos o pagamento de salários dos servidores e obras em saúde e educação, na parte social”, justifica o ex-prefeito Tidei de Lima. A dívida relativa à obra acabou federalizada em 1999, pelo então prefeito Nilson Costa, e está sendo paga mensalmente, até 2030. O valor da dívida federalizada bauruense, atualmente, gira na casa de R$ 40 milhões.

João Rosan

Rodrigo Agostinho assume que o viaduto não era prioridade: “Sempre focamos em outros pontos da infraestrutura”

Retomada

O viaduto só teve as obras reiniciadas em 2012. Já no primeiro mandato do prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB), a cidade conseguiu verba federal através do PAC, que, somada a contrapartida do município, totaliza R$ 5,9 milhões.

A licitação apontou a empreiteira Bema como vencedora, porém, por diversas vezes, a empresa paralisou a obra pedindo aditivos. “Foi um processo complicado realmente, eles ameaçaram parar várias vezes. Paralisação efetiva mesmo foram umas quatro nesse período”, lembra Sidnei Rodrigues.


No começo deste ano, a Secretaria Municipal de Obras assumiu de vez o serviço restante. A Bema concluiu a concretagem do último vão e a finalização da obra acabou à cargo da prefeitura, com a concretagem de trechos do guarda-rodas e do guarda-corpo, além de toda a pavimentação – esta última concluída na tarde de quarta-feira, 8 de abril. “Com o fim do

João Rosan

Secretário de Obras Sidnei Rodrigues: “Tanto a iluminação quanto o laudo a expectativa é que fiquem prontos em 45 dias”

serviço de pavimentação, não tem mais nada de estrutural a ser feito. Já é possível atravessar o viaduto de ponta a ponta, já com ele todo asfaltado, e sem mais nada para concretar também. Agora tem estes outros ‘detalhes’ (iluminação e laudo) para liberar ao público”, salienta o secretário.


Segunda alça?


O ex-prefeito Tidei de Lima defende que a segunda alça seja construída também – apenas a fundação de algumas colunas foram feitas, no começo do mandado de Izzo Filho, em 1997. “Fico contente que o viaduto, em breve, finalmente servirá à população. No meu mandato conseguimos fazer 86%, e agora estão concluindo os outros 14%. Ele funcionará bem com mão dupla, mas, se possível, a prefeitura pode buscar recursos no Estado ou União para viabilizar a segunda alça”, pontua. “Na época, seguimos o Plano Diretor existente, que planejava a ligação Norte-Sul da cidade, que existe agora com a Nações Unidas concluída, em seus setores Norte e Sul, e Leste-Oeste, que tem na avenida Nuno de Assis um eixo importante. A avenida ganhará importância com mais tráfego após o viaduto ser concluído”, conclui Tidei.


O atual prefeito Rodrigo Agostinho assume que o viaduto não era uma prioridade. “Sempre focamos em outros pontos da infraestrutura da cidade, como a pavimentação e galerias. Surgiu a oportunidade de concluir a primeira alça, com verba do PAC, e entendemos que seria importante terminar esta obra, que se arrasta há tanto tempo e pode ajudar a desafogar o trânsito do Centro”, resume Rodrigo.


O pouco que falta


Sem mais nada a ser feito na estrutura do viaduto, a prefeitura espera agora a instalação da iluminação, que será feita por uma empresa terceirizada, a RT Energia e Serviços, no valor total de R$ 805 mil. “A iluminação não pode sair da verba federal, o que é uma pena, pois o valor total era de pouco mais de R$ 5,9 milhões, e com algumas economias que fizemos ao longo da obra, temos um saldo. Até agora, gastamos R$ 5,3 milhões”, explica o titular de Obras, Sidnei Rodrigues. Toda a iluminação será com lâmpadas LED.


Deste saldo restante, aproximadamente R$ 150 mil serão usados em laudo estrutural que foi exigido pelo Ministério Público Estadual (MPE) para liberar o tráfego no local. “Tanto a iluminação quanto o laudo, a expectativa é que fiquem prontos em 45 dias. Por isso, este prazo do final de maio para liberação ao trânsito, se não houver nenhuma intercorrência neste período”, frisa. Ieme Brasil Engenharia Consultiva Ltda. e a L.A. Falcão Bauer Ltda. disputam a licitação para executar o laudo.


O valor que ainda sobrar do repasse da União será usado em outras melhorias. “Aí vamos ver o que pode ser feito. Tem que ser utilizado dentro da obra. Uma das ideias é adquirir um tipo especial de borracha para colocar nos vãos de dilatação, é uma tecnologia nova, e aumenta o conforto de quem usar o viaduto”, comenta Sidnei.


A sinalização de solo será executada pela Emdurb em breve, com a pintura de faixa separando as duas pistas – o viaduto terá mão dupla – e a instalação de placas. Há ainda estudo para a implantação de um semáforo ao final do aterro, na confluência com a Praça Espanha (que será reformada e entregue junto com a inauguração do viaduto), e outro semáforo pode ser colocado na cabeceira oposta, para disciplinar o trânsito junto à avenida Nuno de Assis, que terá mão dupla até o cruzamento com a rua Inconfidência, para permitir o acesso de quem vem no sentido Mary Dota-Falcão.


Aterro

Aceituno Jr.

Fissura existente no aterro, perto da cabeceira no lado que sai na Vila Falcão

A fissura existente no aterro, perto da cabeceira no lado que sai na Vila Falcão, está sendo corrigida por funcionários da Stemag Engenharia (responsável pela instalação dos interceptores de esgoto, que foi o motivo causador das rachaduras), o DAE e a Secretaria de Obras. A previsão é que o serviço termine até a próxima sexta-feira.

E qual o impacto real no trânsito?


Viaduto ainda é questionado quanto à sua eficácia em melhorar o trânsito do Centro e de avenidas como Rodrigues Alves e Duque de Caxias

Próximo de estar liberado ao tráfego de veículos, o viaduto Falcão-Bela Vista (que certamente ainda ganhará um nome oficial) ainda é muito questionado quanto à sua eficácia em melhorar o trânsito do Centro e de avenidas como Rodrigues Alves e Duque de Caxias, ajudando a criar um novo eixo Leste-Oeste na Nuno de Assis.


Em matéria publicada no dia 1 de fevereiro deste ano no JC, o engenheiro de planejamento e sinalização do sistema viário da Emdurb, Aníbal Ramalho, citou que o elevado deve comportar uma média de 300 veículos por hora, sendo 150 em cada sentido.


Na confluência com a Praça Espanha, onde recebe veículos oriundos do viaduto Mauá e da avenida Pedro de Toledo, o tráfego atual já é de 900 veículos por hora em horários de pico, o que fatalmente exigirá um semáforo na entrada do novo viaduto. A implantação de mão dupla em trecho expressivo da Nuno de Assis, entre a cabeceira do viaduto e a rua Inconfidência (em frente à Praça Paradesportiva), também gerava preocupação no de Ramalho.


Quanto ao impacto nas vias atuais do município, a avaliação prévia é que haja uma redução no fluxo da avenida Rodrigues Alves e de ruas como Presidente Kennedy, Primeiro de Agosto, Cussy Júnior e Sete de Setembro, com aumento no volume de veículos na Nuno de Assis.

Relato: uma outra visão

Alex Mita

São mais de 700 metros do elevado. É uma visão diferente da cidade, disse o repórter Thiago Navarro

No final da tarde de quarta-feira, percorri os mais de 700 metros do elevado, junto com o repórter fotográfico Alex Mita. Talvez tenhamos sido os primeiros a passar por lá – depois dos funcionários da Secretaria de Obras, naturalmente - após a estrutura estar completamente pronta (concreto e asfalto).


É uma visão diferente da cidade. Não pelo aspecto físico em si, mas pela “aura” que o viaduto carrega. Sou de uma geração que cresceu com o “monstrengo” parado, deixando mais feio o Centro. Do meu bairro (Bela Vista), podia ver o elevado de vários lugares, com suas partes incompletas, e sem ideia de quando aquilo terminaria realemente. Agora, após tanto tempo, falta pouco, questão de semanas para que o trânsito seja liberado. Esperamos.


Atravessar o viaduto de ponta a ponta tem o simbolismo de saber que um fardo para Bauru está acabando – apesar de sua dívida lá dos anos 90 durar até 2030. É também uma lição às obras futuras, para que comecem com mais planejamento, e terminem no prazo previsto, e sem endividar o município. A lamentar, as inúmeras pichações que já existem no elevado.


Em tempo: quem vier no sentido Bela Vista-Falcão terá como destaque na paisagem outro símbolo de Bauru, a Igreja Tenrikyo, verdadeiro cartão-postal, com sua cobertura imponente, e a Vila Independência ao fundo.

Thiago Navarro, repórter do JC

O maior viaduto


Com 760 metros de extensão, ele é agora o mais longo em Bauru. O elevado tão esperado pelos bauruenses deve comportar uma média de 300 veículos por hora, sendo 150 em cada sentido.

Marivaldo Fly

Vista de alto do viaduto, que está prestes a ser inaugurado, após gerar dívida milionária e abalar três governos municipais