10 de julho de 2026
Geral

'Fora, Dilma' ganha força na segunda manifestação

Vinicius Lousada
| Tempo de leitura: 7 min

Alex Mita

Manifestantes se concentram em frente ao Prédio da Polícia Federal

Quatro semanas após o primeiro ato anticorrupção, que levou 12 mil pessoas à Getúlio Vargas, em Bauru, outro protesto tomou a avenida na manhã desse domingo (12). A organização estimou a presença de 9 mil pessoas. A Polícia Militar (PM), por sua vez, informou que 7 mil foram às ruas neste domingo. Apesar da redução numérica, líderes do movimento comemoraram o fortalecimento da bandeira que pede a renúncia ou o impeachment da presidente da República, Dilma Rousseff (PT). O mesmo ocorreu ao redor do País.


O universitário Vinícius Bessa, 26 anos, lembra que, na manifestação anterior, os grupos articuladores divergiam sobre o “Fora, Dilma”. “Agora, todos estão unidos em torno desse ideal. Saíram novas pesquisas mostrando que 63% da população é a favor da saída dela, que conta só com 13% de aprovação”, reforça.


Outro organizador do movimento, Gabriel Machado, 23 anos, acredita que um número ainda maior de pessoal só não externa esse mesmo desejo com receio do que chamou de intolerância por parte de grupos pró-governo. “Essas pessoas têm agido de forma antidemocrática, pois não conseguem respeitar posições contrárias”, pontua.


No caminhão de som que conduziu a passeata da sede da Polícia Federal até a Praça Portugal, painel eletrônico pedia: “Fora, Dilma. E leve o PT junto”.


Fixadas ao trio elétrico, outras faixas estampavam os dizeres: “Dilma Pinóchia”, e “Impeachment! Dilma sabia” (fazendo alusão aos escândalos de corrupção da Petrobras). O ex-presidente Lula também foi alvo de um cartaz: “Sua hora vai chegar já já na Lava Jato”.


Aos microfones utilizados para ampliar a voz do protesto, Rousseff foi chamada de “assassina”, em referência ao engajamento na luta armada da petista durante o regime militar.


REDUÇÃO


Em entrevista concedida ao Jornal da Cidade na semana passada, os organizadores declararam que esperavam, para o segundo protesto, até aumento de público em relação aos 12 mil manifestantes do dia 15 de março, em Bauru.


Nesse domingo, Paulo Eduardo Ladeira, 40 anos, admitiu que os grupos articuladores conheciam os riscos de redução do número de pessoas no ato. “A queda poderia ter sido bem maior. Foi um sucesso”, comemorou. Rodolfo Peres, 20 anos, observou, no entanto, que, nesse domingo, houve ganho qualitativo do movimento.


Segundo ele, os participantes estavam mais conscientes sobre as pautas de reivindicação e prepararam mais cartazes. Bessa lembrar ainda que, dessa vez, o número de municípios que aderiu aos protestos aumentou de 200 para 450. “Sem contar os que estão promovendo atos de forma independente. Sabemos de Jaú, Itapuí e Lençóis Paulista”, concluiu.


Sem ocorrências


O ato desse domingo (12) foi pacífico e, segundo a Polícia Militar, não houve incidentes registrados. Foi grande o efetivo de homens e mulheres da corporação para garantir segurança ao evento. Os manifestantes, inclusive, saudaram de forma entusiasmada o helicóptero Águia, que sobrevoou a Getúlio Vargas durante alguns minutos durante a passeata.


O Hino Nacional foi executado duas vezes, na concentração e instantes antes da dispersão. Ao final do ato, a organização também puxou a oração do Pai-Nosso. Ainda não há previsão para a realização de um novo protesto em Bauru. Os grupos articuladores avisam, contudo, que seguirão as agendas programadas em instância nacional.


Tobias: a presidente ‘terceirizou’ governo

Samantha Ciuffa

Deputado enxerga uma “chama acesa” na população

Ausente do protesto de 15 de março, em função da posse para seu quinto mandato na Assembleia Legislativo, o deputado estadual Pedro Tobias (PSDB) foi às ruas nesse domingo (12). O tucano lembra que, inicialmente, tinha restrições à pauta que pede o impeachment de Dilma Rousseff (PT).


“Mas, agora, a gente vê 70% de rejeição a ela. Se não bastasse, ela ‘terceirizou’ o governo para o [vice-presidente da República] Michel Temer, que se encarregou de conduzir a articulação política. O mais nobre seria que ela pedisse para sair, pois não tem mais controle”, afirmou.


O parlamentar observou, porém, que o principal ponto positivo das ondas de protestos em todo o País é a constatação de que a “chama da indignação” está acesa na sociedade.


“O povo perdeu o medo e percebeu que, se não fizer o que é necessário por conta própria, ninguém vai fazer por ele”, finalizou Tobias.

Na pauta: escândalos, crise e impostos


Jornal da Cidade conversa com manifestantes para entender o que levou os bauruenses a voltarem às ruas na manhã desse domingo


Vestimentas com as cores da bandeira brasileira, apitos e vuvuzelas foram os principais instrumentos dos manifestantes que protestaram contra o governo Dilma Rousseff (PT) nesse domingo, em Bauru. Famílias, idosos, jovens e crianças estiveram no ato e expuseram as motivações de sua indignação.

Técnico em eletrônica, Hermes José Ferreira de Almeida, 41 anos, fez questão de explicar para a filha Lara Abigail Offerne de Almeida, de apenas 4, as razões pelas quais ambos foram às ruas.


“Ela tem que vir e saber o que está acontecendo. O futuro dela depende disso. A corrupção e os desmandos me preocupam muito. Os países que caíram na onda do Foro de São Paulo [organização que reúne partidos e grupos de esquerda da América Latina] estão definhando. O que está acontecendo na nossa vizinhança não é comunismo nem socialismo. Isso não passa de populismo corrupto”, reclama.


A própria organização do protesto, por meio do carro de som, sugeriu que a presidente Dilma deveria se mudar para a Cuba. Alguns cartazes também reproduziam frases com tópicos semelhantes.


Aos 68 anos, a aposentada Márcia Sampaio fez questão de participar, pela segunda vez, do movimento antigoverno. Também preocupada com os escândalos de corrupção, ela garante que participará de todos os atos que forem organizados na cidade. “É inaceitável que os nossos impostos financiem a roubalheira em vez de serem revertidos à população, que está abandonada”.


DESCONTENTAMENTO


O casal Elaine de Paula, 47 anos, e Ivan Goffi, 46 anos, externou o descontentamento com as respostas do governo Dilma para os movimentos do último 15 de março.

“Eles apresentaram um pacote anticorrupção. Quando houve o Mensalão, o PT fez a mesma coisa e, daí, surgiu o Petrolão. O que será que vem agora? Eles debocham de coisas sérias”, reclamou o advogado Goffi.


REFORMA POLÍTICA


Durante o protesto, também foi apontada a necessidade de uma reforma política para o País. Um dos organizadores, Gabriel Machado deixou claro, porém, que o movimento espera que as mudanças ocorram somente após a saída do PT do poder.


Nesse sentido, o administrador de empresas Diogo Brandão, 28 anos, criticou a postura do partido da presidente, que tem cobrado agilidade na tramitação do processo que corre no Supremo Tribunal Federal (STF) e tem como objetivo proibir as doações de empresas privadas a campanhas eleitorais. O caso está há um ano para vistas do ministro Gilmar Mendes. Segundo o manifestante, há uma tentativa de “tirar o foco” do impacto real. “Eu também sou contra a esse tipo de financiamento. Mas eles falam tanto disso para tirar do foco a proposta que vem junto, sobre o voto em lista. Isso é um absurdo, pois privaria que a população escolhesse seus representantes no Congresso para votar exclusivamente em partidos”, pontua.


CARGA TRIBUTÁRIA


Empresário, Fred Oliveira, 56 anos, decidiu protestar contra a alta carga tributária do Brasil. Segundo ele, tantos impostos emperram a economia e prejudicam as relações de trabalho atuais. “A gente quer pagar salários melhores para os funcionários, mas não consegue porque os tributos que incidem sobre essa remuneração são inviáveis”, reclama.


Fora do tom


Poucos cartazes pediam intervenção militar no ato. O gerente administrativo Alcidinei Souza, 54 anos, empenhava um deles. “Não queremos que as Forças Armadas tomem conta e governem. A ideia é garantir a moralização do País e promover a troca dos políticos atuais por outros novos, que não carreguem os mesmos vícios”. Durante o ato, no entanto, organizadores repetiram, algumas vezes, que essa pauta não está inclusa na lista de reivindicações do movimento, que tem caráter democrático.


‘Estreia’ nas ruas


Amanda Donato, 22 anos, e Aline Segura, 26, participaram, pela primeira vez, dos atos contra o governo federal. Elas contam que quiseram ir às ruas no dia 15 de março, mas ficaram receosas de que ocorressem brigas e tumultos.

“Como não aconteceram problemas naquela ocasião, nós decidimos vir. Temos uma loja no ramo de iluminação, móveis e decoração. E a situação está muito difícil. Além dos juros e do dólar, os preços em geral estão lá em cima. A inflação, descontrolada. E o roubo, desenfreado”, justifica.

Samantha Ciuffa

Manifestantes levaram bandeiras do Brasil e vestiram as cores do País para protestar: por duas vezes, executaram o hino nacional; PM afirma que a manifestação foi totalmente pacífica

Segundo a Polícia Militar essa manifestação contra o governo Dilma em Bauru reuniu cerca de 7 mil pessoas