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Quioshi Goto |
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Pode acreditar: esta é a ‘sala de espera’ do posto de saúde |
Imagine ir a um consultório e, na sala de espera, se deparar com lixo no chão: copos, folhas e até resíduos utilizados na troca de fraldas de bebês. Parece absurda, mas é a realidade encarada por pacientes do núcleo básico do Nova Esperança e é apenas um exemplo da seguinte constatação: a parte Noroeste de Bauru – que tem o maior adensamento de moradores do município – está “esquecida” pela Saúde. Na região, não há atendimento de urgência e emergência. A Unidade de Pronto Atendimento (UPA) mais próxima fica a quase 4 quilômetros (leia mais abaixo) e os moradores vivem na expectativa de melhorias com a promessa da construção de um novo posto de saúde.
Em bairros como o Santa Cândida, Val de Palmas, Edson Silva, Vila Industrial, Vila Real, Nova Esperança, Vila Industrial, Jardim Andorfato, Eldorado, Prudência, Fortunato Rocha Lima, Jaraguá, Santa Edwirges e Vânia Maria moram cerca de 80 mil pessoas, segundo a Defesa Civil; o que corresponde a mais de 20% da população da cidade.
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Na região, existem dois núcleos de Saúde da Família: um no Jaraguá e outro no Santa Edwirges. O único núcleo de Saúde, no entanto, é o do Nova Esperança. Em reportagens anteriores, o secretário Fernando Monti reconheceu a estrutura inadequada do local.
Para sanar o problema, a administração municipal aposta na construção de um novo posto de saúde no bairro, com recursos do Minha Casa Minha Vida, destinados para a construção de equipamentos públicos. A obra, porém, ainda está sequer licitada.
ABANDONO
Enquanto o núcleo novo não vem, na tarde dessa terça-feira (14), o posto do Nova Esperança parecia abandonado. Como o fluxo de usuários se concentra no período da manhã, os poucos pacientes que estavam por lá não conseguiam esconder sua indignação.
Assim como o atendimento, a limpeza da unidade deixa muito a desejar. A sala de espera “oficial” não comporta muita gente. Dessa forma, no lado externo, outra pequena área coberta foi improvisada, com alguns bancos de madeira.
Além de poças da água, havia grande volume de lixo espalhado pelo ambiente, prontamente recolhido após a chegada da reportagem do JC.
“É um absurdo. Se vem uma criança doente, sai pior. Quase sempre, faltam produtos como copos e até papel higiênico. Desse jeito, era melhor fechar”, critica a dona de casa Lurdes Juliana Alves, de 22 anos.
DEMORA
A falta de médicos é outro problema crônico do posto de saúde. Lurdes conta que já tentou marcar consultas por quatro oportunidades. Em todas, no entanto, funcionários entraram em contato, desmarcando. “E, quando tem médico, é uma demora absurda. Isso aqui de manhã é uma loucura”, diz.
De acordo com a usuária, a situação se complicou ainda mais após a chegada de mais de 1.400 famílias à região, por conta da entrega de três condomínios residenciais construídos pelo Minha Casa Minha Vida. “Já era difícil, mas, agora, a demanda por atendimentos aumentou de forma considerável”, observa Lurdes.
Fala, prefeito!
A reportagem não conseguiu contatar o secretário de Saúde, Fernando Monti, para questioná-lo sobre os problemas do posto de Saúde do Nova Esperança. O prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB), por sua vez, reconheceu as deficiências na região.
Ele afirma que, apesar da necessidade de construção de um novo núcleo no bairro, nada justifica a sujeira e atribui o problema à chefia da unidade e o setor responsável pelos postos de atenção básica.
O peemedebista alega ainda, que, desde o início de seu governo, promoveu mais de 50 concursos públicos para contratar médicos e mais um está em andamento. “Apesar disso, temos uma déficit muito grande de profissionais pediatras e ginecologistas/obstetras. Não é um problema generalizado, mas não é só o núcleo do Nova Esperança que sofre com isso”.
Sobre a inexistência de uma unidade de urgência e emergência na região Noroeste, Rodrigo lembra que, em seu primeiro programa de governo, propunha a construção de cinco UPAs para contemplá-la.
“Mas o Ministério da Saúde fixa o número de uma unidade para cada 100 mil habitantes. Portanto, conseguimos só quatro [Bela Vista, Mary Dota, Ipiranga e Geisel/Redentor]. Caso contrário, teríamos que fazer com recursos próprios da prefeitura”, finaliza.
Sem UPA!
Como, em toda a cidade, a rede de atenção básica em Saúde não atende a demanda, as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) são a válvula de escape. Para agravar ainda mais o quadro, no entanto, a região Noroeste não dispõe de um núcleo para serviços de urgência e emergência.
A maior parte dos moradores desses bairros, portanto, recorrem à UPA Bela Vista, que fica a quase 4 quilômetros do Nova Esperança e ainda mais longe de comunidades no extremo Oeste do município, como o Santa Cândida.
Usuários do núcleo de Saúde reclamam ainda da interrupção de distribuição de medicamentos no local.
9 meses e só metade do pré-natal
Na próxima semana, Priscila Teodoro Monteiro deve dar à luz a um menino. Ontem, no entanto, ela foi advertida de que terá que prestar esclarecimentos pelo fato de ter passado por apenas três consultas em seu pré-natal; metade do preconizado pela Maternidade Santa Isabel.
“Me informaram que vou ter que explicar o que aconteceu ao Conselho Tutelar. Fiquei bem assustada porque tentei vir às seis consultas, mas não consegui porque o posto aqui do Nova Esperança sempre desmarcava por falta de médicos”, diz ela, que mostra seu Cartão da Gestante com várias datas apagadas.
Para aumentar a indignação, nessa terça-feira (14), Priscila foi vítima de paralisa facial e, no posto de saúde do bairro, não conseguiu sequer aferir a pressão.
DESESPERO
O apicultor Cirço Domes de Araújo, 53 anos, também está revoltado. Para não se submeter ao longo tempo de espera na rede secundária de saúde, recorreu a laboratórios particulares para a exames que lhe diagnosticaram uma hérnia, abaixo do intestino.
Há alguns dias, ele tenta, no posto do Nova Esperança, o encaminhamento para uma cirurgia. “Nem isso eu consigo. A atendente me falou para voltar no fim do mês. Perguntei o que aconteceria se eu morresse e a atendente me respondeu: o senhor será enterrado”, relata.