09 de julho de 2026
Articulistas

Inflação elevada: o perigo da indexação

Reinaldo Cafeo
| Tempo de leitura: 4 min

Já abordei este tema em outra oportunidade, mas considerando a inflação acumulada no primeiro trimestre e as perspectivas futuras no tocante aos reajustes de preços na economia brasileira, e que a inflação projetada está na casa dos 8,13%, a indexação pode voltar forte. Esta estimativa foi divulgada no boletim Focus, que é semanal, e elaborado a partir de sondagem efetuado pelo Banco Central brasileiro junto a economistas que operam no mercado. Esta projeção é um pouco menor do que a da semana passada que apontava para 8,20%.

O entendimento do mercado é que com queda no nível da atividade econômica que o país vem enfrentando o espaço para elevar preços fica reduzido. Mesmo com esta leitura, a inflação está muito acima do desejável. Lembrando que o próprio governo trabalha com meta de 4,5% com tolerância de dois pontos percentuais, podendo, no limite, atingir 6,5% ao ano.

Certa vez ouvi a seguinte frase: "pequena inflação é como pequena gravidez". No caso brasileiro a perspectiva do pequeno virar grande é potencializada considerando o fenômeno da indexação (utilizar algum índice de correção do passado aplicando nos preços presentes e futuros) de preços na economia. Fruto do período de elevada inflação, o país não se livrou da indexação automática de preços. Na verdade, alterou a periodicidade de alguns preços administrados para um ano e não mais mensalmente. Mesmo assim a pressão não é sentida quando a inflação fica comportada, o que não é o caso atual.

Analisando os preços pesquisados pelo IBGE para apurar o índice oficial de inflação, sendo alguns regionalizados, constata-se que somente 40% deles são considerados preços livres, ou seja, seguem basicamente a lei da oferta e procura. Cerca de 30% dos preços são denominados de comercializáveis, isso quer dizer que possuem preços internacionais, na maioria das vezes seguindo de alguma maneira a variação do dólar. Portanto, sofrem o efeito da variação da moeda norte-americana, esta pode ser afetada pelo comportamento internacional, que no momento presente é de fortalecimento do dólar frente às demais moedas, ou ainda pelas incertezas internas, que são verdadeiras na economia nacional. Desta maneira, ao menos parte dos 30% dos preços pesquisados poderão sofrer pressão por reajuste.

Outros 30% são os preços denominados de administrados. Tarifas que não são mais públicas, mas que possuem contratos anuais de reajustes. Outros preços como aluguéis também são administrados. Os preços dos remédios são administrados, entre outros exemplos. Quando a inflação passada não gera impacto significativo na inflação futura? Quando a inflação passada é baixa. Mesmo indexando, a projeção fica dentro de um patamar aceitável. A pergunta que não quer calar: como assegurar que os preços futuros ficarão comportados se a projeção da inflação para 2015 está acima de 8%? Se nada for feito, entraremos em 2016 já com a inflação praticamente no centro da meta, o que é preocupante.

Um remédio utilizado com freqüência e já insinuado pelo ministro da Fazenda Joaquim Levy é utilizar a taxa de juros para segurar os preços. Os chamados bens financiáveis teriam seus preços rebaixados por falta de vendas e com isso compensariam a elevação no preço de outros itens pesquisados pelo IBGE. Na média, a inflação poderia cair. A outra pergunta que não quer calar: elevar juros neste momento não levaria ainda mais a economia brasileira para recessão?

A resposta é sim, levaria. As projeções para crescimento no país não são animadoras. O mercado projeta queda de 1,5%. O Fundo Monetário Internacional (FMI) refez as contas de um crescimento de 0,3% e derrubou a perspectiva para queda de 1%. Fica o dilema: qual o bem maior? Controlar a inflação a qualquer custo, inclusive reduzindo ainda mais as vendas na ponta, agravando o desemprego e debilitando ainda mais as empresas, ou priorizar o crescimento, mesmo convivendo com inflação elevada?

A decisão não é fácil e não há respostas convergentes. O certo é que o problema existe, o ajuste fiscal em negociação, uma vez implementado (com mudanças, inclusive) poderá aliviar a necessidade de ações mais fortes, com impactos não desejáveis na economia como um todo, enquanto isso o monitoramente da economia será cirúrgico. Evidentemente que esta visão é de curto prazo. Os instrumentos de política monetária devem ser utilizados nesta perspectiva.

No longo prazo é preciso de um choque de oferta, contribuindo para equilibrar o mercado. Ampliar oferta implica em sobras de recursos para investimentos, e tais sobras não existem nem no setor público e tampouco no setor privado (margens de lucro sumiram, com elas sobras para investimentos também), mas são em perspectiva a única forma de a economia brasileira sair do ciclo vicioso atual.

A leitura é se efetivamente queremos evitar que a indexação de preços remeta para 2016 parte da inflação deste ano algo no sentido de conter a escalada de preços deve ser feita. Analisar os menores custos sociais é o papel dos técnicos do governo. É isso que se espera.

O autor é economista e articulista do JC