Sirvo-me do JC para comunicar aos colegas uma notícia bastante doída e que, acredito, não irá causar menos consternação naqueles que participam de nosso círculo de amizade. Só não tomei essa atitude antes por conta do abatimento e surpresa causados pelo acontecimento.
É quase uma obrigação informar, com muito pesar e dor, principalmente aos amigos ligados à educação, que acabamos de perder, há pouco mais de um mês, a professora doutora em Língua e Literatura Francesa pela USP, Maria Terezinha dos Santos, ex-docente de várias escolas da região como Instituto Ernesto Monte, Colégio São José e USC de Bauru, Escola Estadual João Batista Ribeiro de Agudos e também das faculdades de Adamantina e Lins. Quando se aposentou, exercia, há vários anos, o cargo de assistente doutora da UNESP, campus de Assis. Em todos os lugares pelos quais passou deixou marcas de competência, simpatia e dignidade, traços de seu caráter e distintivos de sua personalidade. Inteligente, politizada, culta, elegante, era bastante prazeroso desfrutar de seu convívio.
Sou alguém suspeita para dizer das qualidades da querida professora que, para mim, era muito mais que uma amiga. Embora não tivéssemos os mesmos laços de sangue, considerávamo-nos irmãs, tal era amizade e o apreço mútuo que sempre coroaram nossa relação. Para mim, portanto, é muito difícil a missão de transmitir notícia tão amarga. Sabemos que não há vida sem risco, mas, como dizia Alain, o universo nada nos prometeu. Comte-Sponville conta que um monge caminhava preocupado na floresta porque ficou sabendo que seu sábio mestre morrera assassinado a pauladas. Não há necessidade de ser sábio para compreender que é preciso morrer e que a causa não importa. Mas, o monge estava perturbado porque alguém lhe dissera que, durante o sofrimento, o mestre gritara atrozmente. Como um sábio podia gritar por conta do sofrimento que lhe impingiam? Para que serviria, então, a sabedoria?
Absorto nessa meditação, o monge não viu um grupo de salteadores que se aproximava e lhe partiam os ossos. E o monge também gritou atrozmente. E, ao gritar, conheceu a iluminação. Que lição tiramos de tudo isso? Entre tantas, esta: a dor faz parte do real, faz parte da sabedoria. E ambas fazem parte da salvação. Nossa amiga Terezinha nunca ignorou os laços que unem a dor à realidade e soube viver a vida com humildade. Sempre me fazia lembrar, norteada pelos seus salutares princípios, que viver é aceitar a realidade sem a maquilar.
Bela frase de Mallarmé: "Ce peu profond ruisseau calomnié, la mort..." ("Esse riacho pouco profundo, a morte..."). Fizeram da morte um oceano, deram-lhe uma dimensão que ela não tem. Mas é uma passagem e bem estreita. É inevitável, entretanto, para quem deseja a ressurreição.
Minha amiga partiu, aceitando a verdade e, sobretudo, deixando lembranças, lições de espiritualidade, sabedoria e, acima de tudo, de resignação. Sempre soube ver o lado bom da vida, sem se esquecer de lustrar a alma com compaixão e solidariedade. Era um exemplar ser humano. Amou seus alunos como poucos mestres sabem fazê-lo e, em contrapartida, foi amada por eles. Nunca a vi deixar um pobre passar, sem abrir generosamente sua carteira. Nunca a vi sonegar uma palavra de carinho para quem precisasse de consolo. Agora, calamos, porque como dizia Sóror Juana, "calamos, não porque não tenhamos o que dizer, mas porque não sabemos como dizer tudo aquilo que gostaríamos de dizer". Quando o inexprimível tem de ser exprimido sempre haverá o silêncio ao qual recorrer. Porque sempre, em qualquer lugar, o resto é silêncio.
Maria da Glória De Rosa - professora aposentada da Unesp de Marília