O dia foi criado em 1943, no governo de Getulio Vargas. A data é alusiva ao I Congresso Indigenista Interamericano, no México, em 1940. Já naquela época, a questão indígena era uma preocupação. A data sugere profunda reflexão sobre a realidade do povo da terra. Em todo o continente americano, o assentamento humano remonta há milhares de anos. O homem primitivo chegou à América, após a quarta glaciação, através de onde hoje é o estreito de Bering. Há forte evidências através de estudos em sítios arqueológicos que havia, há 50 mil anos, entre o nordeste da Ásia e o Alaska uma ponte terrestre que foi usada pela corrente migratória.
No Piauí foi encontrada cerâmica da arte marajoara e tapajó que remontam 8 mil anos. Quando os colonizadores chegaram, encontraram o território ocupado, "as terras tinham donos". A invasão do continente americano foi arbitrária, cruel e desumana.
Em 1519, os espanhóis desembarcaram no México. Em menos de 30 anos, a conquista espanhola estava concluída. No norte do Continente, a conquista foi feita com barbárie, apropriação de terras e dizimação indígena. A conquista do oeste e a caça e a morte de bisões foram facilitadas pela expansão da ferrovia. No Brasil, os portugueses foram paulatinamente estabelecendo-se nas terras até então ocupadas. O processo de colonização levou à extinção muitas sociedades indígenas, seja pela ação das armas ou em decorrência do contágio por doenças trazidas pelo homem branco.
Com a conquista houve grande catástrofe demográfica, verdadeiro genocídio, nenhum dos grandes episódios de massacres do século XX pode comparar com esta hecatombe. Os indígenas foram os primeiros humanizadores da América, se distinguem, e são distinguidos como participantes do processo da construção social, cultural e ecológica. A colonização portuguesa compreendeu 4 fases. A litorânea, os primeiros contatos; a bandeirista, conhecida como a caça ao índio, tendo os bandeirantes papel destacado na dizimação das populações indígenas, a sertaneja, com a escravização nas pastagens de gado e com os engenhos de açúcar.
E a ultima fase, a amazônica, com ocupação missionária e militar. No Brasil, os jesuítas tiveram papel destacado na defesa dos povos. Assumiram posição firme e se dispuseram a fazer cumprir a bula do papa Urbano VIII, que excomungava quem aprisionassem os indígenas.
Os conflitos foram tantos que grande parte dos jesuítas foram expulsos do País e os que ficaram foram obrigados a não interferir. Após tantos séculos, a invasão não acabou. Continua por meio da ideologia de dominação que tenta enganosamente negar o direito a apropriar de seus territórios. Negar o direto à demarcação, à não aculturação e negar que haja invasão de suas terras. Enfim, o termo índio não pode existir. Foi um erro histórico cometido por Colombo e outros navegantes, quando há 500 anos acreditavam que estavam chegando às Índias. Melhor seria chamar de indígena ou de preferência pelo nome do grupo ou nação.
A expressão índio brasileiro é um conceito colonialista que precisa ser banido. De uma só vez destruímos nome, cultura, história e passado, da mesma forma como se fez com populações de origens africanas que se tornaram simplesmente negros.
A resistência dos povos indígenas mundial está estampada no lindo poema da declaração solene dos povos indígenas do mundo. "Quando a terra-mãe era o nosso alimento, quando a noite escura formava o nosso teto, quando o céu e a lua eram nossos pais, quando todos éramos irmãos e irmãs, quando nossos caciques e anciãos eram grandes líderes; quando a justiça dirigia a lei e sua execução: aí outras civilizações chegaram. Com fome de sangue, ouro e terra e de todas as riquezas, trazendo numa mão a cruz e na outra a espada, sem conhecer ou querer aprender os costumes de nossos povos nos classificaram abaixo dos animais. Roubaram nossas terras e nos levaram para longe delas, transformando em escravos ?Os filhos do Sol?. Entretanto, não puderam nos eliminar, nem fazer esquecer o que somos, porque somos de uma ascendência milenar e somos milhões. Mesmo que nosso universo inteiro seja destruído, nós viveremos, por mais tempo que o império da morte." (Alberni 1975)
Antonio C. de Oliveira