09 de julho de 2026
Articulistas

Brasil, para principiantes

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Na política, assim como na vida, sempre há situações auto-explicáveis. Há também o seu inverso: as auto-inexplicáveis. O curioso é que ambas dispensam explicações. Às vezes por desnecessário; outras, por impossível.
Os exemplos remontam ao início do país, talvez o único cuja independência foi proclamada pelo próprio dominador, herdeiro da dinastia governante, que após nove anos no poder, abdicou e voltou a Portugal para governá-lo. Exemplo de esquizofrenia política, que Freud não teve a oportunidade conhecer ? e tratar.
Na República, os exemplos são ainda mais abundantes. Marechal Deodoro da Fonseca era monarquista, mas decidiu aderir ao golpe porque D. Pedro II nomeou para o conselho de ministros o seu desafeto Silveira Martins. Dizem que "amavam la misma mujer". Tivemos um presidente da República, Delfim Moreira (1918-1919), que enlouqueceu no cargo.
A grande e decisiva batalha da Revolução de 1930 foi a que não produziu um único tiro ? a de Itararé, muito apropriadamente chamada de "a batalha que não houve". Na era Vargas, o secretário do Partido Comunista, Luiz Carlos Prestes, foi preso e submetido a tratamento tão abjeto que seu advogado, Sobral Pinto, recorreu à lei de proteção aos animais para defendê-lo. Sua mulher, Olga, foi entregue aos nazistas e morreu em um campo de concentração para judeus. Não obstante, ao sair da cadeia em 1945, Prestes subiu ao palanque de quem o prendera, não para denunciá-lo, mas para, inversamente, pedir sua permanência no poder.
Mas, é na Era do PT que os exemplos se multiplicam e se tornam rotineiros. Na semana finda, o ex-presidente Lula disse que "o PT precisa parar de errar". O principal equívoco seria não saber vender a ideia de que o partido foi vítima, e não beneficiário da corrupção. Afinal, mensalão, operação lava jato, zelotes e todas as outras, ocorreram porque no governo do PT as denúncias são investigadas. De fato, o Partido dos Trabalhadores fica longe, em eficiência, dos seus ex-dirigentes e ex-chefes da Casa Civil, considerados os melhores e mais bem pagos profissionais do mundo no ramo de consultoria de gestão de negócios. José Dirceu, demitido em 2005 por envolvimento no mensalão, ganhou R$ 39 milhões em três anos, sem gastar uma folha de papel nos seus aconselhamentos estratégicos a grandes empreiteiras, hoje às voltas com os escândalos da Petrobras. Antonio Palocci, demitido do posto de ministro-chefe por suspeita de enriquecimento ilícito, contabilizou R$ 20 milhões depois que deixou o governo. Erenice Guerra, substituta de Dilma Rousseff na Casa Civil, abriu um escritório de advocacia e amealhou R$10 milhões, somente em um contrato. Defendeu um cliente no Carf, espécie de tribunal administrativo que julga recursos sobre multas aplicadas pela Receita Federal. O Fábio Luiz, mesmo sem ter sido ministro, faturou mais de R$15 milhões em negócios com empresa de telefonia. Orgulho do papai ("meu garoto é o Pelé da computação"), Lulinha segue pactuando contratos milionários, mesmo com o pai fora do poder.
Há dois anos o Legislativo criou a figura inédita do deputado-presidiário. Um tal de Natal Donadon saía do presídio para as sessões da Câmara dos Deputados, desembarcava do camburão e aproveitava a circunstância para criticar da tribuna a qualidade da xepa (sic) da prisão. Antes dele, João Paulo Cunha e José Genoino, mesmo condenados em última instância pelo Supremo Tribunal Federal, mantiveram seus mandatos e ainda passaram a integrar a Comissão de Constituição... e Justiça.
O ministro do STF Dias Toffoli, é relator de uma ação que tem como réu o Banco Mercantil do Brasil. Detalhe irrelevante: ele é relator e ao mesmo tempo tomador de empréstimo de R$1,4 milhão no banco. Acaba de ser indicado pelo governo Dilma, para o preenchimento de vaga no STF, o advogado Luiz Edson Fachin , o mesmo que apareceu na propaganda eleitoral do PT, na televisão, como porta-voz de juristas que "tomaram lado" político na última eleição ?o da candidata Dilma Rousseff. Nada a ver ? defendem seus apoiadores ? o peso da instituição é mais forte que as ideologias e idiossincrasias de outra natureza. O fato de Fachin ter participado da Associação Brasileira de Reforma Agrária, ao lado do líder do MST Pedro Stédille, só o engrandece.
Tinha razão Tom Jobim, o nosso maestro soberano: definitivamente, "o Brasil não é para principiantes".

O autor é jornalista e articulista do JC