Não vamos falar do famoso rodeio de Uberaba, que completou 23 anos de sucesso. Não é desses peões que arriscam a vida com suas proezas, para proporcionar divertimento que vamos falar, mas dos inconsequentes, que depois de eleitos trazem preocupação, tristeza e sofrimento aos brasileiros por suas atitudes e atos irresponsáveis. Por comparação, imagine uma família com dificuldades financeiras, precisando cortar as suas despesas e passar necessidades, para não se endividar e cair na Serasa, e um de seus membros, para seguir a moda, comprar um smartfone por mil reais. Como se sentem os outros, tendo que fazer mais sacrifício, por conta do desatino do inconsequente? Não é outro o comportamento de deputados e senadores que, ignorando os cortes de despesas que afetam diretamente o povo, aprovam um aumento de R$ 289,5 milhões para R$ 867,5 milhões no Fundo Partidário, para os partidos alugarem sede de comitês, pagarem cabos eleitorais, imprimirem propaganda, pagarem viagens e outras coisas que em nada ajudam o povo. E sabe como aprovaram? Segundo declaração do senador Renan Calheiros, o aumento foi incluído na proposta orçamentária, pelo senador Romero Jucá, minutos antes de sua aprovação pelo plenário, mas com o apoio da maioria dos partidos.
O TSE tem 32 partidos registrados. Os grandes possuem grupos que se opõem internamente, como se fossem partidos dentro do partido. Os pequenos se agregam ou se juntam aos grandes. Na Câmara apenas 12 partidos têm bancada própria. Os outros formam dois grandes blocos partidários. Dos 32, somente 28 possuem representação na Câmara e no Senado apenas 15 estão representados. Juntos formam o Congresso Nacional, que neste ano custará R$ 1,4 milhão a mais por dia. Nos últimos quatro meses, o Congresso Nacional contou com o aumento de diversos benefícios para os parlamentares. Os salários subiram 26,6% e chegaram a R$ 33.763,00, mais os gastos com verba de gabinete, auxílio-moradia e cota de atividade parlamentar custarão, neste ano, R$ 9,3 bilhões, o equivalente a R$ 25,4 milhões por dia, ou pouco mais de R$ 1 milhão por hora. A maior parcela é para a Casa dos deputados, que contará com orçamento de R$ 5,4 bilhões e o Senado com R$ 3,9 bilhões. Somando com os R$ 867,5 milhões do Fundo Partidário e a compensação tributária às emissoras para o horário gratuito, são muitos bilhões para termos esses tipos de decisões inconsequentes.
A situação pela qual o Brasil está passando se deve às duas questões mais faladas ultimamente: a corrupção e o comportamento inconsequente, que vai de prefeitura a governo federal e de Câmaras Municipais ao Congresso Nacional. A corrupção não somente atingiu valores alarmantes, como medrou por todos os setores. Não há semana que o noticiário não mostre prefeito e vereador sendo flagrados desviando verbas repassadas para os municípios fazerem o mínimo que a população necessita. Da Petrobras vai se desdobrando em novos focos e nem dá para imaginar até onde irá. E enquanto se rouba de um lado, de outro, os que têm a responsabilidade de zelar pelos interesses da nação agem de forma inconsequente, alheios ao sacrifício a que o povo está sendo submetido. Já não se duvida que a situação continuará piorando, que mais gente perderá o emprego, que faltarão mais remédios e atendimento médico, enfim, que vamos passar por um período muito difícil, e mesmo assim, são tomadas decisões que só servem para agravá-lo.
O estado de coisas atual não tem conserto? Claro que tem. Vamos sair dessa crise? Claro que vamos. Vai demorar? Depende. Poderíamos encontrar um caminho mais curto e seguro se houvesse uma consciência de nação, de que todos estamos no mesmo barco e somente remando com ritmo sincronizado e na mesma direção poderemos vencer. Mas falta liderança. O ritmo está descompassado e a direção aponta para vários lados, até mesmo no sentido oposto. Poucos agem com responsabilidade e muitos são inconsequentes, alheios às medidas necessárias ou até criando obstáculos, como essas decisões que aumentam despesas evitáveis, quando a ordem é cortar.
O autor é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru