Oator Umberto Magnani revelou ao JC ter um sonho: o de ser vaiado. Está em entrevista publicada hoje no JC Cultura. Em sua visão, ser vaiado significaria que o público está mais exigente. Curiosa tal afirmação na semana em que as artes perderam o provocador Antonio Abujamra. Aquele que dizia não gostar de nada, o que é uma provocação e tanto ao dom de viver. Na redação, conversamos sempre sobre o fato de, no geral, sermos tão refratários a críticas e provocações. Sempre temos uma desculpa. É oceânica a dificuldade em admitir erros. E mais: em aprender com os erros.
Erro é um professor e tanto (e vai aqui minha saudação a todos os professores que andam levando borracha por aí). Já pensou: ser vaiado e tomar isso como um agradecimento? Sinal de grandeza de Magnani, que hoje se apresenta em Bauru. Mas ele levou quantos anos para moldar tal entendimento? É complicado ser provocado, como o ourinhense Abu fazia como ninguém, e reagir bem a isso. E tirar lições disso para avançar.
Certa vez, em Tupã, o provedor da Santa Casa ligou para apontar um erro do jornal onde eu trabalhava. Por coincidência, um erro que eu havia cometido. Disse a ele que faria a retratação, que havia mesmo sido um erro. Do outro lado da linha, fez-se um silêncio. E ele disse ter estranhado uma admissão de erro tão imediata. Estava mais acostumado a ouvir longas justificativas, que só servem para tirar o erro do foco da prosa. Sem falsa modéstia, fiquei orgulhoso da minha atitude. Mas não são todos os erros que consigo admitir. Quem sabe um dia.
Estou muito longe de desejar ser vaiado, mas não resta dúvida de que ser provocado ajuda no crescimento pessoal. Especialmente quando somos provocados a reconhecer nossas fraquezas, nossos desvios e nossos inúmeros erros. Dizia Abu, ou diz-se que ele dizia: "A vida é sua, estrague-a como quiser". Que fracasso é mais interessante do que sucesso. Eu diria: "Errar é humano, mas não aprender com erros é desperdiçar a vida".
Longa vida a Magnani. E a você, Abu, desejo que provoque a maior confusão entre santos e anjos ao perguntar a eles, como fazia em dose tríplice, olho no olho, na TV Cultura: "O que é a vida? O que é a vida? O que / é / a / vida?".
O autor é editor executivo do JC