09 de julho de 2026
Economia & Negócios

Número de jovens devedores preocupa

Dulce Kerneis
| Tempo de leitura: 6 min

Levantamento realizado pela Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Bauru, até o último dia 14, por meio de dados do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC), revela que, atualmente, a cidade tem 55.843 pessoas com dívidas inscritas no órgão pelo comércio. E um detalhe chama atenção: é preocupante a quantidade de jovens devedores “na praça”, tanto que já estão próximos aos idosos, considerados, historicamente, os maiores devedores. Hoje, a parcela daqueles quem têm até 30 anos deve mais de R$ 6,6 milhões no comércio bauruense.

 

“Se todas as pessoas (de todas as faixas etárias) fossem cobradas pelas respectivas lojas que compraram, haveria o pagamento do montante de mais de R$ 31 milhões”, diz o advogado Elion Pontechelle, assessor jurídico da CDL, pontuando que este valor é bem maior do que o apresentado o ano passado. 

 

Em 2014, neste mesmo período, existiam 40.118 moradores da cidade com o nome inscrito no SPC e dívidas que chegavam no total a R$ 18 milhões de reais. Um ano depois, em valores nominais brutos, as dívidas são R$ 13 milhões a mais.

 

O aumento da inadimplência já vem tirando o sono de muita gente na cadeia da economia local. Tanto de quem deve e não está conseguindo arcar com os pagamentos em dia quanto do lojista que precisa do pagamento “até como forma de continuar mantendo seu estabelecimento aberto, garantir emprego e repor estoques”, lembra o advogado Elion.

 

As duas pontas

 

Historicamente, um em cada quatro devedores do País tem 60 anos ou mais, segundo levantamento nacional realizado pela instituição. Aumento de gastos com saúde e empréstimo de nome para tomar crédito estão entre as principais razões do popular “calote”. É bom lembrar que o cadastro contabiliza as dívidas com atraso no pagamento superior a 90 dias.

 

E se Bauru não foge à regra nacional na ponta de devedores mais de mais idade, vem chamando a atenção o número de inadimplentes jovens ou que entraram no mercado de trabalho recentemente. Ou seja, há um avanço na outra ponta.

 

O levantamento feito pelo advogado Elion Pontechelle junto ao órgão (veja no quadro abaixo) mostra que, se for verificada a faixa etária dos inadimplentes até 30 anos, ela já se aproxima perigosamente dos tradicionais 25% dos idosos. Afinal, são mais de 21% os devedores nesta parcela mais jovem da população.

 

Para se ter uma ideia, da dívida total atual (R$ 31 milhões), a parcela de inadimplência dos jovens é de de R$ 6.697.840,53. No ano passado, era de  R$ 3.880.645,47. Ou seja, um aumento de 72%.

 

Na faixa entre 20 a 25 anos e de 26 a 30 anos, os números praticamente se igualam. No ano passado, quem tinha de 20 até 25 anos respondia por 10,39% das dívidas. Neste ano o percentual, foi para 10,69%. Uma diferença pouco significativa. Também de 26 até 30 anos, o bauruense devia, neste mesmo período do ano, no passado, cerca de 10,34% e, em 2015, o número também teve alteração pouco significativa. Caiu para 9,91%.

 

Ao observarmos os quadros comparativos entre o ano passado e este ano, nota-se também que a faixa de devedores de 18 anos subiu de 0,01% para 0,15%. Em números percentuais pode parecer pouco. Mas é sintomático. Sabe-se que, em 2014, existiam apenas oito devedores de 18 anos com dez dívidas (ou seja, dois deles deviam em mais de um estabelecimento). Neste ano, esse número saltou para 97 devedores, que agora têm pendências de pagamento acumuladas em várias lojas e chegam a um total de 137 dívidas.

 

Consequências

 

Os dados realmente apontam para uma situação preocupante no quadro de devedores mais jovens. Para o assessor jurídico Elion Pontechelle, o que está acontecendo é consequência direta da crise e da retração do mercado de trabalho. “São pessoas que estavam como trainees, estagiários e, nos últimos anos, foram absorvidas pelo mercado de trabalho sendo efetivadas, conseguindo assim crédito nas lojas por apresentarem emprego formal. Agora, estão sendo dispensadas e, com isso, não conseguem mais honrar seus compromissos”, acredita ele. 

 

Ou então, outra hipótese: essa renda adquirida pelos jovens está fazendo diferença na manutenção da família, já que houve aumento dos custos em casa.

 

Renegociação

 

Contudo, o comércio ressalta que não há uma má vontade de sua parte para equacionar a dívida. “A renegociação, o reparcelamento, ainda é o melhor caminho do que ficar com o nome no cadastro do SPC e o comerciante está bastante receptivo tanto para o alongamento da dívida, quanto para a obtenção de descontos de multas e juros”, sentencia Elion Pontechelle.

 

Entender de matemática financeira, trazer as contas na ponta do lápis, pensar melhor na hora de adquirir um bem, também são fundamentais, lembram os especialistas. Até o próprio jovem tem a receita de como não ser imprudente e “nunca se gastar mais do que se ganha”. 

 

A juventude e as experiências com o dinheiro

 

Arrependimento: Letícia de Carvalho Braga, 25 anos, moradora do Jardim Celina, em Bauru, é recuperadora de créditos e dá um conselho a quem pensa em fazer dívidas e entra em empréstimos bancários. “Os juros são muito altos e, depois que a gente começa, não volta nunca mais para trás. Se eu soubesse como é difícil pagar, jamais teria feito”, lembra ela. 

 

Não que Letícia faça extravagâncias e viva fora do seu orçamento, mas ela já sabe o quanto é complicado pagar dívida de banco. Em sua lógica, por menor que seja o empréstimo, a pessoa que está no “vermelho” é porque já está com a vida difícil, então, sempre que pensa em liquidar toda a dívida, acaba não conseguindo. “Primeiro, é mais complicado para quem tem aluguel, luz e quem não tem uma reserva. Quando vem uma emergência, fica complicado”.

 

Empréstimos: Bárbara Carvalho Lopes, 23 anos, moradora de Arealva, estava em Bauru nesta semana à procura de um emprego e está investindo em um curso de manicure, onde acha que poderá atuar e conseguir um bom dinheiro. Ela é mais um exemplo de jovem que não gosta de fazer dívidas, nem empréstimo. “Sei que emprego está difícil e, sempre que precisei de algo, minha mãe pagou, mas nunca gostei disso. Prefiro ter meu próprio salário e nunca fui de abusar”. 

 

Ela só lamenta o fato de, ao ficar desempregada, ter que trancar a matrícula na faculdade, onde cursava pedagogia. “Preferi assim, é uma escolha minha. Não gosto de fazer dívidas, nem em família. Lamento, mas é assim”, conclui a jovem.

 

Sem dívidas: Fernando Henrique do Rego, 25 anos, agente de negócios de uma multinacional de telefonia, morador de Pederneiras, se diz um “exemplo” quando o assunto é dívida. Ele segue à risca a cartilha dos professores de economia pessoal. “Fui ensinado assim, isso veio do meu pai, se não tem o dinheiro para pagar, não compra. No máximo, faço prestações, mas sem jamais comprometer o orçamento”. A parcela tem que caber no bolso dele, com folga. “Já fiz dívidas, mas sabia que ia conseguir pagar”.

 

Fernando acha que é a compulsão ou o encantamento por objetos supérfluos que levam as pessoas a se endividarem. Ele dá o exemplo de um celular moderno: “há aparelhos de R$ 1.500,00 que fazem exatamente o que faz o que custa R$ 600,00. E vejo muitos jovens se endividarem por causa do último modelo”.