08 de julho de 2026
Geral

O médico que viveu 12 dias de paciente

Thiago Vendrami
| Tempo de leitura: 7 min

Um acidente doméstico envolvendo vazamento de gás e um acendedor de fogão marcou a vida do médico ginecologista e clínico geral Áureo Antonio Érnica, de 63 anos. Acostumado a atender, ele ficou 12 dias internado na Unidade de Queimados do Hospital Estadual de Bauru (HEB), vinculado à Fundação para o Desenvolvimento Médico e Hospitalar (Famesp). Período capaz de fazê-lo dar um novo sentido à vida e viver um sentimento de eterna gratidão. 

 

Malavolta Jr.

Ao testar seu novo cooktop, Áureo foi ferido em uma grande explosão e ficou hospitalizado

 

Era 9h30 da manhã da última sexta-feira Santa, dia 3 de abril. Sozinho em sua casa, às margens da rodovia Marechal Rondon (SP-300), em Bauru, Áureo, ansioso, testava sua nova aquisição: um cooktop. Sem perceber um vazamento de gás, daqueles encanados, acionou o acendedor logo após fazer a instalação e o inevitável aconteceu. Houve uma explosão.

 

O médico teve queimaduras de 2.º grau grave, que atingiram tronco, face, braços, pés, pernas e mãos, o que lhe rendeu dias mistos de dor, sofrimento, reflexão e, por fim, gratidão. 

 

O primeiro atendimento, que evitou que a situação se agravasse, foi feito pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu).

 

Foram exatos 12 dias internado em um dos quartos da Unidade de Queimados do HE. Foi essa sua escolha, mesmo possuindo convênio médico. “Optei por ser um paciente como qualquer outro e aguardei a oportunidade de ser tratado pela melhor equipe que existe para esse caso, em um lugar da minha mais extrema confiança”.

 

Sem regalias

 

O atendimento igualitário e humanizado, sem regalias, fez a diferença para o médico-paciente. “Graças a Deus não tive privilégio nenhum. Apesar de ser médico, lá, fui paciente e tive que fazer o que todo mundo fazia. O beneficiado pela igualdade era eu mesmo. Tinha que seguir as normas do hospital e fim de papo, o tratamento foi como deveria ter sido e assim continua sendo”.

 

Um dos pontos que ele mais ressalta é a dispensa, mesmo diante do quadro, dos antibióticos. Tudo por conta da higiene da unidade hospitalar. “O ambiente é de uma higiene impecável. Bolsas de visitas ficam em um armário ainda na porta do quarto. Visitas são restritas e sequer celular é permitido”.

 

Os curativos

 

“Eu usava de 10 a 12 tubos de pomada por curativo, todos os materiais de ponta, de primeira qualidade. Um custo médio de R$ 2 mil cada (curativo). E ouvi dizer que tem paciente que chega a usar 50 tubos diariamente”.

 

Essa afirmação fez o paciente refletir a necessidade de mais unidades especializadas como a do HEB. “Ouso dizer que menos de 5% da demanda do Estado é atendida por unidades especializadas como essa. Imagine as pessoas que não possuem esse acompanhamento? Em casa, jamais investiriam o necessário, ao contrário do que fazem no hospital”, destaca.

 

A partir daí, um pedido. “Fica aqui um apelo aos políticos de nossa cidade e região para que lutem por uma duplicação de área física e número de leitos, médicos e funcionários para essa joia rara que a região possui”.

 

As fases da vida: de atendente a atendido

 

O médico-paciente Áureo Antonio Érnica chegou a Bauru em 1995. Nasceu em Andradina e, aos 17 anos, “caiu no mundo”, quando decidiu ser médico e persistir na realização desse sonho. A atitude foi após uma grave crise financeira que atingiu sua família formada por cafeicultores.

 

“Quando eu tinha 15 anos, 250 mil pés de café levaram tudo que meu pai tinha. Foram dois anos de seca e um de geada seguidos”.

 

A primeira parada foi em Brasília (DF). Lá, ele trabalhou como cobrador de ônibus, vendedor de calçados e frentista de posto de combustíveis.

 

No ano seguinte foi a São Paulo, Capital, onde ficou até prestar vestibular e dar início à vida acadêmica aos 26 anos na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), em 1972.

 

Formado médico, foi a Cerejeiras (RO), permanecendo por cinco anos.

 

Dali, 4  anos se passaram em Gália e outros 10 em Iacanga. Por fim, a Cidade Sem Limites.

 

Divorciado, atendia os pacientes no Pronto-Socorro Central (PSC) de Bauru e no Centro de Saúde de Avaí (39 quilômetros de Bauru). Na cidade vizinha, havia uma enfermeira, também divorciada. Marta Peixoto Duarte Érnica. Entre um expediente e outro, nasceu um sentimento renovado. Isso foi em 1999. Uma década depois, no dia 23 de outubro de 2009, formaram a família.

 

Fruto desse relacionamento não houve a geração de uma nova vida, mas cada um já tinha dois filhos. A então enfermeira colega de trabalho é hoje quem cuida em casa do paciente “teimoso”, como ele mesmo assume.

 

Meu relato

 

"De fora, fazer críticas destrutivas, julgamentos de valores, é algo trivial na irresponsabilidade e infelicidade humanas. Bajular, idem. Mas, viver a realidade nos dá a dimensão da pequenez ou da grandeza das coisas que, tantas vezes criticamos sem o menor conhecimento. Um infeliz acidente com gás de cozinha levou-me a viver por 12 dias na Unidade de Queimados do Hospital Estadual de Bauru. Convivi com pessoas de quadros bem mais graves que o meu, e outros, felizmente menos dramáticos. É um bom lugar para se avaliar a dor física humana. Porém, muito mais importante é a oportunidade de avaliar a qualidade dos serviços prestados aos portadores de tão dolorosa patologia. Sofri muito, me rebelei algumas vezes. Não quis fazer coisas que deveria (por medo da dor), e ouvia, invariavelmente: ‘mas tem que fazer’. O fato de eu ser médico não me dava privilégio algum. Minha esposa é enfermeira e, um dia conversando com a enfermeira do turno que se formou com ela, ouviu da amiga: o doutor Áureo..., no que foi, imediatamente, corrigida por seu colega ao lado que disse: o seu Áureo. Lá eu não era médico, era um paciente como qualquer outro, o que é correto. Tem que fazer, e sempre que tinha forças eu fazia, algumas vezes, não conseguia. Não sei descrever minha dor, minha tolerância pelo passar indolente das horas, não sei descrever quase nada. Sei dizer da dor que moralmente começava a me atormentar ao anoitecer, por já pensar nas dores decorrentes dos inevitáveis banho e curativo do próximo alvorecer. De ouvir gritos lancinantes de outros que sofriam mais do que eu. Contudo, o que eu mais sei dizer é da qualidade, competência, profissionalismo e igualdade no tratamento de todos ali. Se houvesse necessidade de enxerto, debridamento em centro cirúrgico, suplementação alimentar, imediatamente se tomavam as providências, a menos que o paciente se recusasse. Se a teimosia fosse grande, era convidado a assinar um termo de responsabilidade e alta e avisado que depois não mais poderia voltar para lá. Não vi ninguém que tivesse coragem de fazê-lo. Era o único meio de fazer o paciente renitente deixar fazer o que era melhor para ele. Conheço-me bem e sei que, em mais de uma ocasião, fui indelicado, rebelde, mal educado, mas sempre compreendido e desculpado por todos, que conhecem a dificuldade de sentir as dores que sentíamos. Mas eu perdia sempre, pois de nada adiantava ser rebelde. Eu tinha que seguir as normas, enfrentar as dores, tomar os banhos, fazer curativos, andar o quanto conseguisse. Agora estou em casa, em franca recuperação, morrendo de vontade de voltar a trabalhar normalmente. Ainda doem os banhos e curativos, mas nada que se compare aos primeiros 15 dias. Continuo frequentando o Ambulatório de Queimados para os curativos. Quanta educação dos funcionários desde a porta de entrada até o momento de ir embora. Já tenho ânimo para muitas coisas. Por isso me propus a escrever esse artigo. Para mostrar o que é aquela Unidade. Para deixar clara, cristalina, a minha imensa, imorredoura gratidão e pedir desculpas a todos os que, de alguma forma contribuíram para tornar a minha permanência lá, o menos dolorosa possível e com os quais, algumas vezes retribuí com indelicadeza. Desde os médicos, fisioterapeuta, psicóloga, equipe de enfermagem, funcionários da nutrição (comida deliciosa), de serviços gerais que muito contribuem para prevenção de infecção hospitalar, além da limpeza impecável. Tudo o que eu disser será muito pouco, diante do muito que recebi. Também para deixar claro que, mesmo tendo Plano de Saúde, nem por um segundo, cogitei fazer uso dele. Eu poderia ir para um apartamento com acompanhante, frigobar, comer o que quisesse, visita liberada (aumentando o meu risco de contrair infecção), e outras facilidades. Razão? Uma única e simples: a certeza de não haver em Bauru nenhum serviço especializado com a mesma qualidade, experiência, competência e dedicação, rigidez de normas. E isso eu comprovei, por necessidade própria. Infelizmente o Hospital Estadual é pequeno demais para atender a sua enorme área de abrangência. Fica aqui um apelo aos políticos de nossa cidade e região para que lutem por uma duplicação da área física e número de leitos, médicos e funcionários para essa joia rara que a região possui. Por isso, felizes daqueles que conseguem fazer parte do grupo dos beneficiados por seus serviços. Teria muito mais a dizer, faltam-me palavras. Assim, só me resta uma vez mais dizer, muito obrigado a todos, nunca desistam de ser como são. Tem que fazer... Deus os abençoe sempre."

 

Áureo Antonio Érnica