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Alex Mita |
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Professor Antonio Muñoz Aunión: “As execuções geram mais violência em vez de combatê-la, como alguns acreditam” |
As recentes execuções de brasileiros na Indonésia provocaram a retomada dos debates acerca da pena de morte. Por aqui, foram muitas as manifestações contrárias e favoráveis ao destino dos dois homens condenados por tráfico de drogas, inclusive críticas às tratativas do Palácio Itamaraty para tentar reverter a decisão da justiça do País muçulmano. Existem, no entanto, organizações internacionais que pregam a abolição universal da pena de morte. Uma delas reúne acadêmicos e pesquisadores de todo mundo. Dentre eles, o professor espanhol Antonio Muñoz Aunión, que esteve em Bauru na última semana.
Especialista em Direito Internacional, ele ministrou palestra na Instituição Toledo de Ensino (ITE) e conversou com o Jornal da Cidade. Antonio compara a pena de morte com o “gol de ouro” ou “morte súbita” no futebol, método que costumava ser utilizado para decidir partidas decisivas empatadas, pelo qual vencia a primeira equipe que marcasse um gol na prorrogação.
“Faço essa analogia porque esse tipo de definição não satisfazia. No mesmo sentido, as execuções geram mais violência em vez de combatê-la, como alguns acreditam”, compara o professor.
Muñoz acredita que a crise econômica amplia a sensação de insegurança, levando as pessoas a desejaram a aplicação de mais duras medidas – e, em última instância, até a pena de morte – contra criminosos e, em última instância, até a pena de morte.
“É como se perguntasse a um grupo de pessoas se elas defendem o fim do Imposto de Renda. A maioria vai dizer que sim. O que devemos dizer, no entanto, é que o discurso político dominante destaca questões como os índices de criminalidade, a necessidade de mais presídios, mas oculta o que não é desejável que se entenda, como a pobreza na educação e nula distribuição de riquezas”, pontua.
Para Antonio Munõz, a pena de morte, além de um método arcaico, deve ser compreendida como um crime de Estado e ato de terror e crueldade. “Ela não tem funcionado nos países onde ainda é adotada”.
PROCESSOS VICIADOS
O professor de Direito Internacional frisa que muitos condenados têm morrido, mesmo sendo inocentes, até mesmo em função de falhas e dúvidas em processos.
“Por mais que haja boas intenções, errar é humano. É impossível encontrar um processo completamente descontaminado ou imparcial. Além disso, ao longo dos processos, há a participação de vários atores externos, que possuem interesses muitas vezes discordantes”, observa.
SEM ALTERNATIVAS
Muñoz Aunión não acredita que a pena de morte ajude a diminuir os índices de criminalidade. Ele dá o exemplo de quando, em Nova York, surgiu a proposta de que todos os bandidos que matassem agentes de segurança pública fossem executados.
“O Sindicato dos Policiais foi o primeiro a se manifestar contrariamente. Afinal, se um delinquente está em meio a uma troca de tiros, não vai fazer diferença se matar um, dois ou três policiais. Ele não tem nada a perder porque o resultado da sua pena seria igual”, observa.
No mesmo sentido, o professor é contrário à prisão perpétua, que, segundo ele, significa a “morte civil” do condenado, além de custar fortunas aos cofres públicos.
Abolicionista
Antonio Munõz Aunión frisa que, mesmo se provassem a ele, cientificamente, que a adoção da pena de morte ajudaria a reduzir os índices de criminalidade, continuaria sendo contrário à execução de condenados.
“Como abolicionista, seguiria dizendo que esse tipo de pena deve acabar. O mundo não poder ser regido por valores economicistas se sobrepondo aos valores humanos. Para se ganhar a guerra contra a delinquência, nem tudo é válido”, afirma.
Ele diz que, se, hoje, a sociedade aceita executar autores de crimes graves, amanhã, poderá estender a pena para eventuais “inimigos da sociedade”. “ Esse inimigo pode ser o Bin Laden. Mas a história nos mostra que os ‘Bin Ladens’ de hoje eram os amigos de ontem”.
9 países americanos extinguiram execuções
O professor espanhol Antonio Muñoz Aunión afirma que, atualmente, a pena de morte é praticada apenas em países islâmicos, nos Estados Unidos e na China. Nos últimos dez anos, nove países americanos – dentre eles, Cuba e Guatemala – deixaram de matar seus condenados.
Segundo ele, o movimento pela abolição da pena de morte é desenvolvido, especialmente, por ONGs, como a International Academic Network for the Abolition of Capital Punishment, à qual ele pertence.
A iniciativa reúne pesquisadores renomados que lutam pela causa e escrevem seus artigos, que são traduzidos e colocados à disposição, inclusive, da Comissão Internacional Contra a Pena de Morte, criada em 2010.
O espanhol comenta que a militância do grupo é feita, essencialmente, pelas redes sociais e Internet, já que governos não podem financiar diretamente a causa para evitar colisões com a soberania dos países que ainda adotam a pena de morte.
Pelo mesmo motivo, a atuação da Organização das Nações Unidas (ONU) ainda é tímida, na avaliação de Muñoz Aunión. “Ela age por meio de resoluções, que pedem para que os países não aumentem os tipos de crimes passíveis de execução, informem os números de casos e não matem crianças, adolescentes, idosos, doentes mentais e gestantes”.
A China, porém, omite esse tipo de informação. “É o País que mais mata no mundo. Estima-se que sejam 3.000 execuções ao ano”.
Na Indonésia
Antonio Muñoz Aunión cita ainda alguns agravantes no caso dos brasileiros executados na Indonésia. “Os meios de comunicação sabem sobre o início do caso, quando ambos foram detidos por tráfico de drogas, e o fim. O que aconteceu entre uma coisa e outra é mantida em sigilo”.
O professor afirma que as condições em prol dos acusados que respondem por crimes em outros países são mais difíceis, pois, eventualmente, não dominam a língua estrangeira e, invariavelmente, pouco conhecem sobre a legislação local. “Não conhecem as regras do jogo. É difícil se defenderem”.
Serviço
International Academic Network for the Abolition of Capital Punishment: https://www.academicsforabolition.net/