|
Quioshi Goto |
|
|
|
Desestrutura familiar e falta de afeto são principais motivações do ingresso nas drogas, apontam as conselheiras Silvana e Ieda |
Após ser encontrado fumando maconha nos corredores da escola onde estuda, no Parque Jaraguá, o garoto de 11 anos já sabia o que encontraria pela frente. A Polícia Militar (PM), o Conselho Tutelar e sua família foram acionados. A situação vivida por ele é preocupante. E o pior: o vício não teria começado nos últimos dias.
A criança é apenas mais uma a integrar a lista dos acompanhamentos feitos pelo Conselho Tutelar e pelo Centro de Atenção Psicossocial/Álcool e Drogas (Caps 3 AD) voltado para o público infanto-juvenil no município. Com demanda crescente, os casos decorrentes do uso de drogas já tomam até 40% do total de atendimentos do conselho. E o mais assustador: na lista de dependentes, há criança de 8 anos em acompanhamento.
Em números
E o panorama das drogas na cidade toma contornos ainda mais tristes. Por dia, uma média de 30 casos de usuários são atendidos pela rede municipal de assistência, que envolve os dois órgãos que atuam no campo infanto-juvenil.
Inaugurado em setembro do ano passado, o Caps 3 AD tem dispensado atendimento médico ininterrupto a três adolescentes de 15, 16 e 17 anos, que seguem internados na unidade por conta da dependência química, os dois mais velhos por crack e o mais novo por conta de abuso de álcool.
Os casos de crianças de 8 e 10 anos se referem aos dos mais novos usuários já registrados, que seguem em acompanhamento, seja pelo Conselho ou pelo Caps 3 AD.
“A mãe nos procurou depois de encontrar droga nas coisas do filho. Ao longo do acompanhamento, descobrimos que o entorpecente nada mais era do que um recurso para chamar a atenção dos pais”, comenta Ieda Maria de Souza, presidente do Conselho Tutelar 2 – que atende as regiões do Ferradura Mirim, Nove de Julho e Santa Cândida -, sobre o caso do garoto de 8 anos.
Já a de 10 anos faz parte de uma população “boomerang” do Caps. “Ela acabou tendo um surto psicótico e precisou de desintoxicação, mas está melhor e hoje volta ao Caps só para participar das terapias ou quando tem as recaídas”, detalha Josiane Fernandes Carrapato, coordenadora do Caps 3 AD, que, além da desintoxicação, também oferece serviços terapêuticos. O atendimento é estendido a crianças e até a jovens que já fizeram 18 anos.
Falta de afeto
O caso do garoto mostrado no começo da reportagem – em respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), a identidade não será divulgada - no entanto, se distingue dos citados e da maioria dos atendidos pela rede municipal.
Segundo os órgãos, a dependência química da respectiva criança não envolve a falta de relação afetiva com os pais ou responsáveis, característica observada pelos especialistas em grande parte dos casos.
“Temos acompanhado o caso. A mãe é bastante esforçada e não falta carinho ali. O problema é que o tratamento passa por altos e baixos. Ele também está sofrendo com isso”, resume Ieda.
Procurada pela reportagem, a mãe do garoto não quis se manifestar para contar sobre o passado do filho e da luta que tem travado diariamente contra o vício da criança.
A questão da carência emocional, todavia, é elencada como um dos principais fatores que levam crianças e adolescentes a ingressarem nas drogas. “O problema é quase sempre de ordem afetiva da criança em relação à família. Hoje é muito comum a terceirização do afeto pelos pais por conta da falta de tempo”, completa Silvana Cruz Tarantella, presidente do Conselho Tutelar 1 – que atende as regiões Jardim Ferraz, Jardim Godoy, Nova Bauru e também parte do Ferradura Mirim.
Modelos e limites
A dificuldade dos responsáveis em impor limites e regras aos pequenos e até mesmo a dificuldade da criança ou adolescente em lidar com um modelo de família socialmente construído também auxiliariam neste processo.
“Ainda há um entendimento de que a família ideal é aquela composta pelo pai e pela mãe. Ao sentir-se desamparada de alguma forma, a criança perde o prazer na vida”, reforça a assistente social e coordenadora do Caps 3 AD.
Históricos de rejeição e de tragédias familiares também são considerados fatores que contribuem para o ingresso no mundo das drogas.
Vale ressaltar que os casos atendidos diariamente no município são tratados sob sigilo pela rede de assistência.
Criança é flagrada usando maconha no interior de escola no Pq. Jaraguá
O uso de drogas cada vez mais cedo é algo que tira o sono das autoridades. O caso mais recente foi registrado pela PM na Escola Estadual Alto Jaraguá e ocorreu durante o período letivo, no final da tarde de quinta-feira (7).
A polícia foi acionada depois que inspetores viram o menino usando drogas no pátio. Chamada na sala de direção, a criança tentou fugir dos policiais. Na fuga, lançou o invólucro de maconha, apreendido logo em seguida. O Conselho Tutelar e mãe, uma cozinheira de 34 anos, foram chamados e o caso foi registrado na Central de Polícia Judiciária (CPJ).
Primeira vez
Sobre o fato, a Diretoria Regional de Ensino (DRE) informou que esta é a primeira vez que esta criança é pega com droga no local e que o conselho da escola se reunirá na segunda-feira para discutir o caso e decidir que medidas serão tomadas.
“A Secretaria de Estado da Educação tem desenvolvido várias campanhas para coibir o avanço das drogas no ambiente escolar. Contudo, este é um problema social que transcende os muros da escola”, frisa Beatriz Ortiz, dirigente substituta do órgão.
Serviço do Conselho Tutelar
O Conselho Tutelar de Bauru funciona, de 2.ª à 6.ª, das 8h às 18h, na av. Alfredo Maia, quadra 1, Vila Falcão. Contatos: (14) 3227-3339, (14) 3227-3499 e (14) 98804-5530
O Centro de Atenção Psicossocial/Álcool e Drogas voltado para o público infanto- juvenil (Caps 3 AD) funciona de 2.ª à 6.ª, das 8h às 11h e das 13h às 16h, na rua Azarias Leite, 13-28.