Em meio a uma floresta, nos arredores de Berlim, na Vila de Halbe, existe um grande cemitério, com umas 30 mil sepulturas marcadas por cruzes baixas, enegrecidas pelo tempo. Muitas estão fora do seu eixo vertical, pendentes à esquerda ou para a direita. Em companhia do meu inesquecível amigo Marco Brisolla fui visitá-lo, de trem, ao aceitar mais um dos seus convites para este tipo, no mínimo estranho, de turismo. As datas inscritas nas cruzes indicam que a maioria morreu entre 24 de abril e 1 de maio de 1945. Muitos não têm nome. Apenas "Desconhecido, morto na guerra". Em Halbe, no estado de Brandenburgo se desenrolou uma das últimas grandes batalhas da Segunda Guerra Mundial. Os soldados alemães ficaram presos numa ratoeira entre duas frentes do exército soviético. Há quem faça um balanço de 60 mil mortos, mas ninguém sabe exatamente o número certo. Corpos de soldados, prisioneiros de guerra, condenados a trabalhos forçados, de mulheres e de algumas crianças se juntam a de outros que todos os anos são encontrados nas imediações.
Em Berlim, ao lado esquerdo da avenida que leva ao estádio olímpico existe um cemitério bem menor, reservado a combatentes britânicos. Levei algum tempo para entender o quanto os cemitérios representam para se entender a cultura, a arte e, enfim, o processo civilizatório. A maioria das quase 4 mil sepulturas pertencem a pilotos e tripulantes da Real Força Aérea que morreram durante os raides aéreos à capital e inúmeras cidades da Alemanha do Leste. A maioria das campas tem nome, patente e data de nascimento. Se olharmos com atenção, muitos não tinham mais do que 25 anos, alguns apenas 18. E meio ao silêncio, quebrado pelo farfalhar das folhas ao vento, a sensação do enorme desperdício de vidas nos leva a uma reflexão imediata sobre a inutilidade das guerras. Calculam 50 milhões de mortos durante os seis anos do conflito, mas nunca conseguiram contar.
Cada país comemora a seu modo os 70 anos do final da guerra. Para Vladimir Putin, presidente da Rússia, é um dia de orgulho pátrio. A bandeira vermelha tremulou sobre as ruínas do Reich à custa de 20 milhões de mortos do lado soviético. Para Ângela Merkel, a chanceler alemã, é a data que marca o fim do nazismo, uma era negra da história nacional. Para Dilma Rousseff foi melhor fugir de um possível "panelaço" na cerimônia junto ao Monumento aos Pracinhas, no Rio de Janeiro. A Força Expedicionária Brasileira se apresentou ao conflito, com 25 mil homens, dois mil morreram em combate ou em consequência de ferimentos e houve mais 12 mil baixas incapacitantes. Putin exibiu nos desfiles da Praça Vermelha um ultramoderno tanque, como a dizer: "se precisar, a gente tem". Aqui, exibimos as panelas da insatisfação. Minha mãe sempre primou por manter as panelas de alumínio areadas, brilhando como se fossem novas. Nunca permitiu que as utilizássemos como "tamborzinhos" para imitar as bandas nos desfiles cívicos do pós-guerra. Certamente não as cederia para alguém "bater panelas". Nem para a Dilma, Lula ou qualquer outro que ela pudesse encher de culpas pelo preço exorbitante da carne. "Com panelas não se brinca"... diria mamãe.
É sabido que a história é escrita pelos vencedores e por isso as culpas franco-britânicas na ascensão do nazismo, por terem esmagado com pedidos de indenizações a Alemanha do pós-Primeira Guerra, é tema só para acadêmicos. Tal como Stálin fazer um pacto com Hitler, tirando da Polônia a chance de resistir à invasão dos tanques nazis, em setembro de 1939, em que tudo começou. Eis que o Exército Vermelho invade a Polônia pelo costado. Os Estados Unidos, durante dois anos fingiram que a guerra não era com eles?
Hitler foi derrotado e isso é consensual celebrar. O nazismo era um mal absoluto, como o Holocausto prova. Havia uma dimensão racista que o distingue de outras ideologias do século 20 e uma sanha exterminadora. O mal foi deixar crescer essa megalomania de Hitler, um medíocre pintor e razoável soldado transformado em senhor da Europa, porque ingleses, franceses e russos achavam que ele não iria longe. Suas atividades expansionistas até que iriam ajudar a "limpar" o mapa europeu ? ironizavam.
Há 70 anos que tudo terminou. Tanto tempo que parece impossível que volte a acontecer. Chefes de estado e de governo lembram os mortos e depositam coroas de flores. Nisso, os gestos são sempre iguais, mas não há como uma paisagem de cruzes carcomidas ou lápides rasas para se perceber o tamanho das guerras que não vivemos. A Europa vive em paz há 70 anos e isso é razão suficiente para celebrar.
O autor é jornalista e articulista do JC