10 de julho de 2026
Geral

Entrevista da semana : José Carlos Gonçalves (Carlão)

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 6 min

João Rosan

'Já vivi exclusivamente da música; hoje isso é bem mais difícil’

Eu não sei o que seria da minha vida se não fosse a música. Não consigo nem ao menos me imaginar longe dela”. Assim o músico José Carlos Gonçalves, o Carlão, como é conhecido na noite, define os seus dias. Desde a adolescência, seus caminhos foram traçados pela música.

“Eu encontrei meus primeiros acordes aos 16 anos de idade, quando vi um amigo tocar violão e acordeon. Mas foi a guitarra que me fisgou no primeiro momento. Com ela eu realizei o meu primeiro sonho, tocar em uma banda de bailes, muito populares na minha juventude”, lembra.

Depois de passar por muitas bandas de baile de Bauru e região, o músico passou a tocar em bares. Entre os muitos projetos musicais com a participação de Carlão, é possível também ouvi-lo tocando solo, voz e violão. “Sozinho eu toco MPB, minha paixão desde a adolescência”, comenta.

Pai de dois filhos, Carlão vive hoje um momento especial com os netos. Assumidamente um avô “babão”, ele também fala sobre a vida na noite, além de dificuldades e alegrias já vividas em âmbito pessoal. Leia a seguir. 

Jornal da Cidade - Quando você encontrou seus primeiros acordes?

José Carlos Gonçalves (Carlão) - Eu encontrei a música aos 16 anos de idade. Fui até a casa de um amigo e ele começou a tocar violão, depois pegou o acordeon... E eu fiquei maravilhado com aquela música. Comecei a tocar guitarra.   

JC - Você é um autodidata?

Carlão - Comecei a tocar guitarra sozinho, sim. Mas aos 17 anos eu entrei em uma escola de música para aprender violão clássico. Estudei por uns três anos. Mas a guitarra foi o instrumento que me conquistou. Com ela eu realizei o meu primeiro sonho, que foi tocar em uma banda de bailes, muito populares na minha juventude. 

JC - Lembra-se da sua primeira banda? 

Carlão - Sim. Eu tinha 19 anos e a banda foi batizada de Clageb, de Pederneiras. Conheci a banda porque fui para Pederneiras comprar uma guitarra deles. Lá, fiquei sabendo que estavam precisando de um guitarrista. Mais do que rápido, eu me candidatei e consegui a vaga. Durante muito tempo os meus fins de semana foram voltados à banda. Tenho um carinho enorme por aquela cidade. 

JC - Foi uma trajetória longa sobre os palcos de bailes?

Carlão - Voltei a tocar em Bauru depois da Clageb. Já estava casado e com filhos. Tinha uns 24 anos. Fui tocar na Alta Classe, a banda do Decinho. Depois fui para a banda Emoções, de Iacanga. Em seguida, realizei um sonho do início da adolescência, que foi tocar na banda Estilo A. No meu baile de formatura da 8ª série eu vi eles tocarem e tive a certeza de que tocaria com a banda um dia. Consegui. Depois disso, toquei na Mother Sound Six. Voltei para a Estilo A e, em seguida, toquei em outra banda de Iacanga, a Massa Real, e encerrei a minha vida em bandas de baile.    

JC - Qual foi o próximo projeto musical?

Carlão - Voltei-me mais para o rock, propriamente dito, na noite, em bares. Hoje estou tocando com a Nanda Vieira e com a banda Tropical Super Som. Mas trabalho simultaneamente com vários projetos. Também faço um trabalho solo de voz e violão.  Sou guitarrista freelancer. Trabalhei com o Turco e até gravei um CD dele ao vivo. Lá se vão 35 anos de estrada com a música.

JC - De onde veio o apelido de ‘Jimi Hendrix de Bauru’? 

Carlão - (Risos) Eu sou um cara muito intuitivo na música, embora tenha estudado violão clássico. E hoje a gente vê a molecada estudando na internet e tudo mais. Mas eu sempre fui  preguiçoso para estudar guitarra. E sempre ouvi dizer que o Hendrix era muito intuitivo também. Tocava com a inspiração. E eu tenho a mania de colocar uma bandana na cabeça quando toco guitarra, como ele fazia. Eu coloco para esconder um pouco minha calvície (risos). Entendo a importância dele na guitarra. Ele mudou a maneira de tocar guitarra. Fez do som um furacão. 

JC - Quem são as suas influências na guitarra?

Carlão - O Armandinho, do Trio Elétrico da Bahia, foi o primeiro guitarrista que eu ouvi. E o Pepeu Gomes veio junto. Na década de 1970, enquanto todo mundo ouvia Deep Purple, Kiss, que hoje eu tenho paixão, eu estava ouvindo  música brasileira: Caetano, Gil, Novos Baianos, Moraes Moreira. Depois de velho é que comecei a ouvir o rock internacional. A música brasileira veio primeiro. Mas o Armandinho já fazia rock na Bahia. Embora tenha nascido no Paraná, eu me considero baiano, porque meus pais e avós vieram da Bahia.     

JC - É possível viver exclusivamente da música?

Carlão - Quando mais jovem fiz vários trabalhos de locução para o comércio, paralelo à música. Mas eu vivi de música durante muito tempo, sim. Porém, hoje isso não é mais possível, salvo algumas exceções. No meu caso, penso que boa parte dos jovens não olha para o tipo de música que eu faço. O público da MPB e até do rock está mais restrito. A mídia está trabalhando com outro tipo de música. Hoje, além de tocar na noite, eu também dou aulas de violão e trabalho na Elo Musical. Ou seja, tudo ligado à música. Eu não sei o que seria da minha vida se não fosse a música. Não consigo nem ao menos me imaginar longe dela.

JC - Família.

Carlão - Tenho dois netinhos. O Bruno, de 4 anos, e a Laura, de 2. Estou em um momento muito parecido com a época em que meus filhos nasceram. Mas ser avô é ainda mais gostoso (risos). É como um filme que vem à minha cabeça. Eles são muito parecidos com meus filhos e até comigo mesmo. Vim do Paraná muito criança, aos 4 anos de idade. Então sou bauruense e muito grato à cidade por tudo o que me aconteceu aqui.

JC - Um momento de grande felicidade.

Carlão - O nascimento dos meus netos foi a coisa mais legal que me aconteceu. Depois do nascimento dos meus filhos, eles me completaram.

JC - Um momento de tristeza.

Carlão - A perda da minha mãe foi muito pesada mesmo. Ela faleceu há seis anos. Foi uma guerreira que nos criou. Ela e minha tia. 

JC - Quem é o Carlão que as pessoas acompanham na noite?

Carlão - Uma pessoa que gosta muito de música. Eu me vejo uma pessoa otimista, apesar das dificuldades do País e até mesmo da música. Minha profissão é linda, mas tem seus desafios. Entretanto, é preciso ter fé. E eu tenho. No palco eu me sinto muito bem, porque sei que estou produzindo para o lazer do público. 

JC - Já passou por situações inusitadas no palco?

Carlão - Muitas delas. Quando minha mãe faleceu, por exemplo, eu tinha show marcado. Precisei deixar a tristeza de lado e tocar. Mas coisas boas também acontecem. Certa vez, tocando na Trattoria Don Armando, o Caetano Veloso entrou no restaurante. Eu levei um susto, imagina. Passei a vida toda tocando MPB, super fã. Fiz fotos, toquei as músicas dele. Foi muito emocionante. Toquei para o Caetano Veloso! Inesquecível.