09 de julho de 2026
Articulistas

Problemas do viaduto que não acaba

Archimedes Raia Jr.
| Tempo de leitura: 3 min

Uma vez mais sou instigado a retornar ao tema "viaduto que não acaba", iniciado há 23 anos, por uma infeliz decisão. Nos anos 1990, Bauru já convivia com vários problemas com a operação de trânsito, e que requeriam ações prementes no sentido de equacioná-los.

Para mitigar parte deles, a cidade acabara de passar por um processo bastante radical, com o Plano de Reestruturação do Trânsito. Este projeto havia sido implantado no governo 1989-92 e, em grande parte, foi desfeito na gestão seguinte. Esta mesma gestão desenvolveu um projeto de engenharia maravilhoso, elaborado pelo grande projetista Adelmo Bertussi que, em sua versão original, era bastante diferente daquilo que está para ser concluído.

O projeto previa a construção de um complexo viário, interligando as regiões das vilas Falcão e Bela Vista e Centro. Seria o "Cebolão" bauruense. O projeto era megalomaníaco e o município jamais teria recursos para construí-lo. Grande erro foi fazer recortes simplistas para se adequar aos recursos disponíveis. Uma vez iniciado, outra grave falha foi empreender a construção das duas pistas principais simultaneamente.

À época, se fosse dada continuidade à avenida Nuno de Assis até a região da vila Dutra sairia mais barato e com ganhos muito mais significativos para o trânsito bauruense. Em 2002, com as obras paradas, foi criada uma Comissão, pela Câmara Municipal, para estudar a viabilidade de se concluir ou abandonar a obra. Eu dela fazia parte, com muita honra, representando o Instituto dos Arquitetos de Bauru. Estranhamente, ela teve os seus trabalhos precocemente encerrados sem uma justificativa plausível.

Não adianta chorar sobre o leite derramado. Uma pista do complexo, menor e mais simples do que o projeto original está para ser concluída. Sobrou para a gestão atual realizar artifícios de engenharia de vias e de tráfego para colocá-la em condições de operação.

Embora não se saiba ainda detalhes do projeto de circulação, a partir de rápido trabalho de auditoria de segurança viária por mim realizada, posso esperar vários problemas de segurança e operação.

No lado da Vila Falcão, há muitos pontos de potencial conflito entre veículos e pedestres e de veículos entre si. No extremo oposto, a improvisação poderá tornar muito complicada a operação das pistas da Nuno de Assis, no trecho entre o viaduto e o cruzamento com a rua Inconfidência.

A curvatura vertical do viaduto na sua parte central é bastante acentuada para operação em mão dupla, dificultando a visibilidade dos fluxos opostos. O viaduto está localizado em uma área urbana subocupada e o pobre do pedestre ficará totalmente exposto à violência, principalmente à noite. Poucos serão aqueles que terão coragem de se aventurar. O longo trecho do viaduto será convidativo aos motoristas emuladores de finais de semana e das madrugadas a empreenderem altas velocidades. Medidas severas serão necessárias.

Sem minimamente ter a pretensão de agir como "ave de mau agouro", entendo que poder-se-á ter muito mais problemas do que soluções com a liberação do "viaduto que não acaba". Sinceramente, torço para que a gestão municipal possa conseguir solucionar cada um desses problemas e que tudo o que aqui expus tenha sido um mero exagero. Sou bauruense e quero ver a minha cidade cada vez melhor de se viver.

O autor é doutor em Engenharia de Transportes e especialista em trânsito, professor da UFSCar, diretor de Mobilidade da Assenag e articulista do JC