10 de julho de 2026
Articulistas

Os meus 86 anos em Bauru

Luciano Dias Pires
| Tempo de leitura: 4 min

Ao completar mais um aniversário natalício, lembro que estou nesta cidade há 86 anos, vindo de Botucatu com os meus pais em 1929. Conservo, em minha privilegiada memória, acontecimentos vividos desde o ingresso (1935) no Grupo Escolar Rodrigues de Abreu, no qual aprendi os segredos das letras e dos números. A partir dessa fase escolar, comecei a formar um vasto círculo de amizades, algumas delas vivenciadas até os dias atuais. Nessa viagem pelo tempo, recordo perfeitamente de fatos inesquecíveis, a exemplo de um episódio da Revolução Constitucionalista (1932) quando, na quadra 9 da avenida Rodrigues Alves, vi soldados de Getúlio Vargas comemorando a vitória, bebendo vinho e da janela do Hotel Durastante jogando as taças no meio daquela via pública - "abaixo a revolução, viva Getúlio...", gritavam. Ainda na década de 30, das dependências do Rodrigues de Abreu, um certo dia por alguns minutos observei as labaredas e a fumaça provenientes do incêndio que destruiu parcialmente o Cine Brasil, localizado na 1 de Agosto, em frente aonde hoje está a agência central do Banco do Brasil.

No século passado (1938), assisti à inauguração do Cine Bauru. Também naquela década (1 de setembro de 1935), saí às pressas da vesperal do Teatro São Paulo para ver os minutos finais do jogo entre o Noroeste e o Campinas F.C., por ocasião da inauguração do estádio noroestino, que era localizado na rua Quintino Bocaiuva. Acompanhei a construção da maravilhosa estação da E.F. Noroeste do Brasil e da não menos admirável sede do Automóvel Clube (em 1939). Antes, porém, em março de 1934, fui testemunha do funcionamento, a título experimental, da PRG-8 Bauru Rádio Clube, de João Simonetti, o pioneiro da comunicação em Bauru. No campo educacional, acompanhei o surgimento do Liceu Noroeste, do professor José Ranieri, e do Ginásio do Estado (hoje Escola Estadual Ernesto Monte). Este somente veio a funcionar graças à doação milionária do terreno para a construção da então novel escola.

Em fins de 1930, mais precisamente no mês de setembro, comecei a acompanhar o desenrolar da II Grande Guerra, movimento militar que envolveu toda a Europa e que provocou, inclusive, a presença de quase 30.000 soldados brasileiros como integrantes da Força Expedicionária Brasileira, da qual participaram 39 jovens da então Capital da Terra Branca. Nos anos 40 do século passado, no setor esportivo, assisti a duas importantes vitórias do nosso futebol. A primeira foi a do E.C. Noroeste que, em 1943, ao vencer e empatar com o Guarani de Campinas, no Pacaembu, conquistou o campeonato do interior. Em 1946, foi a vez do Bauru A.C. alcançar o título máximo daquela competição.

Retornando ao decênio de 30, do século passado, jamais me esqueci da depredação de vários jornais, começando pelo Correio de Bauru e do Diário da Noroeste, pelos seguidores de Getúlio Vargas quando da chegada da notícia sobre a derrota da Revolução Constitucionalista. Ainda em 1932, a publicação Tribuna Operária teve igualmente o mesmo destino. A partir de meados de 1940, após o fim da guerra, acompanhei o desenvolvimento de Bauru. Grandes organizações comerciais da época, a exemplo das Lojas Americanas, Drogadada, Drogasil e outras que, atraídas pelo progresso da então Capital da Terra Branca, aqui se instalaram. E essa preferência, paulatinamente, foi seguida por outras empresas de prestígio em todo o Brasil.

Todos esses acontecimentos e outros que acompanhei em minha passagem por esta terra querida de todos nós, a partir de 1974 comecei a divulgá-las no meu Bauru Ilustrado, que venho editando há 40 anos como suplemento do Jornal da Cidade, publicação esta idealizada por Alcides Franciscato, e inaugurada no aniversário da cidade, em 1967, quando da sua vitoriosa carreira política, que culminou com a conquista da prefeitura municipal e de vários mandatos como deputado federal.

Assim, perto dos 90 anos de idade, faço este retrospecto de uma caminhada que teve início em Bauru no longínquo 1929, com passagens inesquecíveis no campo educacional, principalmente pelo Guedes de Azevedo, bem como integrante do quadro funcional da E.F. Noroeste do Brasil, na qual ingressei, por concurso, em 1945, e onde me aposentei em 1982. Também, com orgulho pelos bons tempos desfrutados na carreira de jornalista, agradeço a Deus por me proporcionar dias felizes usufruídos ao lado da família e dos amigos nesta abençoada Bauru.

O autor é editor do Bauru Ilustrado