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Quioshi Goto |
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Há anos temos tentado tirá-los das ruas, mas eles sempre voltam, relatam as conselheiras Silvana Tarantella e Ieda Souza |
Fantasia de palhaço e limões suficientes para algumas horas de malabares nos semáforos. É desta forma que um garoto, com apenas 9 anos na época, aprendeu a ganhar esmolas nas ruas de Bauru. Mas o que antes tinha como finalidade a compra de doces, agora, cinco anos depois, se tornou uma rotina, e com um único propósito: o sustento do vício nas drogas.
O caso citado é a história real de um adolescente bauruense. Hoje com 14 anos, ele ainda perambula pelos semáforos da cidade. Além dele (o nome não será divulgado em respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente), outros 24 menores estão em situação semelhante no município.
Os números fazem parte de um levantamento do Conselho Tutelar e da Secretaria Municipal do Bem Estar Social (Sebes), que afirmam conhecer essa população de rua e lutar diariamente contra uma barreira quase intransponível já que, ao colaborarem com esmolas, as pessoas acabam estimulando esses menores a retornarem à prática.
BUMERANGUE
O adolescente citado no início da reportagem faz parte de uma população bumerangue de rua formada por um grupo de crianças e adolescentes com idades entre 10 e 15 anos.
Identificados pela rede de assistência contra exploração infantil do município, formada pelo Conselho Tutelar, Sebes e entidades parceiras, os menores, inclusive, criaram uma ligação entre eles.
“Há anos temos tentado tirá-los das ruas, mas eles sempre retornam, seja pela facilidade em ganhar dinheiro ou pela recaída nas drogas”, comenta Ieda Maria de Souza, presidente do Conselho Tutelar 2 – que atende as regiões do Ferradura Mirim, Nove de Julho e Santa Cândida.
Segundo a conselheira, o grupo que perambula pela cidade, atualmente, é o mesmo dos últimos três anos e, diferentemente do que muitos motoristas e pedestres pensam, a maioria possui família e está inscrita em projetos sociais.
“Não registramos crescimento nenhum desta população. O grupo é o mesmo. Todos eles são cadastrados e participam de projetos nos centros de convivência, mas faltam nas terapias, na escola ou fogem dos abrigos para retornarem às ruas e ganharem dinheiro”, reforça Ieda.
E as façanhas para angariar alguns trocados – segundo o Conselho, eles chegam a arrecadar de R$ 50,00 a 100,00 por dia - já seriam conhecidas, conforme a conselheira. “Eles tiram os tênis e se vestem mal para deixar as pessoas com dó”, revela Ieda.
OS MOTIVOS
Apesar de o grupo ser o mesmo, as motivações mudaram com o passar dos anos. “Hoje, as motivações são pulverizadas. Uns fazem para sustentar o vício, outros para angariar dinheiro para ir a festas. Mas a maioria faz por distração. Para eles, a rua se transformou em uma espécie diversão”, comenta a presidente do Conselho Tutelar 2.
Há cerca de uma década, quando o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti) foi implantado pelo governo federal, o perfil dos menores recolhidos nas ruas era outro, quase sempre estimulados pela própria família.
“Não temos mais denúncias em relação a isso, mas grande parte desses adolescentes que estão hoje nos semáforos começaram nas ruas impulsionados pelos próprios pais”, observa Silvana Cruz Tarantella, presidente do Conselho Tutelar 1 – que atende as regiões Jardim Ferraz, Jardim Godoy, Nova Bauru e também parte do Ferradura Mirim.
Oriundos do Santa Edwiges, Fortunato Rocha Lima, Ferradura Mirim, Vila Dutra, Jaraguá, e de vários outras comunidades carentes de Bauru, os menores frequentam, em dias diversificados, quase sempre os mesmos pontos: o cruzamento da avenida Getúlio Vargas com a rua Amadeu Sangiovani, no Jardim Aeroporto; o cruzamento das avenidas Nuno de Assis com a Nações Unidas, na região central; e o cruzamento da Nações Unidas com a Ibraim Nobre, no Jardim Planalto. Todos com grande circulação de veículos.
“No início do mês, eles saem em peso”, detalha Silvana Tarantella.
Ação x Inércia
Para se ter ideia, o Conselho Tutelar recebe média de uma denúncia por semana envolvendo jovens nos semáforos. O problema, no entanto, é que, ao chegar ao local, e se deparar com o menor, a equipe do Conselho pode apenas orientá-lo, oferecendo ajuda e acolhimento, mas quase sempre o apoio é negado.
“Não podemos forçá-los a nada. O ir e vir são direitos garantidos pela Constituição Federal” ressalta Ieda sobre as dificuldades do Conselho Tutelar em relação ao assunto.
Sobre a responsabilização dos pais, as conselheiras frisam que a rede tem trabalhado no sentido de fortalecer os vínculos dos menores com as famílias. “A perda da guarda só ocorre em último caso. Não adianta, porque o adolescente acaba fugindo do abrigo também. Por isso, fortalecer o vínculo é a melhor saída”, avalia Ieda.