Embora a cidade não tenha confirmado nenhum caso de leishmaniose contraído em 2015, os 20 registros da doença referentes ao ano passado (que culminou em dois óbitos) bastaram para que a Secretaria Municipal de Saúde voltasse a realizar o chamado “exame compulsório” em cães. A ação, que consiste em uma busca ativa, resultou na coleta de 1,6 mil amostras de sangue nos últimos meses.
Os bairros escolhidos foram justamente os que registraram os últimos casos em humanos. Apesar de ser classificado como compulsório, contudo, a população não é obrigada a deixar o agente realizar o exame e tampouco eutanasiar o animal. Mas, dependendo do caso, podem haver multas (leia mais abaixo).
Do total de exames feitos pelo município, 156 deram positivo para a doença. Destes, 32 cães já foram eutanasiados até o início deste mês pelo Centro de Controle de Zoonoses (CCZ).
A medida, que gera polêmica desde sua implantação em 2008, ano em que Bauru registrou auge de casos – 79 registros com oito óbitos -, ainda integra uma das principais ações previstas no protocolo de combate à doença.
Busca ativa
Mesmo com a tendência de queda nos números da leishmaniose nos últimos anos, a cidade ainda é considerada endêmica, segundo a Secretaria Municipal de Saúde. “Sendo assim, quando há uma avaliação veterinária constatando, por diagnóstico clínico, a leishmaniose, há indicação para eutanásia”, pontua a pasta.
Ainda de acordo com a secretaria, a eutanásia de cães faz parte da forma de combate porque ainda não há tratamento e vacina reconhecidamente eficazes.
Responsável pelas ações de prevenção, a Divisão de Vigilância Ambiental diz que as buscas ativas em Bauru ocorreram, até agora, no Parque Santa Cândida, Jardim Fonte do Castelo, Santa Luzia, Jardim Redentor, Jardim Petrópolis e Vila Nipônica.
A medida consiste basicamente na ação das equipes da vigilância, que saem às ruas batendo às portas dos moradores para a coleta do material sanguíneo dos animais.
O exame “compulsório” que culminou em 32 eutanásias teve início assim que o município recebeu a confirmação do Instituto Adolf Lutz dos últimos casos da doença, contraídos ainda no ano passado. A ação terá prosseguimento assim que houver novas confirmações. As visitas costumam ocorrer em um raio de até 500 metros de onde o registro em humano foi confirmado.
O exame
O resultado do exame é processado por um laboratório do CCZ, que informa o resultado ao morador, por telefone. O exame costuma levar até 15 dias para ficar pronto.
Entre os tipos de análises realizadas, estão a parasitológica, cujo método de pesquisa identifica a presença direta do parasita ou de algum de seus componentes, e a sorológica de antígenos totais, que informa a presença de anticorpos contra o parasita, como o Rifi (Reação de Imunofluorescência Indireta), o Elisa (Ensaio Imunoenzimático), além do teste rápido.
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Quioshi Goto |
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Nair com os cães Currila e Neguinha, que passaram pelo exame, mas resultado ainda não chegou |
‘Meus cachorros são minha família’
Não foi contra vontade que Nair Rosa Santos, 66 anos, concedeu a permissão aos funcionários da vigilância ambiental para que seus sete cães, todos adotados das ruas, passassem pelo exame compulsório no último mês. Pelo contrário, a moradora do Santa Luzia, bairro que registrou casos da doença em humanos no ano passado, faz questão de ressaltar a importância de ações de prevenção contra a leishmaniose na cidade.
Apesar disso, ela critica a postura do poder público em relação às eutanásias. “Ainda não recebi o resultado, mas se der positivo, não vou entregar, vou atrás de tratamento. Meus cães são minha família, fico com o coração na mão”, fecha questão a aposentada.
Morador não é obrigado a eutanasiar o animal, porém, pode ser autuado
Sintomas da doença em cães: atrofia muscular, diarreia, lesões oculares, sangramentos, descamação, úlceras e nódulos na pele
Embora o morador não seja obrigado a deixar a equipe coletar o sangue do animal, a pasta ressalta a importância do exame, que é gratuito, e possuiria a mesma eficácia que os realizados em clínicas particulares.
Nos casos em que há a confirmação da doença, existe a prerrogativa de os donos procurarem um veterinário particular para outro exame.
Neste caso, o proprietário assume a responsabilidade de apresentar a contraprova ao município, já que o CCZ não possui controle junto às clínicas particulares da cidade.
Apesar da indicação de eutanásia, o morador também pode negar a entrega do animal e recorrer aos chamados tratamentos alternativos, com uso de medicações humanas.
Contudo, a pasta afirma que o cão continuará hospedeiro da Leishmania e possuirá capacidade de transmissão da doença.
“Além do que esses tratamentos dão uma sobrevida ao animal, que, em algum momento, perde o efeito. Quando isso acontece, ele tem uma evolução rápida da doença e é levado a um estado crítico”, ressalta a vigilância, por meio de nota. É aí que surgem as autuações. Com a negativa, a equipe pode voltar a visitar a residência e, se o cão for encontrado debilitado, o responsável pode receber um auto de infração por maus tratos.
Conforme o JC divulgou no dia 5 de abril, há uma grande polêmica envolvendo a eutanásia dos animais. A ONG Naturae Vitae questiona quase 30 mil laudos de animais eutanasiados pelo CCZ entre 2010 e 2014. Um inquérito na Polícia Civil investiga o caso.
A doença
Trata-se de uma enfermidade transmitida pela picada do mosquito flebótomo (birigui ou mosquito de palha”) infectado. Introduz o protozoário Leishmania chagasi.
Nos caninos, os sintomas são: atrofia muscular, diarreia, lesões oculares, sangramentos, descamação, úlceras e nódulos na pele. A transmissão ocorre apenas por meio da picada do mosquito fêmea infectado.