10 de julho de 2026
Geral

Entrevista da semana: Manoel Batista Fernandes

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 7 min

Fotos: Éder Azevedo

"Os pequenos circos são fonte de inspiração”, diz Manoel Fernandes

Ele cuida do cenário, figurino, escreve o texto, canta, dança, toca, brinca, entra em cena... E tem um teatro em casa. A Entrevista da Semana deste domingo (17) conta um pouco da história e novidades de um artista com alma de artista, ou, como ele se define, um brincante teatral: Manoel Fernandes.


Nascido em Duartina, Manoel usa até hoje brinquedos de sua infância para os seus espetáculos. Em junho, ele apresentará sua 11ª Mostra Atucaec de Teatro em Casa. O artista também faz a sua estreia no Boneco Gira Boneco (Festival Internacional de Teatro de Bonecos), com programação em Bauru até 24 de maio.


“Tornei-me pioneiro em Bauru ao montar um espetáculo com cena de beijo no picadeiro: ‘Maquilagem Borrada’, o bonito beijo do Palhaço Farrapo e da Rosa Amarela, que emocionou o público pela delicadeza e surpresa”, lembra.


As experiências cênicas de Manoel começaram aos 9 anos, quando ele ganhou um brinquedo da avó. Este ano, a Companhia Atuar com Amor e Carinho (Atucaec), criada pelo artista, completa 20 anos. Manoel também é autor de 250 cantigas infantis e 30 textos autorais.


Jornal da Cidade - De brinquedo em brinquedo...

Manoel Batista Fernandes - Eu me vi artista! Tudo começou quando eu tinha 9 anos de idade. Em uma véspera de Natal, minha avó me deu um presente e disse que aquele era um brinquedo para toda a vida. Vi aquele gato de borracha grande e disse a ela que seu nome seria “Ão”. Desde então, para cada brinquedo que eu ganhava ou achava, eu fazia uma roupinha e uma certidão de nascimento, que ainda guardo comigo. Cada brinquedo meu ganhava uma história, uma personalidade. Toda a minha obra está focada em três palavras: nostalgia,  iconografia e infância. E três pessoas são de extrema importância: minha vovó Francisca, a minha mãe Iris e a minha tia Maria.


JC - E de história em história...

Manoel - De história em história e brinquedo em brinquedo, eu fiz a casinha do “Ão”. Havia uma fábrica de móveis perto da minha casa, de onde eu pegava restos de tábua e fazia pequenos móveis. Era meu passatempo. Meus amiguinhos iam em casa e eu contava as histórias como um espetáculo. Vivia intensamente cada história. Depois meu irmão Eurico ganhou um porquinho de borracha e brincávamos juntos em um quarto dividido entre as famílias dos brinquedos. O quarto ficou pequeno e fizemos um sítio no quintal de casa. Brincávamos com argila e plantávamos sementes. Começávamos brincando na casa do “Ão”, à tarde íamos para o sítio do “Totó” e à noite voltávamos para a casa do “Ão”. Brincávamos o dia inteiro. Até que meu irmão começou a jogar futebol e eu continuei com os meus brinquedos e os dele.   


JC - Você veio para Bauru ainda na infância?

Manoel - Vim para Bauru com minha família em 1985. Eu adorava Duartina, porque aprecio as coisas mais próximas. O artista não precisa de grandes centros para fazer a sua arte. Não sei se seria mais ou menos feliz se tivesse ficado lá. Escrevi também um texto em homenagem à minha terra Natal: “A Folia do Boi Lambeu”, que une teatro, circo e folclore. Mas foi Bauru que consagrou a minha obra. Jamais esperei, por exemplo, que um espetáculo meu viraria uma obra de balé. E foi o que aconteceu com “Os quatro sorrisos de Maria Feliz”, transformado em um balé completo pelo Ballet Vitória Régia, em 2014.


JC - Quando nasceu o seu primeiro texto?

Manoel - Já morava em Bauru quando escrevi o primeiro: “Os quatro sorrisos de Maria Feliz”, em 1992.  Mas bem antes disso, aos 9 anos, eu escrevi “O Natal do Conde Vampiro”. Também fazia historinhas para os meus brinquedos interpretarem.


JC - Quando você fez a sua primeira apresentação aberta ao público?

Manoel - Eu fazia minhas festas de aniversário e, em um determinado momento, parava tudo para apresentar teatro. “Os quatro sorrisos de Maria Feliz” foi o meu primeiro espetáculo apresentado. E jamais imaginei que esse mesmo espaço se tornaria o palco onde faço as apresentações do Atucaec. Gosto de fazer apresentações com o público em volta. A plateia participa sem perceber. Durante seis anos fiquei somente com essa peça e com o mesmo elenco, fazendo apresentações pela Oficina Cultural. Também fiz apresentação quando o Teatro Municipal foi inaugurado. Levava o elenco para visitar dona Celina Neves. Bauru tem o professor Antônio João Fraga Padilha, uma referência artística para mim, por fazer cultura de bolso. Eu sempre levava meus elencos para as noites de poesia em sua residência. Em 2007, ele veio em casa ver uma de minhas apresentações. Foi uma honra.    


JC - A Companhia Atuar com Amor e Carinho (Atucaec) chega em sua 11ª mostra...

Manoel - Sim. A 11ª Mostra Atucaec de Teatro em Casa será realizada nos dias 5, 6 e 7 de junho, sempre às 19h30. A primeira edição foi realizada em 2004. Faço o chamado teatro de bolso, feito no bolso do coração, ou seja, onde você vive. Tenho um livro escrito para a comemoração dos 20 anos do Atucaec: “Mariana me ama”.  Eu sempre preciso de elenco para os textos do Atucaec, então mantenho uma oficina chamada Palco Mágico. Coloco pessoas que nunca entraram em cena em contato com o palco.


JC - Qual é o seu sonho?

Manoel - Meu sonho é ter uma cooperativa de teatro onde eu possa ter elenco à vontade para realizar montagens cênicas o ano inteiro e oferecer isso principalmente às pessoas que eu sei que têm vontade de estar na plateia de um teatro ou de um circo, mas não têm oportunidade. Como acontecia nos pequenos circos da minha infância. A plateia junto do espetáculo, com pipoca, brincadeiras... Esses pequenos circos são fontes de inspiração. Hoje estou sem elenco, não sei o que acontece. Para participar é preciso somente ter vontade de entrar em cena e se identificar com a minha proposta, que no caso é circo, folclore e teatro puro. Faço teatro artesanal, mas com postura profissional. E o elenco aprende de sonoplastia a iluminação e tudo mais.


JC - Você já quis ter outra profissão?

Manoel - Eu sempre quis brincar a vida toda. Confesso que tentei outras coisas, mas todo emprego que eu arrumava eu deixava de lado pelo teatro. A arte está na minha alma. E quando você nasce artista, pode tentar fugir da sina, mas não consegue. Eu fiz faculdade de artes plásticas e de matemática. Dei aulas de matemática por uns 10 anos. Eu estou sempre estudando, fazendo cursos e me aprimorando.

Éder Azevedo

Em 2014, Manoel ganhou prêmio de “artista brincante teatral”

JC - Sobre prêmios.

Manoel - Ganhei um em um festival de dança com o Ballet Vitória Régia, na Argentina. Eu faço parte do grupo há 20 anos. Não me considero um bailarino, mas eu sou um bom parceiro para as meninas, o que é um mérito. No ano passado, ganhei um prêmio em Bauru como “artista brincante teatral”. Não me considero um ator. Eu sou um brincante teatral. Sendo assim, posso voar por todas as vertentes cênicas.  


JC - Este ano você faz sua estreia no “Boneco Gira Boneco” (Festival Internacional de Teatro de Bonecos), em Bauru até 24 de maio.

Manoel - A Mariza Basso ficou encantada com a minha relação com os brinquedos, que para mim têm vida. E eles me chamaram para participar desta edição. É um momento mágico na minha vida e espero que isso abra outras portas.


Perfil


Nome: Manoel Batista Fernandes

Idade: 48 anos

Signo: Áries

Local de Nascimento: Duartina/SP

Libro de cabeceira: “O Pequeno Príncipe” e “Memórias da Emília”, de Monteiro Lobato

Hobby: Ouvir rádio AM, fazer atividade física e ler revista em quadrinhos

Filme preferido: “O Mágico de Oz”, “A Menina e o Pássaro Azul” e “A Noiva Cadáver”

Estilo musical predileto: Gosto de música erudita, rock, MPB, sertanejo de raiz e música folclórica, como a de terreiro

Time de futebol: Palmeiras 

Para quem dá nota 10: Para os que abraçam o dom artístico que Deus deu e o coloca em prática, e para a minha mãe, dona Iris

Para quem dá nota 0: Infelizmente, para a educação que temos em nosso País 

E-mail: https://www.facebook.com/Atucaec