09 de julho de 2026
Geral

Falta de higiene favorece as pragas nas cidades

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 14 min

Éder Azevedo

 A pulverização residencial é indicada pelos técnicos para casos pontuais, e não mais para grandes áreas

Pra começar esta matéria acertando “na mosca”, sem trocadilho, a definição mais objetiva é: praga urbana por inseto é sinônimo de falta de higiene humana. Ao pé da letra é isso que repetem todos os especialistas e agentes públicos sanitários que lidam com o aumento da população de mosquitos, baratas, escorpiões, ratos e outros.


Além dos frequentadores habituais nas casas - como baratas e roedores -, a falta de higiene associada à abundância de alimento tem contribuído para a visita de “novos moradores”, como os mosquitinhos de fruta e de banheiro. Mas estes também passaram a ser presença comum em quintais, onde fezes de animais “chamam” para o banquete diário.


Segundo o Instituto Biológico de São Paulo, o mais especializado do País no setor, a explicação para a evolução dos casos e das complicações está associada aos quatro “As”. “Água, abrigo, acesso e alimento formam as condições adequadas para o surgimento das pragas, somada a facilidade em reprodução em maior frequência e velocidade, sobretudo em períodos de temperaturas mais altas, onde a oferta de água e alimento é maior”, aponta estudo enviado pela assessoria de imprensa do órgão. O Instituto Biológico (IB) é ligado à Agência Paulista de Tecnologia Agrícola (Apta).


Mas se você está considerando que o inverno vai tirar esses “bichinhos” de sua casa, engana-se. A oferta de alimento continua abundante e, no Centro do Estado de São Paulo, é curto o período de frios com maior intensidade.


É fato, entretanto, que nos períodos de calor a situação piora. Daí a explicação para a maior proliferação de mosquitos e pernilongos nos longos períodos de estiagem. Eles se reproduzem na água, nela põem ovos e por lá larvas e pupas se desenvolvem.


Nos períodos chuvosos a multiplicação é ainda maior, ainda que o ser humano, novamente, contribua com fartura para o aparecimento de epidemias por manter uma série de locais com acúmulo de água durante o ano todo: caixas d’água, ralos e piscinas não cuidadas. Com as chuvas, a ausência de manutenção em calhas e a não eliminação de pneus, latas e vasos com água limpa gera criadouros “naturais” de mosquitos.


Segundo a Divisão de Vigilância Ambiental da Secretaria Municipal de Saúde em Bauru as pragas mais comuns na cidade são de roedores, baratas, mosquitos, escorpiões e mosquitos. No último caso, notadamente o mosquito transmissor da dengue é o que tem causado mais preocupação na população (Aedes aegypti), em razão dos efeitos da doença, inclusive com óbitos.


“Com certeza os fatores determinantes na disseminação e incremento de índices de infestação das pragas são a falta de higiene, por comportamento inadequado da população na manipulação de alimentos e pela cultura do descarte irregular do lixo, doméstico ou não”, confirma o setor. As questões formuladas pelo JC foram coordenadas pelo médico Mário Ramos, integrante do Centro de Controle de Zoonoses.


Falta de higiene humana é, de outro lado, fator desagregador de qualquer política pública de saúde, explicam os especialistas consultados. Isso porque o poder público, a despeito de suas deficiências no combate e na resolutividade e aplicação de ações preventivas e educacionais, não consegue reverter o quadro em razão da manutenção em escala da origem do problema: a falta de higiene e limpeza por parte das pessoas.


“A falta de higiene e limpeza proporciona, associada a maus hábitos pelos usuários, mais oferta de alimentos às pragas. Isso associado à falta de organização ambiental nas instalações, como a presença de entulhos, restos de materiais de construção e até mesmo arquitetura inadequada do imóvel – o que favorece oferta de abrigo fácil á fauna sinantrópica – ampliam o efeito das pragas”.


Tanto a equipe da Divisão de Vigilância quanto do Instituto Biológico define que para o controle da praga é fundamental o conhecimento de sua biologia e hábito e a delimitação de ação estratégica para inibir e minimizar as causas.


Saída é combate aos quatro erros

Não tem jeito, qualquer abordagem para atacar as pragas urbanas por insetos recai sobre evitar “abrigo, acesso, alimento e água” para os bichinhos.


“A presença de abrigos temporários ou permanentes depende da higiene em frestas, cantinhos, canaletas, lugares onde a limpeza não é tão frequente. Além disso, o combate também depende de impedir o acesso das pragas às instalações combinado com a não oferta de alimentos. Com isso as infestações diminuem e, rapidamente, podem ser eliminadas”, elenca a Divisão da Vigilância Ambiental da Prefeitura.


No âmbito de estudos, as ações são denominadas de Controle Integrado de Pragas. Segundo Francisco José Zorzenon, pesquisador do IB, para cada praga há um protocolo específico de ação que deve ser seguido. “Quanto mais fatores essenciais forem supridos menores as chances de elas se estabelecerem. Mas o controle ou o tratamento da praga é diferente para cada caso. Não existe inseticida ou produto para controlar que sirva para todas elas”, menciona.


Para ter acesso a cada protocolo, o Instituto Biológico disponibiliza contato eletrônico (https://www.biologico.sp.gov.br), aponta a assessoria de imprensa da Apta. Segundo a assessoria, o Instituto recebe anualmente mais de mil consultas sobre pragas urbanas. Elas são respondidas pelos pesquisadores da Unidade Laboratorial de Referência em Pragas Urbanas, cujo diretor é Francisco Zorzenon.

E o fumacê


Muitos moradores questionaram por que a Secretaria de Saúde não realiza mais o antigo serviço de pulverização coletivo, por bairro e entre quarteirões, para matar ou espantar o transmissor da dengue.


Ambientalista, o prefeito Rodrigo Agostinho comenta a situação. “A questão é que o mosquito foi ficando resistente a seguidas dosagens do veneno diluído em água e os municípios foram aumentando a dosagem. Até que chegou-se a um ponto em que a pulverização poderia significar riscos à saúde humana”.


Segundo ele, com dosagens elevadas por litro de água na mistura do veneno, os mosquitos sobreviventes à pulverização se procriaram, gerando uma geração inteira mais resistente. “Para reverter esse quadro, o fumacê está sendo utilizado para ações dirigidas, e não em grandes áreas”, finaliza.


O que são pragas urbanas?


O Instituto Biológico de São Paulo define como pragas urbanas todos os organismos que alcançam nível de dano econômico, ligado direta ou indiretamente ao homem, seus alimentos e seus pertences. Conforme o diretor do IB, Francisco Zorzenon, “o conceito de pragas urbanas vai além do fator econômico, pois são considerados também aspectos sociais e emocionais, ligados à saúde humana, em que a praga, em si, causa incômodo e desconforto, interferindo na qualidade de vida da população”.


Dessa forma, insetos e outros animais que vivem em “contato íntimo” com o homem entram no grupo dos sinantrópicos. Entre eles estão os ratos, morcegos, pombos e aracnídeos,


Estes estão associados à presença nas cidades, invadindo e colonizando locais necessariamente habitados. Nesses locais, eles praticam danos a construções, interferindo ainda na ornamentação de parques e jardins, sem contar a transmissão de doenças.


“Esses animais podem causar grande incomodo e desconforto em todos os níveis sociais, devido à alta adaptabilidade, capacidade reprodutiva e quantidade de abrigos e alimentos encontrados em áreas urbanizadas”, lembra Zorzenon.


A alta capacidade reprodutiva, associada à competição e predação reduzidas, contribuem para o surgimento das pragas. Outros fatores são a fácil adaptação ao meio urbano, alimentação diversa, abrigos abundantes e dispersão facilitada pelo próprio homem em seu meio.


“O quadrinômio água, abrigo, alimento e acesso, gerado pelo desequilíbrio ambiental – lixões, falta de saneamento básico, tratamento inadequado da água, – inerente à cultura humana, possibilita que diversas pragas usufruam da hospitalidade inconsciente das cidades, dificultando o dia a dia de seus habitantes”, reforça.

O mosquitinho nosso de cada dia...


Divisão de Vigilância Ambiental alerta que acúmulo de restos de comida e fezes pode desencadear proliferação de moscas e insetos na cidade

Quioshi Goto/Arquivo

Infestação de mosquitos em figueiras levou à eliminação delas na Rodrigues Alves, no passado

Em geral, há uma relação proporcional direta de causa e consequência entre restos de materiais orgânicos e dejetos e a presença de mosquitinhos e moscas. Neste universo, o ‘descuido’ com os “montinhos” de fezes de seu adorável animal no quintal e a presença da “nuvem” de mosquitinhos sobre frutas em estado adiantado de amadurecimento (ou podres), além de restos de alimentos, atraem incondicionalmente moscas e insetos, como o mosquito palha, este último transmissor da leishmaniose.


Por esta razão, quem tem este “cenário” em casa, não precisa de mais nenhuma explicação para a incômoda visitação dos mosquitinhos com tamanho equivalente à cabeça de um alfinete. E quem os conhece sabe que, em “bando” ou não, eles infernizam.


Para o combate por desinsetização, apenas uma ação isolada não é recomendada pelos órgãos oficiais. A Divisão de Vigilância Ambiental responde que “o uso de produto químico, mesmo da chamada ‘barreira química’, só será eficaz quando acompanhado de um “bom controle integrado de pragas no local”. E isso depende do comprometimento de todos na manutenção de medidas preventivas das infestações.


Medidas


Mas quais medidas devem ser adotadas quando a praga passa a incomodar, gerar consequências? A equipe da Divisão Ambiental elenca os cinco passos fundamentais. Mas todos convergem para o binômio educação-higiene (leia abaixo).


“Um bom diagnóstico das infestações, implantação de um bom programa de controle integrado de pragas, adoção de barreiras de acesso, adoção de educação sanitária a todas as pessoas envolvidas no  local e boas praticas de higiene e manipulação de alimentos”, responde.


Sem seguir à risca os cinco passos, a batalha contra moscas e insetos estará perdida. Portanto, pouco importa se a infestação é por mosquinha de fruta, de banheiro, de fezes ou outro elemento.


Apesar de pertencerem à mesma família dos mosquitos palha (transmissores da leishmaniose ou úlcera de bauru) as mosquinhas não são transmissoras de doenças. No entanto, causam grande incômodo pela simples presença ou levam a entomofobia (pavor de insetos). Se você não quer ter essas moscas voando em seu banheiro, mantenha o local sempre muito limpo.


Nove cuidados básicos


Seja qual for o manual de procedimentos básicos para evitar a infestação, a higiene e os “bons modos”, como dizem os mais vividos, estão sempre presentes. A equipe de Vigilância do município os elencou.


- Primeiro: Verificar os locais onde há acúmulo de lixo, recolhendo-o ou fechando-o hermeticamente; manter a casa sempre limpa e o terreno do entorno sempre capinado e limpo; remover diariamente todo o lixo em sacos plásticos, principalmente restos alimentares, e lavar periodicamente a lixeira, mantendo-a seca e bem fechada.

- Segundo: Conservação dos alimentos de modo a impedir o alcance das baratas; doces, pães, biscoitos devem ser guardados em vasilhas bem fechadas ou na geladeira.

- Terceiro: Limpeza quinzenal de caixas de gordura, mantendo-as sempre bem fechadas.

- Quarto: Eliminação dos abrigos, rebocando-se ou vedando com silicone frestas e outras fendas; eliminação de mesas e armários de madeira das áreas de alimentação. As frestas de armários de cozinha, em cima e abaixo da pia, devem ser vedadas. O interior desses armários deve ser limpo de forma periódica.

- Quinto: Limpeza diária do fogão e embaixo da geladeira; deixar a bancada da pia bem seca e limpa, sobretudo durante a noite

- Sexto: Revisão de mercadorias e descarte total de todas as embalagens de   papelão ou de madeira usadas para o transporte de alimentos (insetos   adultos ou seus ovos são disseminados desta maneira).

- Sétimo: Eliminação/inspeção dos locais de acesso, tais como: conduítes   elétricos, canalizações de águas pluviais, interruptores de luz, saídas  

de telefones, etc. Manter bem justas as tampas, trocando os espelhos de   tomadas ou interruptores quebrados.

- Oitavo: Limpeza periódica dos ralos da cozinha, área de serviço e banheiros. Usar ralos do tipo abre e fecha para impedir a passagem de insetos quando em desuso.

- Nono: Vedação de borracha em todas as portas que dão para o exterior das   edificações.

Combate a baratas


A Divisão de Vigilância considera que a estratégia básica de controle de baratas implica na adoção de medidas de saneamento do meio e aplicação de inseticidas nas áreas de abrigo o inseto. Atualmente, informa, existem vários tipos de formulações inseticidas que podem ser aplicadas com segurança e eficácia no ambiente doméstico, desde formulações líquidas, até sólidas (iscas a base de gel, grânulos, armadilhas, etc.). 


“A aplicação de inseticidas deve ser orientada para os locais de abrigo   destes insetos, assim como frestas e ranhuras existentes na estrutura. Podem ser aplicados também em superfícies, visando os locais por onde a barata supostamente irá caminhar (aplicações em banda, nos cantos deparedes e aplicações ao redor do domicílio ou peridomiciliar)”, acrescenta a equipe especializada. 

Esses odiados bichinhos se animam com a chegada da estação, porque é nessa época que se reproduzem com maior facilidade, graças à aceleração de seu metabolismo. Como todo inseto, as baratas não produzem calor e precisam de um lugar quentinho para se abrigar - entre 25 e 28 graus - já que dependem exclusivamente da temperatura ambiente. Portanto, nas noites quentes é melhor se preparar: a chance de alguma barata cruzar o seu caminho é grande. As baratas são insetos muito antigos, com ancestrais datados de 300 milhões de anos (período Carbonífero da era Paleozóica).


Dentre as mais de cinco mil espécies existentes no mundo, duas se destacam no meio urbano: a Blattella germânica, pequena, amarronzada e achatada, com duas listras pretas longitudinais nas costas, e a Periplaneta americana, grande, castanho avermelhada, com mancha amarelada em volta das costas.


E o Lacerdinha? 


O político Carlos Lacerda, de tão perturbador em sua época, foi “homenageado” em Bauru, no final dos anos 70, em razão da infestação de mosquitinhos em árvores espalhadas no canteiro da avenida Rodrigues Alves, conforme imagem de 1978. Consta que os mosquitinhos adoravam as figueiras e a infestação foi tal que a saída foi eliminar as árvores do canteiro. A Secretaria do Meio Ambiente (Semma) confirma que o episódio foi uma infestação que ocorreu em algumas espécies de árvores “há anos e que causava alergia nos olhos das pessoas. Tal fato pode ter ocorrido devido à falta de diversidade de espécie arbórea na época, fazendo com que a praga atingisse a mesma espécie de arvores existentes numa determinada área”, comenta a pasta.


O editor do caderno Bauru Ilustrado do JC, Luciano Dias Pires, viveu in loco a situação. “Era um inferno e ardia o olho das pessoas. Além disso, no canteiro da avenida haviam bancos e os casais deixaram de namorar e bater papo na avenida, que era bem arborizada, por causa do mosquito Lacerdinha, uma alusão ao político oposicionista Carlos Lacerda que teve sua trajetória marcada por posicionamentos fortes contra o governo brasileiro, sobretudo a partir da década de 50. Era o chato, para quem estava no governo.

Mosca doméstica busca resíduos orgânicos em decomposição

Reprodução

A espécie de maior interesse médico/sanitário é a mosca doméstica (Musca domestica - a este gênero Musca pertencem aproximadamente 60 espécies) e sua ocorrência, distribuição e predominância são fatores de grande importância para à avaliação das condições de saúde de uma população, pois indicam os seus hábitos de higiene e de organização tanto doméstico como empresarial, segundo a Divisão de Vigilância.


Em relação às moscas, “quando adultas e fecundadas, as fêmeas procuram resíduos orgânicos em decomposição (esterco, cadáveres, lixo orgânico, etc.) para a realização da postura. Elas são geralmente ovíparas (depositam ovos) ou vivíparas (depositam larvas)”, informam.


Os técnicos acrescentam que ao  pousarem em materiais contaminados, elas podem ingerir e/ou reter (nas patas, nos pelos, etc.) germes patogênicos e ovos de parasitos.


Assim, sua ação como vetor mecânico de doenças e/ou na contaminação de alimentos e utensílios domésticos pode ocorrer através do contato de seu corpo piloso ou ainda pela regurgitação e, por suas fezes.


As mosquinhas de banheiro (também conhecidas como mosca dos filtros ou mosca dos ralos) são mais próximas dos mosquitos do que das moscas propriamente ditas e pertencem a família Psychodidae.


Segundo Francisco José Zorzenon, diretor técnico da Unidade Laboratorial de Referência em Pragas Urbanas do Instituto Biológico, as principais espécies são do gênero Psycoda, sendo as mais comuns: Psychoda alternata, P. cinerea, P. satchelli, além da espécie Telmatoscopus albipunctatus.


Os adultos, muito pequenos (cerca de 2 mm), possuem corpo robusto com muitas cerdas, asas recobertas por densa pilosidade, aspecto semelhante a uma pequena mariposa e coloração variando entre o marrom claro e cinza.


Esses insetos tem hábitos noturnos: as fêmeas botam grupos de 10 a 200 ovos, com eclosão entre 32 a 48 horas. Ovos, larva e pupas são encontrados em locais úmidos, junto a películas orgânicas (formadas por resíduos da descamação natural da pele, cabelos, pelos, fungos, etc.) presentes em banheiros e cozinhas, em ralos, canos de esgoto, junções de vasos sanitários e boxes de banheiro, frestas de azulejos e paredes.


O ciclo da larva é de aproximadamente 9 a 15 dias e o da pupa em torno de 20 a 40 horas. O processo do ovo ao inseto adulto leva aproximadamente duas semanas, dependendo das condições ambientais e de disponibilidade de alimento. “Os adultos fazem voos irregulares e de autonomia reduzida, permanecendo nas proximidades de ralos e paredes, junto à umidade de banheiros e cozinhas”, explica Zorzenon. Vivem nesta fase cerca de 15 dias.


Barreira química


Alguns prestadores de serviços de desinsetização vendem um serviço furado, a chamada barreira química. O pior, cobram por metro quadrado com a promessa de isolar as casas da chegada de pragas urbanas.  Contudo, baratas e cupins chegam pelo alto, sim voando. E a barreira química não faz sentido nesses casos. Outro problema é que basta uma boa chuva para o produto químico ser lavado do chão.